Europa: enquanto a econômia enfrenta a crise, o cinema bate recordes

O que o sucesso de Intocáveis, na França, e O impossível, na Espanha, tem a dizer sobre a relação entre o cinema e a crise. 
Após Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano, conquistar uma das maiores bilheterias da história da França, a produção espanhola O impossível acaba de bater o recorde nacional de melhor final de semana de estréia. A alta venda de ingressos, porém, não é a única coisa que estes longas têm em comum.
Escrito por Sérgio G. Sánchez e dirigido por Juan Antonio Bayona, O impossível tem os atores Ewan McGregor e Naomi Watts nos papéis principais. Após sua estréia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro, o filme rumou para uma estréia espanhola cheia de particularidades. Para começar, o áudio original em inglês foi dublado para se adequar ao costume do país de praticamente não exibir filmes legendados nos cinemas. Em seguida, estreando em circuito comercial apenas na Espanha, o filme já atingiu o sétimo lugar no ranking mundial das estreias deste último final de semana. A lista foi encabeçada por Busca implacável 2, que, diferentemente de O impossível, estreou em 36 países, segundo a notícia da edição online do jornal espanhol El País.
Intocáveis, por sua vez, se transformou em fenômeno do cinema francês ao se tornar o filme mais visto no país em 2011, e entrar 2012 conquistando o lugar de terceiro filme nacional mais visto da história da França e assumindo o posto de filme francês mais visto no exterior. Somando-se o momento de crise econômica européia, particularmente na Espanha, onde a taxa de desemprego chegou a atingir mais de 22% da população em janeiro deste ano,  aos altos preços dos ingressos dos cinemas, esses sucessos de bilheteria impressionam ainda mais.

Omar Sy como Dris, e François Cluzet como Philippe, em cena  de Intocáveis. 

Histórias reais que inspiram

Outro importante elemento em comum entre Intocáveis e O impossível é que ambos são dramas baseados em histórias reais. O primeiro fala sobre a relação entre o tetraplégico milionário Philippe (François Cluzet) e seu cuidador, o ex-presidiário Driss (Omar Sy), buscando aliar o drama a uma comédia que, segundo a crítica, “diverte no limite do politicamente incorreto”. O segundo promete não deixar um único espectador de olhos secos ao narrar a saga de uma família de turistas vítimas do tsunami de dezembro de 2004, que atingiu, entre outros países, a Tailândia, cenário do filme.

O cinema surgiu como um entretenimento de massas e se fortaleceu por ser uma opção barata e acessível às classes trabalhadoras. Durante o período de crise iniciado em 1929, o cinema forneceu uma maneira rápida e barata de deixar a dura realidade para trás por algumas horas e adentrar em um mundo de ficção. Hoje, uma entrada de cinema a sete euros dificilmente pode ser considerada barata, mas, curiosamente, é o preço médio que muita gente está pagando para sair de sua própria realidade e voltar oito anos no tempo, assistindo à recriação de um desastre natural que matou mais de duzentas mil pessoas.

É claro que O impossível não se trata apenas de recriar uma catástrofe, mas de mostrar a superação humana, a luta pela sobrevivência e a solidariedade, qualidades de que a Europa, especialmente a Espanha, têm sentido grande necessidade. De certa forma, nesta crise o cinema volta à oferecer ao público uma válvula de escape, ainda que seja para lembrá-lo de que sempre há alguém em uma situação pior.

O impossível: Maria (Naomi Watts) e Lucas (Tom Holland) buscam reencontrar sua família em meio ao caos.

Curiosidade: porque os cinemas espanhóis quase não exibem filmes legendados.

A preferência dos espanhóis pela dublagem vai além da explicação simplista do nacionalismo: tem origem na ditadura do general Francisco Franco, que controlava por meio da dublagem o conteúdo dos filmes estrangeiros exibidos. Se a opção fosse legendar, quem falasse inglês,  francês, ou algum outro idioma, poderia compreender o que estava sendo dito independente do que aparecesse como tradução, algo que não interessava em nada ao governo ditatorial. O próprio estímulo para que a população aprendesse outros idiomas foi mínimo na época de Franco, o que ajuda a explicar como até hoje o inglês dos espanhóis, de um modo geral, é péssimo. 
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27/05, Dia de encerramento – Holy Motors

