Do Cinema para a TV

A relação entre cinema e televisão vem se modificando e se adaptando desde que os meios passaram a coexistir, a partir da segunda metade da década de 1930. A princípio, os estúdios cinematográficos renegaram a televisão, rotulando-a como uma novidade passageira, mas no fundo tinham receio de perder seu espaço no mercado do entretenimento. Quem gostaria de sair para ir ao cinema quando poderia ficar em casa assistindo a programação gratuita na TV? Para combater esse concorrente, os estúdios se recusaram a vender seus filmes para compor as programações dos canais. Com o tempo, a mentalidade mudou, e muitos perceberam que não apenas vender seus filmes, mas também possuir seus próprios canais, poderia ser sua salvação.
O cinema definitivamente não morreu com o advento da televisão, mas sua lucratividade certamente diminuiu. Atualmente, são raros os filmes que saem do vermelho apenas com a projeção cinematográfica; é a vida de um filme após o circuito de cinemas que o salva da bancarrota: DVDs, video on demand (VOD) e exibições na televisão. A programação dos canais televisivos, contudo, tem se tornado mais sofisticada e atraído mais público. O equilíbrio conquistado com a cooperação está mudando gradativamente, com a balança pendendo para a televisão e com o cinema sofrendo sua maior ameaça desde a invenção desta.
Mudança de padrões e de comportamento
Diversos fatores podem ser apontados para explicar a preferência do público pela televisão em detrimento do cinema. Aparelhos cada vez maiores e com melhor qualidade de imagem a um menor preço contribuem, o fato de uma entrada de cinema custar em torno de dez dólares (ou mais, dificilmente menos), também. No Brasil ainda podemos contar com a meia entrada estudantil, entre outros benefícios; nos Estados Unidos, a meia entrada fica a critério do cinema, que pode ofertá-la em apenas um dia da semana, ou definitivamente não tê-la.
Além do custo, o “ritual” de se assistir a algo em casa é diferente de no cinema. Em casa é possível tirar os sapatos, aumentar ou abaixar o volume, conversar ou atender o telefone durante programação. No entanto, o advento que revolucionou a televisão nos últimos anos foi a possibilidade de pausar a programação e recomeçá-la quando conveniente, como permitem alguns provedores de TV a cabo e sistemas como Netflix, Hulu e Amazon. Estes últimos saltaram mais um passo a frente: permitiram ao usuário escolher sua programação a seu bel-prazer, com milhares de filmes e seriados disponíveis sem a necessidade de se deslocar até a locadora ou depender da programação dos canais.
A mudança do formato, porém, não é a única responsável pela mudança do comportamento. O conteúdo dos programas de televisão, em especial os seriados, vem se tornando cada vez melhores e atraindo cada vez mais fãs que, com a possibilidade de assistirem a temporadas seguidas no Netflix, se tornam verdadeiros “viciados”.
O ritmo rápido das séries de TV, que apesar de se arrastarem por anos, temporada após temporada, ainda precisam apresentar em cada episódio um enredo com inicio, meio e fim, e com momentos de virada dramática e clímax, cativa o espectador. Enquanto um filme consiste em aproximadamente duas horas de uma única historia que ao terminar não permite ao espectador continuar seguindo aqueles personagens, a série de TV apresenta em cada episódio uma historia acabada, mas que pertence a um universo maior do que o que cabe em um filme, e que é construído de pedaços coletados aos poucos. A série de TV precisa cativar novamente o espectador e deixa-lo querendo mais a cada episódio, e isso requer um esforço extra que, quando bem-feito, é certamente apreciado.
