Primeiro mataram meu pai

 

Dirigido por Angelina Jolie e baseado em uma história real, Primeiro Mataram Meu Pai é um retrato ao mesmo tempo íntimo e honesto da experiência de uma sobrevivente do genocídio cambojano da década de 70.

Loung Ung (Sareum Srey Moch) vive com os pais e os seis irmãos em Phnom Penh, capital do Camboja, quando a cidade é invadida e evacuada pelos soldados do Khmer Rouge, o partido comunista do Camboja, em 1974. Sua família junta seus pertences mais essenciais e se amontoa em uma caminhonete, tomando o mesmo rumo de outros milhares de pessoas: o interior rural do país. Na jornada, a família precisa esconder a real profissão do pai, um capitão do exército do general Lon Nol, deposto pelo Khmer Rouge, e seus bens são quase todos confiscados pelos soldados revolucionários. Isso, contudo, é só o começo das dificuldades que aguardam os Ung.

Estética

A câmera nunca se afasta de Loung por muito tempo, e quando o faz a intenção é quase sempre mostrar a dimensão dos eventos ao redor da menina, como o mar de pessoas evacuando Phnom Penh, os trabalhadores no acampamento e a batalha final contra o exército vietnamita. Com essa proximidade à pequena Loung, toda a informação é passada ao espectador sob o filtro de seu olhar infantil, recebida em pequenos fragmentos, como as crianças percebem o mundo adulto à sua volta. No início do filme, uma montagem com imagens da guerra do Vietnã, fragmentos de noticiários e discursos da época dão ao espectador o contexto dos acontecimentos, assim como o diálogo entre o pai de Loung e um colega sobre o avanço das tropas do Khmer Rouge. Após a evacuação de Phnom Penh, o filme continua com diálogos esparsos, sendo esse espaço preenchido por slogans do Khmer Rouger, que ecoam de autofalantes com uma agressividade metálica, ou são incansavelmente gritados pelos soldados.

A narrativa se concentra nas experiências da protagonista. Não se fala em Pol Pot, em Estados Unidos ou em política. O que se vê são as dificuldades e os perigos enfrentados por uma criança colocada em uma situação na qual nenhuma pessoa merece ser colocada. O silêncio de Loung e seu olhar atento às tragédias à sua volta gera um suspense incômodo no espectador, que passa o filme inteiro se perguntando se a menina vai mesmo passar a acreditar nos slogans de ódio que é ensinada a repetir, e se a violência que a cerca e as injustiças que sofre a tornarão violenta e vingativa.

A fotografia suave e o uso de lens flare remetem à inocência infantil da protagonista, que é capaz de encontrar beleza na natureza e na vida mesmo em situações extremas. A medida em que o filme progride, porém, o contraste entre a natureza idílica e as condições precárias em que Loung e sua família são obrigados a viver se transforma em uma reafirmação do estado de injustiça e precariedade da vida.

 

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            O que foi o Khmer Rouge – o extermínio de quase 25% da população Cambojana

Por não entrar em detalhes políticos e históricos que vão além da experiência direta da protagonista, Primeiro Mataram Meu Pai oferece um convite a pesquisar a história do Khmer Rouge, e não é possível realizar essa pesquisa sem se deparar com a palavra extermínio. Historiadores relatam que entre 1 e 2 milhões de pessoas (ou até 3 milhões, segundo algumas fontes) morreram entre 1975 e 1979, período em que o partido esteve no poder. Na época, a nação do Camboja girava em torno de 8 milhões de pessoas, o que significa que cerca de um quarto da população pereceu devido, principalmente, a execuções em massa e a desnutrição, no que ficou conhecido como o genocídio cambojano.

O Khmer Rouge, liderado por Pol Pot, tinha como objetivo transformar o Camboja em uma utopia agrária. Para isso, as cidades foram esvaziadas e a população levada ao campo, onde fazendas coletivas foram criadas. Pessoas com qualquer nível de educação superior, como médicos, advogados, engenheiros, e qualquer um que pudesse ser considerado intelectual ou membro da elite capitalista, foram executados. No expurgo realizado pelos revolucionários, famílias inteiras foram executadas para evitar que as crianças, quando crescessem, viessem a vingar as mortes dos pais.