Com um filme vibrante e surreal, o diretor Leos Carax inquietou e encantou a Cannes. Mostrando na tela um mundo único, ele levanta discussões sobre a artificialidade da vida. Holy Motors abre com uma imagem de uma platéia de cinema, que de certa forma espelha a platéia real que assiste ao filme e coloca o público na tela.
Após a introdução, vemos o senhor Oscar (Denis Lavant) sair de sua casa ao amanhecer. Vestindo paletó e gravata e munido de uma pasta de couro, ele se despede da esposa e dos filhos. Acompanhado por diversos seguranças, embarca em uma limousine dirigida por sua motorista e secretária Céline (Édith Scob), que lhe informa que os compromissos para aquele dia são poucos. A limousine pára debaixo de um viaduto e dela sai Oscar disfarçado de uma velha mendiga. Após pedir algumas esmolas no centro de Paris, ele volta a seu veículo, retira o disfarce e a maquiagem e se prepara para cumprir o próximo item de sua agenda.
Mendigar na pele de uma velha senhora vestida em trapos é apenas a primeira das muitas esquisitices que Oscar realiza ao longo de seu dia.
O senhor Oscar (Denis Levant) em sua limousine, onde viaja de um  “compromisso” a outro.
Os compromissos de Oscar.

Em seu segundo compromisso, Oscar participa de uma gravação em motion capture. Vestindo uma roupa preta com pontos brancos luminosos, realiza incríveis acrobacias e simula uma relação sexual com uma mulher que também veste uma roupa semelhante. A imagem dos dois é imediatamente processada e utilizada para criar uma segunda imagem de dois monstros draconianos digitais. A idéia do ser humano como matéria prima de algo monstruoso e bizarro é assustadora.
Os compromissos que se seguem não são menos bizarros. Portando unhas falsas amarelas de quase dez centímetros nos pés e nas mãos, usando uma dentadura que lhe confere assustadores dentes estragados e falando somente por grunhidos, ele invade uma sessão de fotos para uma revista de moda e seqüestra a modelo. O fotógrafo quando o vê troca a sua sofisticada câmera digital por uma antiga máquina analógica e redireciona seu foco, da modelo – pela qual delira com suspiros e exclamações de “Beleza! Beleza!” -, para o estranho homem que invade seu set, sempre disparando fotos, mas agora exclamando “Bizarro! Bizarro!”.
 
Definir a função do senhor Oscar não é algo que se pode fazer com menos de uma hora de projeção, se é que pode chegar a ser feito. Seria ele um ator? Se sim, seu nome não podia ser mais apropriado. Oscar, bem como o nome da principal premiação do mundo do cinema, é o nome do meio do diretor do filme. Nascido Alexandre Oscar Dupont, ele adotou Leos Carax como seu nome artístico. Seria o senhor Oscar um alter-ego de Leos Carax, realizando nas ruas a arte que o diretor que ver nas telas do cinema?
O senhor Oscar, contudo, é mais do que um ator. Ele intervém tão fortemente na vida das pessoas ao seu redor que cria uma nova realidade. Em determinado momentos, ele é um agente do caos, em outros, uma pessoa normal seguindo com sua vida. É quando ele encontra outras pessoas com o mesmo tipo de compromissos e funções que o público percebe o quadro geral do filme.
Totalmente disfarçado, o protagonista assume múltiplas identidades.
Um mundo artificial.

Em Holy Motors, tudo é montado, não somente pelo senhor Oscar, mas por outros atores, ou agentes do caos e da vida. Mas tudo é montado para qual platéia? Há espaço para o público nesse mundo povoado por performáticos? Ou o público é apenas o que está do outro lado da tela?
A artificialidade do mundo do filme nos faz pensar sobre a artificialidade do mundo real. Quantas vezes colocamos máscaras e fantasias para nos relacionarmos com pessoas que, por sua vez, também vestem suas próprias máscaras e fantasias?
O interessante de Holy Motors é justamente o fato de que ele traz esses questionamentos sem cair em discursos piegas, politicamente corretos ou moralizantes. Trata-se de um filme, na falta de melhores palavras, muito louco, que prende o espectador à tela, ansioso por ver a próxima insanidade que virá a seguir, mas ao mesmo tempo refletindo sobre sua própria vida e o mundo que nos cerca. É claro que se trata do tipo de filme de que um pode tirar praticamente a conclusão que quiser. Trata-se de crítica, de rompimento com a realidade, de simples insanidade.
Leos Carax entregou à Cannes exatamente o que se esperava ver no festival: inovação, grandiosidade aliada à leveza, e uma dose de loucura. Isso fez de seu filme um dos favoritos – apesar de não vencedor – à Palma de Ouro. 