Aaron Paul e Bryan Cranston em Breaking Bad, série que atingiu 10.3 milhões de espectadores em seu último episódio.
Intercâmbio entre Cinema e TV
Não são apenas os usuários que estão preferindo a televisão, muitos profissionais já renomados no cinema vem diversificando seu trabalho para abranger também a telinha. Entre eles temos Martin Scorsese, que é produtor de Boardwalk Empire, além de ter dirigido um episódio da série; Robert Rodriguez, que adaptou para a TV seu filme From Dusk Till Dawnem formato de série, e já fala também em uma versão seriada de Sin City; e os atores John Malkovich, atuando em Crossbones, Eva Green, em Penny Dreadful, e Halle Berry, em Extant, entre outros. Se antigamente ser um ator de televisão era considerado um trabalho de segunda categoria, esse pensamento com certeza está mudando.
No entanto, em se tratando de diversificar sua área de atuação ninguém bate Steven Spielberg. Adiantado, ele já vem empregando seu nome a produções televisivas há mais de vinte anos, tendo recentemente produzido The Pacific, United States of Tara, Smash, Falling Skies e Under the Dome, entre outros. O mais novo lançamento televisivo com a marca Steven Spielberg de produção é Red Band Society, um drama sobre a vida de adolescentes que vivem em um hospital, com estreia prevista para setembro nos EUA.
 Game of Thrones: o sucesso que trouxe milhares de assinantes à HBO.
Um pouco de matemática financeira ajuda a explicar o crescimento da televisão. Cada episódio de Game of Thrones, por exemplo, custa entre $6 e $10 milhões, o que deixa o custo por temporada na casa dos $100 milhões de dólares, o que é considerado altíssimo em termos de televisão. O orçamento de O Grande Gatsby (2013), de Baz Luhrmann, foi de $105 milhões de dólares, o que para Hollywood é considerado normal. Em se tratando de cinema, porém, ainda é preciso acrescentar os custos com marketing e distribuição, que para um filme desse escopo não ficam por menos de $50 milhões. Sendo assim, para ser lucrativo, O Grande Gatsbyprecisaria arrecadar mais de $150 milhões. O acordo dos estúdios com as cadeias de cinema gira em torno dos 50%, ou seja, metade do arrecadado em bilheteria fica para os cinemas, metade retorna para o estúdio. Para pagar seus custos de produção, portanto, o filme precisaria de uma bilheteria na casa dos $300 milhões. Acabou atingindo $350, o que a grosso modo significa um retorno de $25 milhões para o estúdio, que ainda precisa distribuir esse montante entre seus investidores.
A HBO, por outro lado, precisa conquistar e manter assinantes. Ao investir em uma programação de qualidade, da qual Game of Thrones é o seriado mais assistido, o canal conseguiu atingir a marca de 40 milhões de clientes, que pagam cerca de $10 dólares por mês pelo serviço, gerando um ganho mensal de $400 milhões de dólares. Custos operacionais e de marketing à parte, o fluxo de capital é imenso.
Por fazer parte dos canais chamados “prime cable”, a HBO é mais exceção do que regra, mas acaba servindo para ilustrar a tendência da produção televisiva americana: mais dinheiro investido e mais qualidade de programação. Os canais abertos dos EUA, como a CBS, que produz NCIS e Under the Dome, e a NBC, com Crossbones e Hannibal, estão buscando “qualidade HBO” para poderem competir com a TV a cabo. Amazon e Netflix também tem investido na criação de conteúdo original, priorizando o formato TV perante o formato filme.