O Khmer Rouge rejeitava tanto aquilo que viam como estilo de vida ocidental que até mesmo remédios vindos do ocidente e óculos de grau foram banidos. As fazendas coletivas logo se transformaram em campos de trabalho forçado aonde fome, doenças e mortes por exaustão eram problemas recorrentes.

O cenário da Guerra Fria não ajudou a população cambojana. Em guerra com o Vietnã, os Estados Unidos cruzaram a fronteira do país com o Camboja, uma nação neutra no conflito, por vezes bombardeando áreas cambojanas e matando civis. Isso contribuiu para o sentimento anti-ocidental de grande parte da população, que acabou vendo no Khmer Rouge e sua promessa de um novo Camboja uma terceira alternativa mais atrativa do que a dicotomia de Vietnamitas e Americanos.

O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, mas o partido continuou ativo até 1999. Devido ao extermínio de uma parcela tão grande da população, à muitos dos sobreviventes terem adquirido estresse pós-traumático, e à falta de profissionais qualificados – executados pelos revolucionários -, o Camboja sofre até hoje as consequências sociais e econômicas dessa época tão sombria de sua história.

Paralelo com 1984

Primeiro mataram meu pai é uma narrativa real, mas o paralelo com 1984 é evidente, e mais uma vez a precisão com a qual a obra fictícia de George Orwell se encaixa com a realidade é assustadora.

Publicado em 1949, 1984 descreve uma sociedade em que a individualidade é abolida. Todos se vestem igual e chamam-se uns aos outros de “camaradas”. O Partido comanda a sociedade por meio do controle do pensamento, tanto que pensar por conta próprio é uma ofensa denominada crimeideia. Uma das estratégias do Partido para o domínio de mentes e emoções são os Dois Minutos de Ódio, que consistem em reunir a população em sessões mandatórias de xingamentos e demonstrações de ódio ao inimigo oficial do Partido, Goldstein. O Partido é também vigilante, utilizando-se não apenas de câmeras e microfones, mas também do monitoramento de um cidadão sobre o outro. Denuncias a crimes contra o Partido são encorajadas e premiadas, e pessoas são presas com base no simples testemunho de um vizinho, sem investigações ou apresentação de provas.

No Camboja de Pol Pot todos eram obrigados a tingirem suas roupas de preto e a usarem o mesmo lenço vermelho. A individualidade é abolida e todos se tornam “camaradas”, sendo incentivados a “desenvolverem um pensamento revolucionário”. Como o filme retrata, tanto nos campos de trabalho forçado quanto – se não principalmente – nos campos de treinamento de soldados, a população é reunida e incentivada a gritar slogans de ódio aos vietnamitas. Denúncias a crimes contra Angkar (o Governo) são incentivadas, e a máxima: “é melhor errar e matar um inocente do que deixar um inimigo vivo” ecoa dos autofalantes nos campos de trabalho.

O regime de Pol Pot não foi o primeiro nem o último autodeclarado comunista a tentar reestruturar o pensamento da população à força. Em Primeiro mataram meu pai vemos os soldados do Khmer Rouge – muitos deles jovens mal saídos da infância – proclamando seu fervor revolucionário, intolerantes a qualquer desvio à doutrina do Partido e muitas vezes imunes ao sofrimento do próximo.

Em um ano em que se comemora os cem anos da Revolução Comunista na Rússia, é irresponsável deixar passar a oportunidade de se reavaliar a doutrina que serviu de base para um regime como o de Pol Pot no Camboja.

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Bering: Balance and Resistance – Ambulante at USC day #2

Bering: Balance and Resistance is the first documentary feature directed by the Mexican photographer and video artist Lourdes Grobet. Its theme is the life of the Inuit at the american side of the Bering strait.