27/05, Dia de encerramento – The Angel’s Share.

Comédia com uma boa dose de drama da vida real, The Angel’s Share (A Parte dos Anjos, em tradução livre) tem como personagem principal Robbie (Paul Branningan), um jovem violento que tenta mudar de vida para ser um bom pai para seu filho recém-nascido. Dirigido por Ken Loach, o filme ganhou o prêmio do júri, e conquistou o coração do público do festival.
Juntando-se a um grupo de desajustados que presta serviço comunitário como pena por crimes como tentativa de furto, invasão dos trilhos da ferrovia, embriaguez pública e outros delitos leves, Robbie encontra uma segunda chance ao conhecer Harry (John Henshaw), o fiscal responsável pela turma. Ao contrário de seus colegas, Robbie provavelmente deveria estar na cadeia. Após espancar um rapaz até deixá-lo inconsciente – em um episódio que não se tratou de sua primeira condenação por agressão, ele escapa da prisão por um triz. Harry, porém, não faz julgamentos e trata a todos com igualdade de gentileza.
Robbie (Paul Branningam) com a namorada Leonie (Siobhan Reilly) e o filho: a descoberta de uma razão para viver.
A salvação por meio do Uísque.

Harry, em um de seus melhores momentos paternos, leva o grupo a uma destilaria para conhecer o processo de fabricação do Uísque. Lá, Robbie descobre que tem um “ótimo nariz” para a bebida. A partir daí, a imersão do rapaz no universo do malte é cada vez maior.
O uísque como tábua de salvação não só de Robbie, mas também de seus amigos, é uma delicada ironia que o filme apresenta. Tendo cometido a maioria de seus crimes em estado de embriaguez, encontrar a saída justamente em uma bebida alcoólica tratada quase como uma verdadeira jóia por seus apreciadores não deixa de ser engraçado.
O contraste dos estragos que o álcool pode causar, representado pelo grupo de Robbie, com a quase reverência com a qual os especialistas tratam os uísques finos mostra apenas que cada ser humano tem seus vícios e dependências. Com a diferença de que uns são socialmente aceitos, outros não.
Um grupo de desajustados encontra uma salvação no Uísque. 
A parte dos anjos.

Em sua primeira visita a uma destilaria, o grupo descobre de que se trata a “parte dos anjos”. Segundo a guia do local, a expressão se refere à fração da bebida que evapora anualmente durante seu longo período de envelhecimento nos barris de madeira. Assim, quando Robbie pega para si uma parte de um precioso barril a ser leiloado, não está reclamando mais do que a sua parte dos anjos.
É claro que nenhum dos membros do grupo é particularmente um anjo. Todos eles são criminosos julgados culpados e condenados por seus delitos contra a sociedade. Mas o modo como Loach os apresenta, como garotos e garotas perdidos no mundo, desajustados, mas não essencialmente maus, imprime uma imagem de verdadeiros anjos caídos.
O próprio contraste entre o universo dos desajustados e excluídos com o dos ricos que estão dispostos a pagar mais do que o valor de uma casa em uma única garrafa de uísque é uma maneira de mover a simpatia do público na direção desejada por Loach. Construindo um filme que fala sobre a dura realidade da vida real, sem deixar de fazer piada da condição humana, mas sem cair na tentação de ser piegas, o diretor acerta em cheio. Não foi a toa que Cannes se encantou com os simpáticos anjos de kilt. 