Com uma dificuldade cada vez maior dos estúdios em recuperarem o dinheiro investido em filmes, e com as produtoras de televisão mirando em uma qualidade mais cinematográfica (em cenários, figurinos, atuação, iluminação, direção, etc), e recebendo um alto lucro como conseqüência, a industria do cinema se vê mais ameaçada pela televisão do que nunca. 
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Comédias – temporadas 2013-2014

Fazer comédia é reconhecidamente difícil. O que é engraçado para uns não necessariamente o é para outros, e quando agradar a um vasto publico é essencial para o sucesso, o desafio aumenta. Justamente por isso que quando uma série nos faz dar aquela gargalhada aberta e genuína, sabemos imediatamente que ela é preciosa. Aqui vai a meu resumo do que foi mais precioso e vale a pena ser acompanhado (e o que vai deixar saudades) entre novatas e veteranas nessa mais recente leva de comédias.
As que surpreenderam
Mom – 1ª temporada
Christy (Anna Faris) é uma mãe solteira que trabalha como garçonete em um restaurante de luxo e luta contra o alcoolismo, frequentando reuniões de grupos de apoio para se manter sóbria. Após ter uma péssima infância graças à sua mãe também ter sido alcoólatra e viciada em drogas, Christy decide mudar sua vida para ser um melhor exemplo a seus filhos, Violet (Sadie Calvano) e Roscoe (Blake Garrett Rosenthal). Essa transformação é dificultada pelo retorno de sua mãe, Bonnie (Allison Janney), que também busca redimir seu passado.
Essa descrição parece se encaixar mais a um drama do que a uma comedia, mas acredite, Mom foi uma das séries que mais gerou risadas nessa temporada 2013/2014. A dinâmica de Anna Faris e Allison Janney é afiada, e o roteiro fornece às duas um material digno de seus talentos. As piadas caem frequentemente no humor negro. Compreensível, afinal, quando se quer rir de assuntos como alcoolismo, câncer e cadeia, piadas leves dificilmente acertam o alvo. Que venha a segunda temporada.
Allison Janney e Anna Faris interpretam mãe e filha em Mom
Brooklyn Nine-Nine – 1ª temporada
Mais uma nova queridinha na minha lista, que estreou já com um Globo de Ouro de melhor comédia e de melhor ator para Andy Samberg, que estrela como o detetive irreverente Jake Peralta. Não sei se a escolha do nome foi intencional, mas Jake é tudo o que a expressão em português “peralta” define. Apesar de gostar de fazer piadas e pegadinhas, Jake é um detetive competente, um dos melhor do distrito de polícia 99, no Brooklyn. Jake tem uma aposta com a colega Amy Santiago (Melissa Fumero) para ver qual deles consegue prender mais bandidos ate o final do ano. Se Amy perder, tera que sair com Jake no que ele promete que será “o pior encontro da vida dela”.
Outros destaques da série são Terry Crews, como o Sargento Terry Jeffords, e Stephanie Beatriz como a assustadora detetive Rosa Diaz.
Andy Samberg e Melissa Fumero como os detetives Peralta e Santiago.
As que mantiveram o pique
The Big Bang Theory – 7ª temporada
Apesar de não ter sido unanimidade entre os críticos em sua primeira temporada, The Big Bang Theory conquistou o coração dos fãs desde o início, se estabelecendo nas temporadas subsequentes não somente como um sucesso de público, mas como uma das melhores séries de comédia dos últimos tempos. Não é surpresa que a sétima temporada tenha mantido o padrão.
The Big Bang Theory tem agradado tanto que a CBS, em um gesto raro dentro do universo televisivo, se adiantou e já garantiu a renovação da série até a décima temporada.
Modern Family – 5ª temporada
Poucas séries são capazes de manter sua alta qualidade com tamanha maestria quanto Modern Family. Em sua quinta temporada, a sitcom teve como destaque o casamento de Cameron (Eric Stonestreet) e Mitchell (Jesse Tyler Ferguson), que pudemos acompanhar desde o estresse dos preparativos até o dramático dia da cerimônia.
The Middle – 5ª temporada
A família Heck passa por grandes mudanças nesse ano em que Axl (Charlie McDermott) se muda para a faculdade. Frankie (Patricia Heaton) precisa se adaptar a ausência do primogênito e ao novo emprego, enquanto Mike (Neil Flynn) continua… bem, Mike.
Essa quinta temporada foi especialmente bem construída. Ate mesmo Sue (Eden Sher), personagem que sempre considerei destratada por produtores e roteiristas, teve mais momentos de crescimento e dignidade do que na maioria das temporadas anteriores. O destaque, contudo, vai para Axl tentando reconquistar na faculdade o lugar de macho alpha que tinha no ensino médio, e para o épico episódio em que a família viaja para a Disney.
As que deixarão saudades
Raising Hope – 4ª temporada
A Fox decidiu cancelar Raising Hope após curtas quatro temporadas. Após a saída do criador Greg Garcia, a serie foi transferida para o horário de sexta-feira à noite, o que na televisão americana é considerado praticamente um suicídio. Enquanto no horário original de terça-feira Raising Hope conseguia manter uma audiência mais do que satisfatória, na sexta-feira à noite os índices despencaram. Isso ajuda a entender o porquê de a série ser cancelada em seu auge. Explica, mas não deixa os fãs menos tristes.
Nessa temporada pudemos acompanhar as loucuras da família Chance em sua forma mais criativa, em especial as situações envolvendo Virginia (Martha Plimpton) e Burt (Garret Dillahunt). Tivemos Burt criando sua própria moeda e descobrindo que ser prefeito de Natesville não é nada fácil, Virginia foi obrigada a se dar bem com sua prima Delilah e conseguiu uma promoção no emprego, e Jimmy e Sabrina re-encenaram o nascimento de Hope. A quarta temporada foi, sob vários aspectos, a melhor da série. Vai deixar saudades.
A família Chance se despede da TV na quarta temporada.