Filled with powerful images that reflect the sensitivity of its director, Bering is specially competent on bringing its public closer to its subjects. There is beauty in the ice covered landscapes of the Arctic, but there are also challenges.

bering poster

Watching Bering brings another documentary about the Inuit of the Arctic to mind: Nanook of the north. Filmed in 1922 by Robert J. Flaherty, it centers in the life of Nanook, an Inuit man from the Canadian Arctic and his family. Nanook was one of the first documentaries ever made, and its genre is still questioned to this day due to the fact that a couple of its scenes were staged. Still, it was an important documentation on how the Inuit lived 90 years ago, with no electricity, wearing clothes made of animal fur and surviving with subsistence hunting. The Inuit of Bering at the present day have electricity and heaters, wear clothes made at factories and buy coca-cola at their local grocery store. They still hunt, but now they have guns and motor boats. Their greatest struggles are not how to get food or stay warm, but how to preserve their culture while still finding their place in the modern world.

Two scenes on both Bering and Nanook can be paralleled. In the first, two men come back from a hunting trip to the ocean where they caught a walrus. Those who are near come to help bring the animal to the shore, a task that requires strength and coordination. Once they achieve their goal, the director makes a cut, and in the next scene we see the snow tinted red by the walrus’ blood. In Nanook, we see the capture of an immense seal, one that requires about as many men to retrieve as the walrus of Bering. However, in Nanook the director does not spare its public of the most crude and real moments of the Inuit life and shows the skinning of the animal, an image that, even in black-and-white and lower definition, is still gut turning.

While Flaherty patronizes his subjects, Grobet values them and give them their space to be true to who they are. The contact of the white men with the Inuit began about about a century ago, and it’s interesting to see it that generated, especially at Bering, a place that was once dominated by the Russians and later bought by the Americans with no consultation whatsoever of the desire of its native population. In the movie, a lot of them express the sense of being disregarded and carried by the flow.

Bering it’s a beautiful and touching documentary in itself, but knowing how the Inuit have been portrayed by other directors in the past gives the public a sense of perspective that can only foster their understanding of the matter.

Mexican immigration – A peek at Ambulante Festival

It’s been a while since I went to a film festival for the last time. I almost forgot how it feels like. The not-so-modern theaters, the crowd of mostly film students, professors and hippies. The general predisposition to like everything that comes up on screen is a mood quite characteristic in festivals, you can feel it in the very air around you, in the way people gasp and laugh and applaud at the movie on screen.

Ambulante Festival had that feeling in the air tonight at its USC screening. I caught Ambulante in its second half – the Festival premiered at September 21st – and don’t have to say much about it other than it is a sort of unpretentious hipster (a rare thing to come across these days), indie, bilingual, documentary festival from Mexico that it’s now crossing the border to California. The idea of Ambulante is to be an itinerant festival, each day – or couple of days – its screenings and panels move to a different location of the Los Angeles metropolitan area.

Last night’s screening at the USC School of Cinematic Arts brought two movies which theme is human migration to and from Mexico. Ambulate’s Mexican origin’s wouldn’t let it shy away from this theme.

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From Poland to Santa Rosa

From Poland to Santa Rosa, a 10 minutes documentary short, has as main characters two polish ladies who immigrated to Mexico in 1943, establishing their families in Santa Rosa, an area specially dedicated for the polish immigrates in the city of Leon, Guanajuato.

The movie opens with a beautiful but unsettling image of a shrouded body sinking in the water as a female voice tells the story of one of her earliest memories from childhood: the bodies of those who died in the journey from Poland to Mexico and had the sea as their burial site. It is a strong image attached to a strong memory. The ladies go on from there, talking about their memories of arriving at the train station, growing up and building their lives.

Despite the visible care with the image, some framings don’t work as well as the crew evidently intended them to. They are beautiful, but distract the viewer from the story. It is a documentary short, but still the ten minutes seem to leave out a lot of important information. Who are those ladies to each other? Relatives, friends? They waste a precious opportunity to truly engage the public.

To the other side

To the other side is a feature documentary that establishes a relationship between the Mexican popular music style of the corridos and the Mexicans that are intimately connected to the music, their daily struggles and their dreams of a better future, their relationship to their home country and to their neighbor, the Unites States, which floats over their lives both as a gloomy shadow and a sunny ray of hope.

