45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Um pouco sobre a mostra Brasília de curtas-metragem.
Uma das melhores maneiras de conhecer a produção cinematográfica local é assistir à mostra Brasília de curtas-metragem. É nessa mostra que se pode encontrar os cineastas da cidade que, por qualquer motivo, não fizeram um longa, mas que batalharam para dar vazão às suas idéias e à sua expressão criativa no formato audiovisual. No segundo dia da mostra, sábado (23), encontrei filmes com uma qualidade técnica muito superior a que eu esperava, além de uma deliciosa criatividade em roteiros de ficção e uma abordagem tocante, mas não piegas, nos documentários.
Cidadão de Limpeza Urbana, documentário de Lucas Madureira e Thandara Yung, abriu a tarde de apresentações mostrando a rotina dos garis e coletores de lixo. Os entrevistados falam sobre as horas de trabalho sob sereno, chuva e noites frias, falam sobre o preconceito que sofrem – inclusive, em alguns casos, de seus próprios filhos –,  e do orgulho que sentem por exercerem um trabalho honesto e de vital importância para a sociedade.
Cidadão de Limpeza Urbana: documentário sobre a rotina dos garis e coletores de lixo de Brasília
Com Kinólatras, os roteiristas Tiago Belotti, Rodrigo Luiz Martins, Gustavo Serrate e Ana Flávia fazem piada com o vício dos cineastas que, mesmo diante das dificuldades de produzir cinema no Brasil, não desistem de filmar. Apresentado na forma de uma reunião do “Kinólatras anônimos”, os personagens tentam se livrar de seu vício seguindo oito passos. Sem muitas variações de enquadramento e com uma fotografia dura, o curta compensa com as piadas, que encontraram na platéia do Festival de Brasília o seu público-alvo ideal.
O terceiro curta da tarde foi Vida Kalunga, dirigido por Betânia Victor Veiga. Impressionante principalmente pela escolha dos enquadramentos e pela beleza da fotografia, que produzem um filme esteticamente muito marcante, o documentário mostra a vida dos kalungas, comunidade que constitui o maior território quilombola do Brasil. O curta é construído por depoimentos de kalungas, que falam sobre seus antepassados escravizados, sua relação com a terra e o orgulho que sentem pela história da comunidade.
Voltando ao âmbito da ficção, Meu Amigo Nietzsche, escrito e dirigido por Fáuston da Silva, conta a história de como o estudante Lucas encontra o famoso filósofo alemão. Ao encontrar no lixo o livro Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, Lucas inicia uma jornada para compreender o livro, o que acaba gerando grandes transformações em sua vida. Outro filme que impressionou pela beleza estética, Meu Amigo Nietzsche também apresenta um roteiro afiado, que sabe equilibrar comédia e reflexão social.
O menino Lucas conhece as idéias do filósofo alemão em Meu amigo Nietzsche.
O último documentário da tarde, Jangada de Raiz, de Edson Fogaça, mostra como o pescador artesanal Edilson Miguel da Silva constrói o principal instrumento de seu trabalho com as próprias mãos. Último homem que conhece a técnica da construção de jangada com raízes, Edilson decide realizar uma última obra. Assim como os dois anteriores, Jangada de Raiz é um filme com belíssimos enquadramentos e incrível fotografia.
Para fechar, O corpo da carne, de Marisa Mendonça, trouxe uma experiência sensorial e intimista. Ivan é um açougueiro que vê sua relação com o trabalho mudar após presenciar um acidente em que um operário da construção civil cai de um andaime. Trabalhando cores e texturas na tela, a diretora transmite as sensações e reflexões do personagem sem a necessidade de palavras.
O 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro termina amanhã, com a noite de premiação, evento restrito a convidados.

A volta ao mundo por Fernando Meirelles

360, escrito por Peter Morgan e dirigido por Fernando Meirelles, é mais do que uma colcha de retalhos desconexos, é uma corrente com elos bem conectados, mas não necessariamente fortes

O filme começa com duas perguntas que sempre ocorrem a todas as pessoas: como cheguei até aqui? Teria minha vida sido diferente se eu, ou qualquer uma das pessoas a minha volta, tivesse feito outras escolhas? Quem se pergunta isso é Mirka (Lucia Siposová), uma jovem eslovaca que acaba de se tornar uma garota de programa de luxo, adotando o nome de Blanka. Saindo de Bratislava para encontrar seus clientes em Viena, ela vai sempre acompanhada pela irmã, a meiga Anna (Gabriela Marcinkova).
Blanka vai até o bar de um luxuoso hotel para se encontrar com seu primeiro cliente, Michael Daly (Jude Law). Interceptado por dois homens com quem negociava um acordo para sua empresa, Michael não consegue se encontrar com ela. A partir desse desencontro, surge uma série de ações e reações que movem a vida dos diversos personagens do filme, cada situação ligando-se à seguinte como os elos de uma corrente. 
Jude Law como Michael Daly e Rachel Weisz como sua esposa, Rose  

 Vidas interligadas.