Parks and Recreation – 6ª temporada
Enquanto o final de Raising Hope foi súbito, a NBC decidiu dar a Parks and Recreationmais uma temporada para se despedir dos fãs, ou melhor, para que os fãs possam se despedir da série. Após um período de dúvidas, foi anunciado que a próxima será a sétima e última temporada da sitcomestrelada por Amy Pohler.
A sexta temporada conquistou um raro indice de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, e mostrou, entre outras situações, a gravidez de Ann (Rashida Jones) e a luta de Leslie (Pohler) contra um recall eleitoral com o intuito de tirá-la do cargo de conselheira da cidade. As piadas quanto a absurdidade dos costumes de Pawnee e suas leis atrasadas, a rivalidade com Eagleton, as aventuras empreendedoras de Tom (Aziz Ansari) e a sabedoria máscula de Ron Swanson (Nick Offerman) continuam geniais. E no meio da temporada, com a saída de Rashida Jones e Rob Lowe, Retta e Jim O’Heir ganham mais espaço como Donna e Jerry. Merecido.
O último episódio revela o quão incerta era a renovação de Parks, que só foi decidida após o final da temporada. Com um especial de uma hora digno de series finale, os produtores se precaveram caso a série não fosse ao ar novamente. A pergunta que fica agora é: tendo a sexta temporada terminado com um salto de três anos no tempo e com um tom de encerramento, a partir de que ponto a sétima retomará? Os fãs de Leslie Knope e companhia estão ansiosos para a resposta, mas essa só vira em janeiro, já que a série agora foi escalada para a midseason, com número de episódios ainda não confirmado.  
Parks and Recreation se prepara para a sua sétima e última temporada.

Após nove temporadas, How I met your Mother chega ao fim

Texto com spoilers.

Uma série só se mantém no ar durante nove anos se consegue cativar o público. Assim como Friends, que durou dez anos, HIMYM formou uma legião de fãs fiéis que se sentia parte do grupo de amigos de Ted Mosby, que o apoiavam em sua busca pelo amor na encantadora – e por vezes desafiadora – cidade de Nova Iorque.
Em toda a obra que envolve personagens, seja literatura, cinema ou televisão, é fundamental que esses personagens evoluam e aprendam consigo e com os outros ao seu redor. E em nove anos de seriado, após muitas idas e vindas, as lições acumuladas são inúmeras. O erro do desfecho de HIMYM foi ignorar completamente as lições e transformações de nove anos em prol de um final planejado na primeira temporada.
Deve-se dar aos criadores da série o devido crédito por tamanho comprometimento com uma idéia, mas é preciso um tipo especial tolice para não perceber o ponto em que uma idéia deixou de ser válida e não pode mais ser retomada. Em HIMYM, passamos nove temporadas aprendendo o que atrai e o que afasta Ted e Robin como par romântico. Juntamente com Ted, percebemos como os dois não funcionam como casal. Juntamente com Ted, aprendemos a superar essa decepção e a seguir em frente. E com o incentivo dos roteiristas, conhecemos e nos afeiçoamos por outro casal: Robin e Barney. Desmoronar toda essa construção de anos em um especial de 40 min é preguiçoso e desrespeitoso para com os personagens e público.
Desde que Victoria reapareceu, no final da sétima temporada, a sensação de que a série vem sendo estendida à custa de muita enrolação desnecessária somente cresceu. E quando Barney e Robin decidiram se casar, um leve ar de renovação tomou conta, reanimando a série, que há tempo já vinha dependendo muito da química entre Neil Patrick Harris e Cobie Smulders para seguir no ar. Investir tanto no relacionamento dos dois para depois destruí-lo no final foi a forma mais cruel de dizer aos personagens e ao público que ambos vinham sendo usados (no pior sentido da palavra) simplesmente para manter a audiência do canal, e que nem o destino dos personagens, nem o tempo do público, tem real importância.
Ao final, todos os personagens foram tratados de forma injusta pela resolução da série, especialmente Barney e Robin. Após uma temporada modorrenta, de poucas risadas, acompanhando um final de semana eterno com episódios cujo único propósito era gastar tempo (vide episódio 21 “Gary Blauman”), o último episódio ficou simplesmente atolado de enredo, que teve de ser jogado às pressas e de forma preguiçosa sobre o espectador.
A Mãe, finalmente apresentada no início da temporada, se mostrou uma personagem encantadora desde o início, mas poucos motivos nos foram dados para sustentar o amor de Ted por ela além de ela ser um Ted de saias, tão igual que chega a cansar. No último episódio temos que nos contentar com Ted dizendo que a amou muito. Simplesmente porque sim.
O divórcio de Barney e Robin nos é jogado e, sem que tenhamos tempo de processar o baque direito, Barney regride aos tempos de mulherengo e pá! vira pai. (Mais sobre isso a seguir.) As vidas de Lily e Marshall também passam em um turbilhão, Robin se afasta do grupo e a Mãe morre. E assim sem mais nem menos, sem que todas as informações sejam devidamente processadas e assimiladas, Ted volta a perseguir Robin, levando-lhe novamente a trompa azul.
O pior de tudo isso é que é possível enxergar todo o enredo do episódio final como uma temporada. Poderia ser uma temporada emocionante, mostrando a separação de Barney e Robin, Ted se apaixonando gradativamente pela Mãe, Lily e Marshall sendo pais de três filhos, a Mãe adoecendo e Robin tendo bons motivos para ficar com Ted. É claro, a audiência provavelmente cairia para a metade no momento em que Barney e Robin se separassem, mas pelo menos seria uma temporada muito menos tediosa do que aturar aquele casamento interminável por 24 episódios.
A idéia de que a série faz um “círculo completo” ao retomar a cena da trompa azul é até fofa, mas não condiz com o rumo que a história vinha tomando nos últimos três anos, pelo menos. A lição que fica do episódio final de HIMYM é que não é porque se tem uma cena filmada e guardada há nove anos que se tem a obrigação de aproveitá-la colocando-a no ar.
Os personagens e seus finais