The corridos are songs that tell stories, mostly about the simple life of the people and their daily struggles, but also about powerful and dangerous narcotraficantes, their legendary deeds and their boldness. It couldn’t be different, since the dealers pay to have corridos written about them. Drug dealing is intensely present in the lives of the Mexicans portrayed in the movie. Mostly fisherman, a lot of them also use their boats to do smuggling jobs, and for that are called lobos marinos (sea wolves).

Madgiel Rubio Burgos is a young composer of corridos who works alongside his father in the sea, the cornfields and the family’s soda store. He sings about poverty, drugs, his hopes of a better future, which he only sees as possible across the border. He sees the United States as a land of possibilities where jobs are abundant and he can make real money, if only he had the means to pay for the trip. In Madgiel we see the Mexican youth of a poor village, he is the irreverent, talkative, often angry, mostly hopeful point-of-view of most of the movie. An interesting character to follow.

Across the border, the Mexican immigrants and their descendants show their intense connection to both Mexico and the United States. They are making it. And singing about it in their corridos.

The crossing of the border through the desert is brutal. A lot of people get seriously hurt or are caught by border patrols. There are terrible stories of the coyotes (people smugglers) leaving behind to perish those who get too sick to make the journey to the end. The Mexicans talk about the good coyotes, those whose intention is to help people get a better life (always for a fee, of course), and the bad coyotes, those who smuggle people out of sheer greed and calculate their profits based on a success rate of how many will live or die in the journey.

To the other side’s approach to the emigration theme through music is engaging, it makes people feel real and close, it gives another dimension to their struggles and provides a connection between the stories shown, it’s a narrative continuity to the movie. Despite its realize year been 2005, its theme is still relevant today, and the questions asked remained mostly unanswered.

The Lego Movie

Finalmente consegui assistir a The Lego Movie, que chegou ao Brasil como Uma Aventura Lego. Após conquistar diversas criticas positivas e a marca de 96% de aprovação entre os críticos do Rotten Tomatoes, não há como negar que minha curiosidade e expectativas estavam grandes. Eu recentemente tenho descoberto, contudo, que meu tomatômetro nem sempre bate com o do site. Achei o filme divertido, ri, mas não sei se consigo considerá-lo bom, ou apenas um acumulado de bobagens surreais com algumas boas piadas. Um South Park aguado para todas as idades.
O herói do filme é Emmet, um operário de construção cujo sonho é se enturmar e ter muitos amigos, mas apesar de seguir à risca todos os guias de comportamento disponíveis, ele continua solitário. Quando Emmet fica para trás após um longo dia de trabalho, ele conhece Megaestilo, uma garota despojada que vive fora das regras e convenções da sociedade Lego.  Megaestilo busca a peça da resistência, que acaba sendo encontrada por Emmet. Assim, ele se torna O Especial, aquele destinado a salvar o mundo dos planos malignos do Presidente Negócios. 
Presidente Negócios quer que os múltiplos mundos aos quais controla sejam organizados e estáticos. Os legos do velho oeste não podem se misturar com os legos da cidade, ou com os legos do mar de piratas, e por aí em diante. Para ele, tudo o que é montado de acordo com a criatividade, e não de acordo com o manual, está errado. Emmet deve se unir aos Mestres Construtores para evitar que os mundos sejam congelados pelo maligno presidente.

Lego reflete nas telas o que o brinquedo é na realidade: uma explosão de cores primárias e vários bonequinhos de rosto amarelo e olhar simpático (a maioria). É inegável a diversão de ver todos aqueles queridos elementos de lego ganhando vida: as peças que representam fogo, a água, entre outros. 
A lição do filme, ou a “moral da história”, é muito bonitinha e excelente para o público infantil. Para os adultos, a diversão fica por conta do “bipolar” Guarda Mau (Good Cop/ Bad Cop), cuja cabeça gira e incorpora as duas faces da clássica dupla dos seriados e filmes policiais americanos. A vida de Emmet no início do filme também pode servir de tapa na cara de muita gente, já que a maior crítica que o filme faz é à conformidade e à padronização dos indivíduos.