Consegui contar pelo menos oito relacionamentos-chave, oito núcleos em torno dos quais a história se desenvolve. Isso que 360 tem pouco mais de uma hora e meia de duração. Trabalhar com uma quantidade tão grande de personagens e histórias em tão pouco tempo não é tarefa fácil. Meirelles consegue, com sua direção delicada, mas decidida, captar as nuances e as fragilidades desses personagens que passam tão rapidamente pela tela. 
Com a escassez de tempo, os personagens passam a ser resumidos simplesmente ao trauma psicológico ou à experiência mais marcante de suas vidas. O espectador mal o vê na tela e já é apresentado à encruzilhada diante da qual o personagem se encontra. Não há tempo a perder. O problema é apresentado e uma decisão é tomada. Trata-se de um estilo, não necessariamente de um problema, apesar de que algumas histórias geram mais apreensão e envolvimento do que outras. 
360 é um recorte da vida de várias pessoas comuns, e nesse ponto Meirelles é até bastante otimista. A sugestão de que nossa vida depende mais das escolhas e das atitudes de quem está à nossa volta do que gostamos de imaginar é assustadora. Com todo nosso desejo de controlar nosso destino, nos esquecemos o quanto dependemos dos outros, e o quanto os outros dependem de nós. Ainda assim, nem roteirista nem diretor utilizam essa premissa para assustar a audiência (pelo menos não muito). Como eu disse, o filme é até bastante otimista. 
Antonhy Hopkins como John.

 Um filme de muitos sotaques.

Para rodar 360, Fernando Meireles reuniu um elenco multinacional, que inclui desde os britânicos Jude Law e Rachel Weisz, até a eslovaca Lucia Siposová, passando pelos russos Vladimir Vdovichenkov e Dinara Drukarova, pela brasileira Maria Flor e pelo francês Jamel Debbouze, entre outros. É interessante reparar que cada ator interpreta um personagem de sua própria nacionalidade, e quando as conversas convergem ao inglês, a variedade de sotaques enche os ouvidos do espectador. 
No filme de Meireles se ouve eslovaco, português brasileiro, russo, francês, e o idioma que une os personagens, o inglês. O fator idioma, juntamente com as locações em diversas partes do mundo (Viena, Londres, Paris, etc), contribui para aumentar a sensação de encolhimento do mundo que o longa transmite.