Barney

Investir no relacionamento entre Barney e Robin, especialmente durante as duas últimas temporadas, para em seguida destruí-lo em exatamente 15:25 minutos de episódio foi no mínimo cruel. Em defesa da proposta do show de mostrar a realidade da vida, em que relacionamentos não dão certo e divórcios acontecem, a escolha de separá-los pode até ser compreensível, apesar de toda a preparação e antecipação em torno dessa união (passamos uma temporada inteira no final de semana do casamento) contribuir para o gosto amargo deixado pela separação.
A separação de Barney e Robin é triste, mas perdoável. O que acontece com Barney em seguida, não é. Após nove anos assistindo-o evoluir de mulherengo que foge de relacionamentos estáveis a um homem que é capaz de abraçar a idéia de amar uma só mulher para o resto da vida, é simplesmente inconcebível vê-lo voltar aos velhos hábitos de cantar mulheres com artimanhas toscas. Ele se torna pai de uma menina e com isso vê na filha a única mulher que pode amar de verdade e incondicionalmente, finalmente modificando sua atitude em relação às mulheres. Isso é simplesmente um tiro no pé da própria série, tendo em vista que o aprendizado de Barney em relação ao amor foi longo e complexo, começando com seu primeiro namoro com Robin, passando por Nora e Quinn, para voltar a Robin. Jogar todos esses anos de desenvolvimento de personagem fora em quarenta minutos é uma falta de respeito com o personagem, com o ator e com o público.
Além disso, temos o detalhe de que a coisa que faz com que a vida dele seja completa (a paternidade) é justamente o que Robin não pode lhe dar e o que ele havia dito que não esperava dela.
Robin

O desenvolvimento de Robin como personagem também passa por seu amadurecimento em relação a relacionamentos, sejam eles amorosos ou de amizade. Com o passar dos anos, ela se abre cada vez mais aos amigos, e eles se tornam uma parte muito importante da vida dela. No episódio em que ela descobre que não pode ter filhos, inclusive, Ted diz “a partir daquele momento, sua tia Robin nunca mais esteve sozinha.” Sendo assim, não faz sentido algum que ela tenha se afastado dos amigos da forma como é mostrado.
Com certeza é difícil para alguém continuar convivendo com o ex-marido e com, nas palavras da própria “o homem com quem ela provavelmente deveria ter ficado e a linda mãe dos filhos dele”, isso é fácil de entender. O que não é fácil de entender é como ela não manteve contato pelo menos com Lily, sua melhor amiga.
Mas não, Robin, como mulher que se dedica primordialmente à carreira e não pode ter filhos, acaba como uma solitária, que só conta com a companhia dos cães.
Ted