Gostando ou não, rindo com o filme ou não, é inegável que após assisti-lo a vontade de voltar a brincar com os tijolinhos coloridos e com os bonequinhos de rosto amarelo fica quase irresistível. 

Clássicos do Cinema – A Marca da Maldade

Orson Welles teve uma passagem conturbada por Hollywood. O controle dos estúdios sobre as produções podava sua criatividade, e muitas de suas inovações eram vistas como estranhas ou desnecessárias pelos executivos. Cidadão Kane (1941) foi o único filme em que o diretor gozou de liberdade criativa plena. 
Após completar A Marca da Maldade (Touch of Evil), em 1958, Welles viu sua obra mutilada pelo estúdio, que gravou cenas extras e reeditou o filme, gerando algo completamente diferente do que o diretor pretendia. Em resposta, Welles escreveu um manifesto de mais de cinquenta páginas, descrevendo todas as mudanças que deveriam ser feitas para que o filme voltasse a se encaixar em sua visão. No entanto, a versão do estúdio, que buscava ser a mais comercial possível, prevaleceu. Orson Welles foi atendido apenas quarenta anos depois, quando uma versão restaurada do filme foi feita com base em seu manifesto.

Enredo e temática

A Marca da Maldade se passa na fronteira entre México e Estados Unidos, onde duas cidades fronteiriças se mostram mais semelhantes do que se poderia imaginar. Quando uma bomba plantada em um carro em solo mexicano cruza a fronteira e explode em território estadunidense, vitimando um influente homem de negócios e sua amante, a polícia dos dois países se vê envolvida em uma investigação complicada não apenas por questões de jurisdição, mas pelos métodos e egos dos principais detetives envolvidos, Quinlan (Orson Welles), do lado americano, e Vargas (Charlton Heston), do mexicano.

Os dois detetives são famosos e respeitados em seus respectivos países. Quinlan é reconhecido por ter colocado muitos criminosos no corredor da morte, e por ter “palpites” que frequentemente o colocam na direção dos culpados. Vargas é um policial mais jovem, mas já com um impressionante histórico na divisão de narcóticos da polícia mexicana. Enquanto Quinlan é carrancudo e de aparência quase grotesca (distorcido pela maquiagem pesada de Orson Welles e pelo ângulo contra-plongée em que o personagem foi filmado), Vargas é carismático e atraente. Quinlan age acima da lei, plantando evidências e enquadrando aqueles que considera culpados antes mesmo de ter provas concretas, já Vargas age como um verdadeiro o paladino da justiça e não poderia ser mais diligente em sua busca pela verdade.

Charlton Heston como Vargas, e Orson Welles como Quinlan em A Marca da Maldade 

As atitudes e aparências dos dois não poderiam ser mais distintas, mas no fundo, ambos são mais parecidos do que gostariam de admitir. Quinlan pode agir de forma ilícita e imoral, mas o faz por perseguir uma boa causa: prender criminosos que, pelo menos em sua percepção, são culpados. Marcado profundamente pela perda de sua mulher – o único homicídio que não conseguiu resolver – e por sua luta contra o alcoolismo, Quinlan é um personagem que sufoca suas fraquezas com brutalidade e autoritarismo. Vargas, por outro lado, se deixa envolver com sua investigação ao ponto de negligenciar sua própria esposa, expondo-a ao tormento de bandidos.

Quando Vargas descobre que Quinlan planta evidências para sustentar seus famosos “palpites” e incriminar quem considera culpado, ele inicia uma busca obsessiva para provar que está certo. A partir do momento em que Vargas estabelece a dúvida sobre a integridade de Quinlan, todos os casos resolvidos pelo detetive americano ficam sob suspeita.

A tênue linha entre o certo e o errado, a dúvida justificada e o ego do justiceiro; estes são temas do filme simbolizados, inclusive, pelo ato tantas vezes repetido de cruzar a fronteira.