Novela não é Escola

Eu não assisto à novela alguma. O máximo que já acompanhei foi um pouco de Chocolate com Pimenta, Tititi e Roque Santeiro, que passava no “Vale a pena Ver de novo” quando eu tinha onze anos.  A única novela “das nove” que vi um pouco mais do que meio capítulo foi O Clone. Mas as novelas, principalmente as do horário nobre da Rede Globo, sempre encontram um meio de entrar nas nossas vidas.
Nunca assisti a um capítulo sequer de Avenida Brasil, a novela que está no ar, mas sei que a música de abertura é a versão do Latino para “Dança Kuduro”, sei quem é Carminha, Nina, Suelen e companhia. Praticamente toda a minha timeline do twitter acompanha a novela e acaba repassando o que vê. Vejo comentários no facebook e escuto as pessoas à minha volta. Essa inserção da novela no cotidiano é uma realidade que nós brasileiros vivemos há décadas. A força da novela é tanta que, em plena era da TV a cabo e da internet, Avenida Brasilestá atingindo picos de audiência de 45 pontos na grande São Paulo. 
Discutir as causas de tamanho sucesso, contudo, não é o objetivo deste texto. Meu comentário aqui se relaciona a um tema que vem me perturbando há algum tempo: como a novela virou uma espécie de escola para o povo brasileiro.
Muitas das novelas da Rede Globo, especialmente as de horário nobre, adotam alguma abordagem social, uma bandeira que defendem, como a leucemia de Camila (Carolina Dieckman) em Laços de Família, que foi utilizada para uma campanha de doação de medula óssea, a viciada Mel (Débora Falabela), que foi o exemplo da campanha antidrogas de O Clone, e o caso de Tarso (Bruno Gagliasso) em Caminho das Índias, personagem que ilustrava uma campanha de conscientização sobre a esquizofrenia. Isso só para citar alguns dos casos que ficaram mais marcados. Essas campanhas são um exemplo de serviço de utilidade pública que a novela pode exercer para o bem da sociedade. Esses “personagens-exemplo” muitas vezes ajudam a alertar às pessoas para problemas para os quais muitos viram às costas. Utilizar-se de alguns exemplos para o bem comum, contudo, é diferente de confundir o papel da novela. Novela não serve para educar, serve para entreter.
De novo: nunca assisti Avenida Brasil, mas vi comentários indignados sobre uma cena em que Suelen (Ísis Valverde) seduz o marido Roni (Daniel Rocha), um rapaz que esconde sua homossexualidade. A cena gerou repercussão, principalmente, por implicar que a homossexualidade pode ser curada, ou que a causa da homossexualidade seria a falta de uma boa mulher. É claro que isso é um absurdo. Um homem é homossexual porque é homossexual, ponto. E Suelen fez o que fez porque é uma personagem. Sim, é horrível saber que existem pessoas como Suelen. Ou o que é pior, que existam homens como Suelen, que acreditam que as mulheres homossexuais são assim por falta de um bom homem. Poucas idéias são mais repudiáveis do que esta. Não estou defendendo aqui a atitude, mas a liberdade de mostrá-la na televisão.
Em Avenida Brasil, Suelen faz de tudo para seduzir o homossexual Roni
A novela é uma obra de ficção, que contém um enredo e personagens, e personagens tem defeitos, muito mais do que tem qualidades. É dever do espectador diferenciar as coisas, não se deixar influenciar pelo que vê. Muitos brasileiros são influenciados pelas novelas ao ponto de se deixarem “educar” por elas, mas seria isso culpa da novela, ou da estrutura educacional do país?
O Brasil ainda tem muito que avançar em relação ao respeito aos homossexuais, e a novela poderia ajudar com isso, como já ajudou em outros assuntos. Não é, contudo, dever da novela fazer isso. Se nosso sistema educacional fosse um pouco melhor, as pessoas entenderiam que a novela é uma obra de ficção, como um livro ou filme (e muitas vezes vemos atitudes muito piores do que as de Suelen em livros e filmes), assistiriam ao enredo e saberiam filtrar o que é bom e o que não é.

Observando pela ótica da responsabilidade social que a novela adquiriu por sua influência na vida dos brasileiros, seria de se esperar que seus roteiristas fizessem escolhas mais positivas para seus enredos, mas aí também teríamos que parar com as maldades de Carminha e com a vingança de Nina, e assim a novela talvez se tornasse uma festa de unicórnios em um arco-íris cor-de-rosa. E nenhuma obra de ficção – bem como o mundo – é assim. 

Outro exemplo é a cena que foi ao ar recentemente em Gabriela, em que Jesuíno (José Wilker) mata a esposa e o amante ao flagrá-los juntos. Houve protestos indignados contra a Globo por mostrar uma cena tão contrária aos direitos das mulheres. O que deveria indignar as pessoas é o ato do personagem, não o fato de ele estar na tela da TV.
Em Gabriela, Jesuíno assassina a mulher por encontrá-la com o amante.
No meu Brasil perfeito, todas as pessoas que assistissem a essas cenas se indignariam com a atitude desses personagens e os repudiariam, sabendo que o que vêem é uma obra de ficção, não um exemplo a ser seguido. Isso é um futuro que eu sei que chegará, mas que já deveríamos estar construindo, ao invés de perder tempo acusando autores de ficção disso ou daquilo.
Enquanto continuarmos a assistir – e a aplaudir – a seriados e filmes violentíssimos e politicamente incorretos na TV a cabo, sem, contudo, tolerar a mesma liberdade criativa na TV aberta, seremos eternos hipócritas. Bem como ao continuar a confiar o papel da educação e da formação de opinião – aspectos que devem ser formados por escolas, famílias e livros – quase que exclusivamente às novelas.  Novela não é escola, novela é ficção. E é uma pena que nem todo mundo saiba distinguir isso. 

25/05, dia de cinema brasileiro – parte 3

On the Road.

