45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Um pouco sobre a mostra Brasília de curtas-metragem.
Uma das melhores maneiras de conhecer a produção cinematográfica local é assistir à mostra Brasília de curtas-metragem. É nessa mostra que se pode encontrar os cineastas da cidade que, por qualquer motivo, não fizeram um longa, mas que batalharam para dar vazão às suas idéias e à sua expressão criativa no formato audiovisual. No segundo dia da mostra, sábado (23), encontrei filmes com uma qualidade técnica muito superior a que eu esperava, além de uma deliciosa criatividade em roteiros de ficção e uma abordagem tocante, mas não piegas, nos documentários.
Cidadão de Limpeza Urbana, documentário de Lucas Madureira e Thandara Yung, abriu a tarde de apresentações mostrando a rotina dos garis e coletores de lixo. Os entrevistados falam sobre as horas de trabalho sob sereno, chuva e noites frias, falam sobre o preconceito que sofrem – inclusive, em alguns casos, de seus próprios filhos –,  e do orgulho que sentem por exercerem um trabalho honesto e de vital importância para a sociedade.
Cidadão de Limpeza Urbana: documentário sobre a rotina dos garis e coletores de lixo de Brasília
Com Kinólatras, os roteiristas Tiago Belotti, Rodrigo Luiz Martins, Gustavo Serrate e Ana Flávia fazem piada com o vício dos cineastas que, mesmo diante das dificuldades de produzir cinema no Brasil, não desistem de filmar. Apresentado na forma de uma reunião do “Kinólatras anônimos”, os personagens tentam se livrar de seu vício seguindo oito passos. Sem muitas variações de enquadramento e com uma fotografia dura, o curta compensa com as piadas, que encontraram na platéia do Festival de Brasília o seu público-alvo ideal.
O terceiro curta da tarde foi Vida Kalunga, dirigido por Betânia Victor Veiga. Impressionante principalmente pela escolha dos enquadramentos e pela beleza da fotografia, que produzem um filme esteticamente muito marcante, o documentário mostra a vida dos kalungas, comunidade que constitui o maior território quilombola do Brasil. O curta é construído por depoimentos de kalungas, que falam sobre seus antepassados escravizados, sua relação com a terra e o orgulho que sentem pela história da comunidade.
Voltando ao âmbito da ficção, Meu Amigo Nietzsche, escrito e dirigido por Fáuston da Silva, conta a história de como o estudante Lucas encontra o famoso filósofo alemão. Ao encontrar no lixo o livro Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, Lucas inicia uma jornada para compreender o livro, o que acaba gerando grandes transformações em sua vida. Outro filme que impressionou pela beleza estética, Meu Amigo Nietzsche também apresenta um roteiro afiado, que sabe equilibrar comédia e reflexão social.
O menino Lucas conhece as idéias do filósofo alemão em Meu amigo Nietzsche.
O último documentário da tarde, Jangada de Raiz, de Edson Fogaça, mostra como o pescador artesanal Edilson Miguel da Silva constrói o principal instrumento de seu trabalho com as próprias mãos. Último homem que conhece a técnica da construção de jangada com raízes, Edilson decide realizar uma última obra. Assim como os dois anteriores, Jangada de Raiz é um filme com belíssimos enquadramentos e incrível fotografia.
Para fechar, O corpo da carne, de Marisa Mendonça, trouxe uma experiência sensorial e intimista. Ivan é um açougueiro que vê sua relação com o trabalho mudar após presenciar um acidente em que um operário da construção civil cai de um andaime. Trabalhando cores e texturas na tela, a diretora transmite as sensações e reflexões do personagem sem a necessidade de palavras.
O 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro termina amanhã, com a noite de premiação, evento restrito a convidados.

Já começou em Brasília o Festival Varilux de Cinema Francês

Seguindo o sucesso da edição do ano passado, o Festival Varilux de Cinema Francês ampliou seu alcance, e agora chega à 32 cidades brasileiras. Com as datas oficiais de 15 a 23 de agosto, o festival começou em Brasília ontem, dia 17.
Dividindo-se entre salas do Cine Cultura Liberty Mall e do Espaço Itaú de Cinema, o festival traz uma grande variedade de filmes da recente cinematografia francesa, inéditos no Brasil. O grande destaque da programação é o premiado Intocáveis, que já se tornou o filme nacional mais visto da história da França. A história de amizade entre o milionário tetraplégico Philippe (François Cluzet) e seu auxiliar Driss (Omar Sy) rendeu ao ator Omar Sy o César, prêmio mais importante do cinema francês. 
A programação completa do Festival Varilux pode ser encontrada no site oficial do evento. 

Intocáveis: o filme francês mais visto da história chega à Brasília nas telas do Festival Varilux

BIFF, Retrospectiva Anna Karina – A Religiosa

Filme dirigido por Jacues Rivette, com roteiro adaptado da obra homônima do enciclopedista Denis Diderot, publicada em 1796. Anna Karina interpreta Suzanne, uma moça trancada em um convento contra a sua vontade.

Os créditos de abertura explicam o contexto histórico do livro. Na França de finais do século XVIII, o convento era o destino de muitas jovens sem vocação. Enviadas pelos pais seja para manterem-se virgens até o casamento, seja para não serem uma despesa a mais na casa, as moças não tinham controle algum de seu destino.
A entrada no convento e a resignação.