26/05 – Uma multiplicidade de pontos de vista: Os Curtas-Metragem

Sexta-feira à tarde fui à sala Buñuel assistir a alguns dos curtas-metragem em competição. Nos cinco curtas que vi, cada um de uma nacionalidade diferente, pude perceber que o mundo tem diferentes formas de falar sobre uma gama bastante específica de assuntos: a situação do imigrante, a luta por uma vida melhor, a inadequação do sujeito ao mundo à sua volta, a busca pela paz – interior ou entre países. Apesar de diferentes entre si no formato, as cinco histórias não são tão diferentes assim no conteúdo.
Cockaigne

 Direção: Emilie Verhamme
País: Bégica
Segundo a Wikipédia, Cockaigne é um local imaginário de extremo luxo e facilidade onde o conforto físico e os prazeres estão sempre imediatamente ao alcance. Trata-se de uma utopia, um local dos sonhos.
No curta, um homem e seus dois filhos, já adultos, cruzam a fronteira da Bélgica clandestinamente em busca de seu próprio Cockaigne. Explorados no caminho e na chegada, trabalham por pouquíssimo dinheiro. Contratados para renovar a parede da casa de um marroquino, sofrem preconceito por parte deste.
Vivendo em um país em que nem mesmo os estrangeiros se apóiam entre si, a solução dos três é vingarem-se em pequenas coisas quando têm oportunidade, enquanto a solução final do filme é arrancar leves risadas com uma última ironia.
Com a fotografia um pouco estourada, principalmente nas cenas externas, um toque de câmera na mão e desfocagens ocasionais, Cockaigne transmite um ar de experimentalismo.
Cockaigne: a busca por uma vida melhor.
The Chair

Direção: Grainger David
País: Estados Unidos
Um garoto vê sua mãe morrer vítima de um misterioso fungo que logo se espalha por sua pequena cidade. Ele narra a tragédia com uma voz desanimada e ritmada, inserindo observações bastante maduras para a idade. Descrevendo como os cientistas de branco vieram a sua casa e levaram tudo, menos a cadeira de sua mãe, que fica abandonada ao lado de grandes containers de lixo.
O filme apresenta uma fotografia belíssima, principalmente nas cenas ao entardecer. Sem diálogos, a única voz que se ouve é a narração do garoto, que fala coisas muito interessantes, mas que em alguns momentos se revelam incomodamente incoerentes com sua idade.
The Chair: a busca pela compreensão.
Nigth Shift

Direção: Zia Mandviwalla
País: Nova Zelândia
Uma mulher por volta dos quarenta anos de idade prepara-se para iniciar seu turno como faxineira de um aeroporto à noite. Ao passar por um colega, este lhe pergunta “fazendo turno duplo de novo?”. E aos poucos os indícios de que ela vive no aeroporto se acumulam.
Recolhendo e guardando para si o que encontra, principalmente sobras de comida, ela está sempre série e concentrada em seu trabalho. Seus momentos de pausa são preenchidos por ligações que faz ao mesmo número que nunca atende. Do outro lado da linha, a voz de um homem não se cansa de repetir uma mensagem típica de secretária eletrônica.
Night Shift: a busca pela sobrevivência. 
Gasp

Direção: Eicke Bettinga
País: Alemanha
Entre Night Shift e Gasp, é difícil dizer qual seria o meu favorito. Enquanto o primeiro mexe muito com a emoção, o último é mais completo, mas atinge principalmente os sentidos da audição e da visão. Dotado de um design de som poderoso, o filme também explora o poder da imagem para passar sensações de textura: o plástico vermelho de uma sacola, a casca enrugada de uma árvore. Esteticamente maravilhoso.
O personagem principal de Gasp é um garoto prestes a sair do ensino médio e ingressar na faculdade. Apesar de bem-sucedido nos estudos, é apático e vive sob a coordenação de sua muito insegura e superprotetora mãe. A vida real passa por ele sem ser sentida. Buscando escapar da realidade e sentir algum prazer, ele se envolve em uma perigosa brincadeira de asfixiar-se.
Gasp: a busca por uma emoção. 
Waiting on P. O. Box

Direção: Bassam Checkes
País: Síria
Com um roteiro surrealista, Waiting on P. O. Box traz belas imagens e uma mensagem de paz em relação ao conflito entre Israel e Palestina. Com interessantes jogos de palavras, o filme propõe questões como: “Does the will make the real or the real make the will?” (A vontade faz o real ou o real faz a vontade?) e se seria “To make a new film or to make film new?” (Fazer um novo filme ou fazer o filme novo?). 
Waiting on P. O. Box: a busca pela paz.