Baseado no livro homônimo do americano Jack Kerouac, On the Road (Na estrada) fala sobre a jovem geração de 1950 nos Estados Unidos. Protagonizado por atores americanos, o pouco que tem de brasileiro é a presença de Walter Salles como diretor e a co-produção do filme, dividida entre Brasil e França.
Considerado o “pai” da beat generation, Kerouac se insere na história através do personagem fictício Sal Paradise (Sam Riley), que atravessa os Estados Unidos de leste a oeste mais de uma vez. Sua amizade com o inconstante Dean Moriarty (Garret Hedlund) é o centro do enredo.
Em busca de uma adaptação.

Considerado inadaptável, o livro passou por diversas mãos até chagar a Salles. Visto como uma excelente fonte de inspiração, apesar de seu conteúdo denso, On the Road foi encarado como potencial filme desde seu lançamento, em 1957. Após arrepender-se de recusar uma oferta da Warner Bros., o próprio Kerouac chegou a enviar uma carta oferecendo o papel de Dean Moriarty a Marlon Brando, e urgindo ao ator que comprasse os direitos do livro. Carta a qual não obteve resposta.
Já no final da década de 1970, Coppola adquiriu os diretos, mas encontrou-se sem o financiamento necessário para o filme, e o projeto acabou na gaveta. Ao conhecer o trabalho de Walter Salles em Diários de Motocicleta (2004), Coppola o chamou para uma reunião e o projeto voltou à tona. Sentindo-se deslocado do contexto norte-americano descrito na história, Salles iniciou sua própria jornada pelos lugares mencionados no livro, registrando tudo em um documentário a ser lançado após a chegada do próprio filme ao cinema.
O roteirista de Diários de Motocicleta, José Riviera, foi o encarregado da adaptação. Buscando material não somente no livro publicado, como também nos manuscritos de Kerouac, ele finalmente atingiu uma versão satisfatória.
Os processos de elaboração do roteiro, de seleção dos atores e de negociação do orçamento foram longos, mas em 2010 finalmente todas as peças se encaixaram e as filmagens puderam começar, sob uma carga de mais de 50 anos de expectativas.
A opressão do papel em branco VSa infinidade de possibilidades de uma estrada vazia.

Aspirante a escritor, Sal Paradise não sabe sobre o que escrever. Ele se vê estagnado diante de sua máquina de escrever que comporta uma folha de papel em branco sem uma linha escrita sequer. Quando conhece Dean Moriarty e seu espírito inquieto, Sal decide imitá-lo e partir em sua própria viagem pelo interior dos Estados Unidos.
Sal Paradise (Sam Riley) com o amigo Dean Moriarty (Garret  Hedlun): a juventude na estrada.
A busca de Sal e Dean por novas experiências, novos lugares, é, ao mesmo tempo, uma expressão de sua inquietação e uma busca por criatividade. Oprimido pelo papel em branco, Sal encontra na vastidão da estrada uma infinidade de possibilidades. Viajando, conhece as mais diversas realidades. Participa de festas e, quando o dinheiro aperta, trabalha na colheita do algodão.
Assim, ele vê com os próprios olhos os Estados Unidos que passam longe dos olhos dos garotos da cidade. É um país de viajantes, trabalhadores, imigrantes. Ao contrário de Diários de Motocicleta, em que Ernesto Guevara (Gael Garcia Bernal), o futuro Che, e seu amigo Alberto Granado (Rodrigo de La Serna) conhecem a realidade da América Latina e formam uma consciência em relação a seus problemas, em On the Road a única consciência que Sal forma (se é que chega a formar alguma) é sobre si próprio. Mais interessado em participar de festas e sentir-se livre do que em ajudar aos menos afortunados, sua personalidade só não é tão egoísta quanto a de seu amigo Dean.
A busca dos dois não chega a ser uma busca por um propósito, ou por um lugar no mundo. Trata-se apenas da evasão pela evasão. Dean até “procura” por seu pai, mas a busca é tão vaga que chega a ser insignificante. Ainda assim, esse “espírito de liberdade”, essa inadequação a uma vida fixa, é o componente que mais faz sentido em todo o filme.
Sexo e drogas na estrada infinita.