Cinematografia do suspense – o famoso plano seqüência de abertura

A Marca da Maldade inicia com um elaborado plano seqüência com mais de dois minutos de duração, em que vemos uma bomba sendo armada e posicionada em um carro, e o trajeto do veículo até o momento da explosão. O carro avança e é detido em diversos momentos, por um guarda de transito, por pedestres que atravessam a rua e até mesmo pela passagem de um rebanho de cabras. O casal de protagonistas, Vargas (Charlton Heston) e Susan (Janet Leigh), caminha na mesma rua, ocasionalmente se aproximando ou se afastando do carro com a bomba, alheios ao perigo. A coreografia da cena, aliada ao fato de ser um plano ininterrupto, ao som ambiente e aos diálogos, cria um clima de suspense único.

Abaixo, a cena de acordo com as especificações do diretor.

A versão original do estúdio inclui os créditos de abertura, pouco som ambiente antes do diálogo entre Vargas e os policiais na fronteira, e uma música não-diegética que distrai o espectador da ação, tudo isso contribuindo para praticamente eliminar o clima de suspense da cena. Não foi à toa que Orson Welles ficou tão irritado com a interferência do estúdio em sua criação.

Abaixo, a versão editada pelo estúdio.

A Marca da Maldade possui diversos outros elementos interessantes, como a fotografia, a escolha dos ângulos de câmera e a composição da mise-en-scène. O enredo deixa a dúvida final: estava Quinlan correto em suas acusações? Cada espectador tem suas próprias conclusões. 

O Espetacular Homem-Aranha 2

Andrew Garfield e Emma Stone retornam como Peter Parker e Gwen Stacy no Blockbuster de verão que dá seqüência à franquia reiniciada em 2012.

Em meados de Maio a indústria cinematográfica entra no período dos lançamentos de verão, de acordo com o calendário dos EUA, em que os principais filmes de alto orçamento dos grandes estúdios são lançados. O formato é o mais formulaico possível: filmes com ação, comédia e romance na medida certa, e classificação indicativa livre para atrair desde crianças até adolescentes e seus pais.
Seguindo esse formato, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Eletro busca obter a mesma aprovação da crítica e o mesmo sucesso nas bilheterias de seu precedente. Por enquanto, tem falhado na missão. Após uma abertura razoável, o filme sofreu com uma queda severa de público no mercado americano entre a primeira e segunda semana de exibição, e os números internacionais, apesar de nada desprezíveis, não correspondem às expectativas.
 A crítica também não tem sido amigável com Peter Parker e Cia., o Rotten Tomatoes, por exemplo, calculou apenas 53% avaliações positivas entre seus críticos gerais, contra os 73% do original. Resta investigar se as avaliações negativas se fundamentam em avaliações técnicas, ou gostos pessoais.
Andrew Garfield e Emma Stone retornam como Peter Parker e Gwen Stacy.
Efeitos especiais e clichês

Um clichê não é algo necessariamente ruim. Quando algo se torna clichê – seja uma cena no roteiro, um tipo de enquadramento ou um determinado efeito especial, – significa que deu certo mais de uma vez e que pode dar certo novamente, se bem utilizado. O problema começa quando um roteiro se apóia tanto em clichês que a história fica pesada e cansativa.
Os problemas de roteiro são denunciados logo no início do filme. Após uma seqüência de ação que revela os últimos momentos do desaparecido casal Parker – e em que Richard Parker (Campbell Scott) se mostra mais próximo de um Rambo do que de um cientista -, encontramos Peter como Homem-Aranha perseguindo bandidos pelas ruas de Nova Iorque. Ouve-se o rádio da polícia, que informa que os bandidos estão tentando roubar uma carga de plutônio radioativo. Está armado o terreno para o primeiro grande deslize do roteiro. Ao abrirem o compartimento onde estão armazenadas dezenas de cápsulas do tal plutônio radioativo, os bandidos (e consequentemente a platéia) são alertados por uma voz feminina vinda da máquina de que “o plutônio radioativo é altamente explosivo”. É evidente que as múltiplas cápsulas explosivas se transformarão em um desafio para o nosso herói, mas essa não é a questão. A questão é que uma das regras básicas de um bom roteiro é que tudo o que puder ser mostrado, ao invés de narrado, é mais eficiente, e a dupla informação, tanto o rádio da polícia quanto a voz do controle de segurança, acabam sendo cansativas e supérfluas.
A conclusão da cena não melhora a situação. Aparentemente, todas as viaturas da polícia estão em perseguição aos bandidos, e quando os primeiros da fila freiam, os que vêm atrás batem uns nos outros, ou seja, mais um clichê que já perdeu a graça. Estes são apenas alguns detalhes que denunciam um roteiro que não fornece um desenvolvimento satisfatório tanto para os dois vilões, Eletro (Jamie Foxx) e Duende Verde (Dane DeHaan), quanto para os heróis. Tia May (Sally Field), coitada, parece que foi jogada no filme de qualquer jeito somente para cumprir tabela.
Os efeitos especiais do filme são incríveis, mas é decepcionante que não haja um equilíbrio entre empolgantes cenas de ação e um bom roteiro, como outros filmes de super-heróis já conseguiram alcançar, mas esse Homem-Aranhadeixou – e muito – a desejar.