Ted passou anos no “gancho” de Robin, como o próprio jargão da série define. Ele “a deixa ir” para que ela se case com outro cara. Ted então encontra outra moça, se apaixona, tem filhos com ela, casa com ela e a vê morrer, e então ah, crianças, sabe o que é, é que eu sempre fui apaixonado pela sua tia Robin. E o que foi a Mãe nessa história? Apenas o meio com o qual ele pode ter os filhos que Robin não poderia lhe dar? Sim, seria muito triste se Ted ficasse o resto da vida de luto pela falecida mulher sem jamais seguir em frente, mas voltar à Robin não é seguir em frente, é andar para trás. Muito para trás. É voltar a uma obsessão quase doentia por uma mulher que nunca correspondeu ao seu amor da mesma forma.
E mais, uma das crianças comenta: “vocês dois são muito óbvios sempre que ela vem jantar aqui.” Então a Robin, a isolada e solitária Robin, se reaproximou da turma? Ou só do Ted?
Sim, Robin e Ted tinham um acordo de ficarem juntos se, após os quarenta anos, ambos estivessem solteiros. Entre esse acordo e o final da série, contudo, muita coisa aconteceu (cinco temporadas, para ser mais exata), e juntá-los novamente ao final de tudo é totalmente inadequado.
Lily

Lily é uma personagem de instinto materno muito forte, servindo muitas vezes de mãe para seus próprios amigos. Contudo, ela também quer ter uma carreira de sucesso, e ocasionalmente se vê assustada com as responsabilidades e a pressão da maternidade.
Finalmente atingindo o ponto alto de sua carreira ao trabalhar para o Capitão, Lily termina a série com três filhos e sem o menor indício de que sua carreira continua bem (ou que sequer existe). Também não sabemos como ela encara a maternidade após três filhos, mesmo quando a pressão de um filho só já a fazia querer sumir de vez em quando. O final de Lily não trouxe o encerramento que ela merecia.
Marshall

A evolução de Marshall sempre foi mais focada no âmbito profissional. Ele começou como um inocente estudante que sonhava em salvar o meio ambiente, passou pela fase de advogado formado descobrindo a realidade cruel do mundo corporativo e chegou a juiz. A evolução de seu relacionamento com Lily e os obstáculos que ambos enfrentaram juntos foi um dos temas mais bem abordados da série. Ao final, Marshall conquistou tudo o que queria: um casamento feliz, uma casa cheia de filhos, um emprego como juiz. O sortudo não foi afetado pela tragédia em que consiste o episódio final.