Além de viajar, pedindo carona e roubando comida e gasolina no caminho, o que os jovens mais fazem é beber, usar drogas e transar. Até o ponto em que tudo fica extremamente tedioso e repetitivo.
Kristen Stewart como a sexy Marylou
Marylou, interpretada com surpreendente competência por Kristen Stewart, é a protagonista de praticamente todas as cenas de sexo. Sim, os jovens do filme estão vivendo em uma louca estrada de experimentação, que além da bebida e das drogas, envolve o sexo. Mas as cenas que reúnem esses três componentes acabam sendo tão repetitivas que dão a impressão de que os personagens estão vivendo em um looping. A estrada deixa de ser reta e passa a ser circular.
Um filme esmagado pela expectativa.
O resultado de On the Road, em geral, não empolgou a crítica. Apesar de muito bem executado tecnicamente, faltou-lhe um quê, um algo a mais que os fãs do livro visivelmente encontraram na prosa, mas que não está na película. Adaptações nunca são fáceis, mas esta certamente teve sua dificuldade dobrada por toda a expectativa nela depositada.
Recheado com belos planos, boas interpretações e uma fotografia envolvente, On the Road não é nem de longe um filme ruim, mas com certeza seria um filme muito melhor se não houvesse um livro homônimo lhe fazendo sombra. 
Mais sobre o processo de adaptação de On the Road aqui

25/05, dia de cinema brasileiro – parte 2

A sessão seguinte à Xica da Silva era Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Cineasta reconhecido, Coutinho é descrito pelo site oficial do festival como “o mais importante documentarista brasileiro”. Cabra Marcado retoma não somente a história do Brasil, mas também uma peça importante da carreira do próprio cineasta.
O Cabra Marcado original

Em 1962, foi assassinado o líder camponês João Pedro Teixeira, na Paraíba. O Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE) decidiu produzir um filme que reencenava a história de vida de João Pedro, de suas lutas até seu assassinato.
A família do camponês, constituída por sua viúva, Elizabeth Teixeira, e seus dez filhos, interpretariam seus próprios papéis. Outros amigos de João Pedro e participantes da liga camponesa fundada por ele também participariam do filme. Utilizando muitas falas criadas pelos atores/personagens e suas próprias casas como locação, o filme apresentava altíssima qualidade em termos de execução técnica, principalmente na fotografia executada sobre o negativo em preto-e-branco. Os poucos fragmentos que sobraram são inseridos por Coutinho no documentário atual.
O golpe militar de 1964 interrompeu as filmagens. Os membros da equipe, bem como Elizabeth Teixeira e sua família, foram perseguidos. O que se salvou do filme foi a parte que já havia sido mandada para a revelação no laboratório.
Vinte anos depois.

Em 1984, com a abertura do regime militar, Coutinho decide retomar Cabra Marcado para Morrer. Dessa vez, contudo, o filme se transformaria em um documentário sobre como e porque as filmagens foram interrompidas, e o que aconteceu com a família Teixeira.
Coutinho volta às antigas locações e procura os participantes do filme, mostrando-lhes as antigas imagens de que participaram e lhes entrevistando sobre o que se lembram da realização do filme e sobre o que pensam em relação ao trabalho que realizaram.
Elizabeth Teixeira e sua família durante as filmagens de 1962-64.
Ao relembrar a história do movimento camponês, o documentário mostra a consciência política e de classe que esses trabalhadores possuem.  Também é reconstituída a história de João Pedro e sua família. Elizabeth Teixeira, que havia mudado seu nome e se escondido, se revela novamente a parentes e amigos. Dessa forma, além de recordar a perseguição política da década de 1960, Cabra Marcado também registra o afrouxamento do regime militar na década de 1980.
O cinema como arma.

Apesar de contar uma história de muito sofrimento e tristeza, o filme também arranca algumas risadas ao descrever a perseguição dos militares aos estudantes que realizavam o filme de 1962. Ao interrogarem os camponeses, havia uma pergunta freqüente: “como eram esses cubanos que estavam aqui?”.
Isso mesmo, um grupo de estudantes que fazia um filme foi confundido com cubanos que tentavam instaurar uma revolução no país. Perguntavam ainda como os “cubanos” falavam, se os camponeses eram capazes de entendê-los, e o mais importante: onde estavam as armas? No lugar onde se imaginava que mais de 20 mil armas estavam sendo escondidas, o exército encontrou apenas tripés, refletores, câmeras, rolos de filme, enfim, um equipamento básico de filmagem.
Pela inquietação e perseguição que as filmagens de Cabra Marcado para Morrer gerou em 1962-64, e por tudo o que a versão final de 1984 demonstrou, fica claro que o cinema pode sim, ser uma arma muito poderosa. 