Relembrando: O Espetacular Homem-Aranha

Uma nova história para Peter Parker
A primeira trilogia cinematográfica do Homem-Aranha terminou há apenas cinco anos, mas a história da transformação do tímido nerd Peter Parker em super-herói já está de volta aos cinemas em um uma nova versão. Estrelando Andrew Garfield no papel principal, O Espetacular Homem-Aranha (2012) é umreboot totalmente independente da primeira série.
Andrew Garfield como Peter Parker
Trazendo um enredo diferenciado para o super -herói, o filme mostra uma vez mais como Peter adquire super-poderes por meio da picada de uma aranha geneticamente modificada. Dessa vez, a história de como o garoto foi deixado aos cuidados dos bondosos Tio Ben (Martin Sheen) e Tia May (Sally Field) é mais elaborada, envolvendo o desaparecimento misterioso de seus pais. É revelado que Richard Parker (Campbell Scott) era um renomado cientista que trabalhava em um projeto de cruzamento genético entre diferentes espécies. Ameaçado não se sabe por quem, ele e sua esposa são obrigados a fugir e a deixar o filho para trás.
 Após uma introdução que conta toda essa história, o filme nos leva a conhecer o adolescente Peter Parker (Andrew Garfield) tentando “sobreviver” ao ensino médio. Tímido e um pouco desajeitado, Peter tem sua vida transformada ao visitar os laboratórios da Oscorp e ser picado por uma aranha geneticamente modificada.
Enquanto descobre suas novas habilidades especiais, Peter também encontra novas evidências que ajudam a esclarecer mais uma parte do misterioso desaparecimento de seus pais, precisa enfrentar a trágica morte do Tio Bem e derrotar o novo terror que ameaça Nova Iorque.
Nada de Mary Jane

A namorada de Peter dessa vez é a inteligente Gwen Stacy (Emma Stone). Na história em quadrinhos original, Gwen foi o primeiro grande amor do Homem-Aranha. Ela aparece no filme como nas revistinhas: aspirante a cientista e filha do Capitão de Polícia George Stacy (Denis Leary).
A opção por recontar a história do homem-aranha com um enredo mais próximo à história em quadrinhos original é interessante, mas com certeza gera um frio na barriga dos fãs quando o assunto é o destino de Gwen.
O herói mais humano da Marvel

O Homem-Aranha é, sem dúvida, o super-herói mais “humano” da Marvel. Marcado pelo desaparecimento de seus pais e, ainda mais profundamente, talvez, pela morte de seu tio Ben, o rapaz sofre uma dura passagem da adolescência à maturidade. Seus super-poderes são, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição, e ele é constantemente atormentado pelo dilema entre fazer o bem e viver uma vida normal.
Equilibrando cenas de ação emocionantes, comédia, romance e drama, o novo Homem Aranha representa habilmente a personalidade ao mesmo tempo sagaz e atormentada de Peter Parker.