Suzanne (Anna Karina) é a mais nova de três irmãs. Com as duas mais velhas já casadas, o pai se recusa a gastar dinheiro com o casamento da caçula, e a manda para o convento. A mãe de Suzanne, Madame Simonin (Christiane Lénier), revela a filha que seu pai verdadeiro não é o marido, sendo ela fruto do pecado do adultério. Assim, a mãe lhe pede que a filha “ajude-a a expiar seu pecado”, tornando-se uma boa freira. A jovem ainda é alertada de que não tem direito a herança e que as irmãs não lhe darão nada, pois já são casadas e tem seus próprios filhos para cuidar.
Apesar da já conhecida falta de liberdade das mulheres na época, o egoísmo demonstrado por aqueles que mandam Suzanne para o convento é impressionante. O pai só pensa nas despesas que a filha gera e a mãe a vê como bode expiatório para seu pecado. Na primeira vez que vai proclamar seus votos, Suzanne grita a todos que está ali contra a sua vontade e volta para a casa, mas, sem escolha, acaba mandada novamente para o convento.
Suzanne se prepara para proclamar seus votos.
A primeira Madre Superiora que a recebe é gentil como uma mãe. A consola de uma maneira bastante melodramática e a apóia até a confirmação de seus votos. Resignada, Suzanne passa de noviça à freira, mas afirma não ter lembrança alguma da cerimônia, não tendo agido de livre e espontânea vontade.
As provações de Suzanne

A obrigação de tornar-se freira contra a sua vontade não é a única dificuldade que Suzanne enfrenta. As injustiças que sofre representam as críticas de Diderot à Igreja Católica, mas também podem ser interpretadas como uma crítica à configuração de uma sociedade em que a mulheres sem meios financeiros estão à mercê dos mais fortes.
Após a morte da primeira, uma nova Madre Superiora assume o posto. Ao contrário de amor maternal, a sucessora dispensa a Suzanne apenas antipatia. Assim que encontra um motivo, ela utiliza seus poderes de forma abusiva para humilhar a subordinada. O primeiro “crime” de Suzanne é o de manter uma bíblia pessoal escondida no quarto, o segundo, é a contratação de um advogado para pedir a anulação de seus votos.  Por isso, ela é privada de roupas limpas, de um quarto mobiliado e até mesmo de comida e água. Enfraquecida, suas súplicas quase delirantes por comida são interpretadas como possessão pelo demônio.
É clara a crítica ao fanatismo religioso e ao próprio sistema hierárquico da Igreja, que isolava seus membros e permitia que abusos continuassem até que um julgamento fosse realizado. Um exemplo claro e indignante é a afirmação do advogado de Suzanne de que ele sabe – e não tem como evitar – dos maus-tratos que a jovem sofre nas mãos das companheiras.
Presa no convento contra a sua vontade, Suzanne luta pela liberdade. 

Após ser absolvida das acusações de descumprimento das regras do convento, Suzanne tem a anulação dos votos negada, mas lhe é permitido que mude de ordem. Ela é recebida com alegria e curiosidade pelas novas irmãs, sobretudo pela Madre Superiora. O clima no novo convento é exatamente oposto ao anterior: em lugar de simplicidade e austeridade, as freiras riem como adolescentes e gozam de certos luxos, ostentando inclusive jóias. A principal incentivadora do comportamento relapso das irmãs é a Madre Superiora, que passa a assediar Suzanne. Sem poder agüentar mais, ela foge do convento, apenas para descobrir que o mundo do lado de fora, aquele que tanto sonhou em conhecer, não é nada acolhedor.
As críticas de Diderot .

As críticas elaboradas pelo autor e transmitidas pelo filme muitas. Críticas à Suzanne, que é a representação da mulher da época, sem estudo, ingênua e ignorante, incapaz de sobreviver no mundo sem a tutela dos pais, do marido ou das irmãs do convento.  À sociedade da época, que tratava essas mulheres como objeto e não lhes dava o menor espaço. Por fim, sua crítica mais forte é ao sistema de claustro a que estão submetidas às mulheres no convento. Praticamente excluídas de qualquer contato externo, muitas delas sem vocação, seus pensamentos e ações variam do fanatismo religioso ao desejo lésbico.
Apesar de tudo isso, não se percebe um ataque direto à fé, mas sim ao que os homens fazem dela: instrumento, desculpa, justificativa para os piores atos.

Começa nessa semana o Brasília International Film Festival (BIFF)

O Festival Internacional de Cinema de Brasília, com nomes tanto em inglês quanto em português, terá inicio nesta quinta-feira, dia 12. Para a cerimônia de abertura, que será realizada na sala Alberto Nepomuceno no Teatro Nacional, foram disponibilizados ao público 450 ingressos gratuitos, esgotados logo no primeiro dia.

Representando um esforço para recolocar a cidade na rota dos grandes festivais de cinema, o BIFF traz, de 12 a 22 de Julho, seis mostras além da competitiva, são elas: O Novo Cinema Europeu, Panorama África, Independentes Americanos, Cara Latina, Mundo Animado e Retrospectiva Ana Karina. As sessões exibidas no Cine Cultura custarão 16,00 reais a inteira e 8,00 a meia entrada. Sessões exibidas na sala Alberto Nepomuceno no Teatro Nacional terão entrada franca.
Infelizmente, o site oficial não contém tantas informações quanto a página no facebook, o que atrapalha a obtenção de informações. Apesar desses detalhes, a iniciativa da criação do festival é excelente. Após a extinção do antigo FIC, espera-se que o novo BIFF esteja realmente chegando para ficar, que faça sucesso e que evolua a um festival inteiramente gratuito. Que não seja apenas uma troca de siglas.