Novela não é Escola

Eu não assisto à novela alguma. O máximo que já acompanhei foi um pouco de Chocolate com Pimenta, Tititi e Roque Santeiro, que passava no “Vale a pena Ver de novo” quando eu tinha onze anos.  A única novela “das nove” que vi um pouco mais do que meio capítulo foi O Clone. Mas as novelas, principalmente as do horário nobre da Rede Globo, sempre encontram um meio de entrar nas nossas vidas.
Nunca assisti a um capítulo sequer de Avenida Brasil, a novela que está no ar, mas sei que a música de abertura é a versão do Latino para “Dança Kuduro”, sei quem é Carminha, Nina, Suelen e companhia. Praticamente toda a minha timeline do twitter acompanha a novela e acaba repassando o que vê. Vejo comentários no facebook e escuto as pessoas à minha volta. Essa inserção da novela no cotidiano é uma realidade que nós brasileiros vivemos há décadas. A força da novela é tanta que, em plena era da TV a cabo e da internet, Avenida Brasilestá atingindo picos de audiência de 45 pontos na grande São Paulo. 
Discutir as causas de tamanho sucesso, contudo, não é o objetivo deste texto. Meu comentário aqui se relaciona a um tema que vem me perturbando há algum tempo: como a novela virou uma espécie de escola para o povo brasileiro.
Muitas das novelas da Rede Globo, especialmente as de horário nobre, adotam alguma abordagem social, uma bandeira que defendem, como a leucemia de Camila (Carolina Dieckman) em Laços de Família, que foi utilizada para uma campanha de doação de medula óssea, a viciada Mel (Débora Falabela), que foi o exemplo da campanha antidrogas de O Clone, e o caso de Tarso (Bruno Gagliasso) em Caminho das Índias, personagem que ilustrava uma campanha de conscientização sobre a esquizofrenia. Isso só para citar alguns dos casos que ficaram mais marcados. Essas campanhas são um exemplo de serviço de utilidade pública que a novela pode exercer para o bem da sociedade. Esses “personagens-exemplo” muitas vezes ajudam a alertar às pessoas para problemas para os quais muitos viram às costas. Utilizar-se de alguns exemplos para o bem comum, contudo, é diferente de confundir o papel da novela. Novela não serve para educar, serve para entreter.
De novo: nunca assisti Avenida Brasil, mas vi comentários indignados sobre uma cena em que Suelen (Ísis Valverde) seduz o marido Roni (Daniel Rocha), um rapaz que esconde sua homossexualidade. A cena gerou repercussão, principalmente, por implicar que a homossexualidade pode ser curada, ou que a causa da homossexualidade seria a falta de uma boa mulher. É claro que isso é um absurdo. Um homem é homossexual porque é homossexual, ponto. E Suelen fez o que fez porque é uma personagem. Sim, é horrível saber que existem pessoas como Suelen. Ou o que é pior, que existam homens como Suelen, que acreditam que as mulheres homossexuais são assim por falta de um bom homem. Poucas idéias são mais repudiáveis do que esta. Não estou defendendo aqui a atitude, mas a liberdade de mostrá-la na televisão.
Em Avenida Brasil, Suelen faz de tudo para seduzir o homossexual Roni
A novela é uma obra de ficção, que contém um enredo e personagens, e personagens tem defeitos, muito mais do que tem qualidades. É dever do espectador diferenciar as coisas, não se deixar influenciar pelo que vê. Muitos brasileiros são influenciados pelas novelas ao ponto de se deixarem “educar” por elas, mas seria isso culpa da novela, ou da estrutura educacional do país?
O Brasil ainda tem muito que avançar em relação ao respeito aos homossexuais, e a novela poderia ajudar com isso, como já ajudou em outros assuntos. Não é, contudo, dever da novela fazer isso. Se nosso sistema educacional fosse um pouco melhor, as pessoas entenderiam que a novela é uma obra de ficção, como um livro ou filme (e muitas vezes vemos atitudes muito piores do que as de Suelen em livros e filmes), assistiriam ao enredo e saberiam filtrar o que é bom e o que não é.

Observando pela ótica da responsabilidade social que a novela adquiriu por sua influência na vida dos brasileiros, seria de se esperar que seus roteiristas fizessem escolhas mais positivas para seus enredos, mas aí também teríamos que parar com as maldades de Carminha e com a vingança de Nina, e assim a novela talvez se tornasse uma festa de unicórnios em um arco-íris cor-de-rosa. E nenhuma obra de ficção – bem como o mundo – é assim. 

Outro exemplo é a cena que foi ao ar recentemente em Gabriela, em que Jesuíno (José Wilker) mata a esposa e o amante ao flagrá-los juntos. Houve protestos indignados contra a Globo por mostrar uma cena tão contrária aos direitos das mulheres. O que deveria indignar as pessoas é o ato do personagem, não o fato de ele estar na tela da TV.
Em Gabriela, Jesuíno assassina a mulher por encontrá-la com o amante.
No meu Brasil perfeito, todas as pessoas que assistissem a essas cenas se indignariam com a atitude desses personagens e os repudiariam, sabendo que o que vêem é uma obra de ficção, não um exemplo a ser seguido. Isso é um futuro que eu sei que chegará, mas que já deveríamos estar construindo, ao invés de perder tempo acusando autores de ficção disso ou daquilo.
Enquanto continuarmos a assistir – e a aplaudir – a seriados e filmes violentíssimos e politicamente incorretos na TV a cabo, sem, contudo, tolerar a mesma liberdade criativa na TV aberta, seremos eternos hipócritas. Bem como ao continuar a confiar o papel da educação e da formação de opinião – aspectos que devem ser formados por escolas, famílias e livros – quase que exclusivamente às novelas.  Novela não é escola, novela é ficção. E é uma pena que nem todo mundo saiba distinguir isso.