25/05, dia de cinema brasileiro – parte 1

O Brasil foi o convidado de honra em Cannes este ano, sendo homenageado, entre outros eventos, por exibições de A Música Segundo Tom Jobim (2011), Xica da Silva (1976) e Cabra Marcado para Morrer (1984). Possuindo uma ligação especial com o festival desde a época do Cinema Novo (como o próprio site oficial explica), o Brasil também se viu representado pela participação de On the Road ,dirigido por Walter Salles, na mostra competitiva, e pela presença de Carlos “Cacá” Diegues como presidente do júri do prêmio Camera d’Or.
O problema das legendas.

Na mostra Cannes Cinéphiles, teatro La Licorne, seriam reprisados filmes da competição principal, bem como os filmes brasileiros homenageados. Dia 25 a programação seria: Xica da Silva, de Cacá Diegues, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e finalmente a reprise de On the Road, De Walter Salles.
A primeira sessão encheu o espaço do teatro com um público formado principalmente por jovens e idosos. Depois de uma hora de fila, o início da sessão foi decepcionante: uma funcionária do festival fez um anúncio ao microfone que gerou vários murmúrios de reclamação. Como meu francês não é muito bom, só o que pude entender foi que havia algum problema com as legendas do filme. Iniciada a sessão, revelou-se o problema: as legendas, em francês, estavam atrasadas, o que atrapalhava a compreensão das falas para pelo menos 95% do público presente.  
O problema persistiu durante toda a projeção de Xica da Silva e se repetiu em Cabra Marcado para Morrer, sessão que contou com uma menor presença de público, mas um público que reclamou ainda mais alto quando o atraso nas legendas foi anunciado.
O que simplesmente não dá para entender é como um festival com proporções tão grandes, com uma organização tão bem planejada como o Festival de Cannes não conseguiu sincronizar uma legenda. Isso é simplesmente inconcebível. Falta de respeito não somente com o público, mas também com os realizadores dos filmes, que tiveram o entendimento de suas obras prejudicado, e com o Brasil, que como país convidado deveria ter suas obras tratadas com mais cuidado.
Xica da Silva: personagem histórica que virou mito.
Dirigido por Cacá Diegues e inspirado na história real de Francisca de Oliveira da Silva, o filme conta a história quase mítica da escrava que virou senhora durante o auge da mineração de diamantes no Brasil, no século XVIII.
Apesar do fundo histórico, Diegues não segue a história com fidelidade, nem prima pelo realismo. A Xica interpretada por Zezé Mota traz consigo um exagero e uma extravagância fora do comum. O contexto da execução do filme também influencia em seu enredo e sua estética. Em 1976 o Brasil passava pelo regime militar, e mesmo que não apresente uma carga política muito forte, Xica da Silva também fala sobre a exploração das autoridades sobre os mais fracos e sobre os sonhos de liberdade destes.
O filme começa com a chegada do novo contratador de diamantes enviado por Portugal, João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), ao Arraial do Tijuco, que futuramente seria conhecido como Diamantina. No caminho ele conhece Teodoro (Marcus Vinícius), homem que encontra os mais ricos veios de diamantes, os explora sem a autorização da coroa e depois vende as pedras aos holandeses. Por isso, ele é procurado como bandido pelas autoridades. João Fernandes, contudo, decide aproveitar-se do talento de Teodoro ao invés de prendê-lo.
Zezé Mota como Xica da Silva.
Xica da Silva (Zezé Mota) é escrava do Sargento-Mor (Rodolfo Arena) e amante dele e de seu filho, José (Stepan Narcessian). Quando fica sabendo da chegada do contratador, Xica decide que quer conhecê-lo e faz de tudo para que isto aconteça. Encantado por ela, João Fernandes a compra e a torna sua amante. Xica faz coisas que “só ela sabe”, e com isso coloca João Fernandes a seus pés.
Quando o contratador passa a tratar a escrava como senhora, convidando-a a sentar-se à mesa consigo, dando-lhe roupas caras de presente e fazendo todas as suas vontades, a sociedade à sua volta se escandaliza. No início, são as outras escravas da casa, obrigadas a servir a uma igual como superior, que se sentem ofendidas. Em seguida, após conseguir sua carta de alforria, Xica passa a conviver com a alta sociedade local, não perdendo uma oportunidade de provocá-los com sua recém-adquirida posição.
Relação entre poder e dinheiro.

O poder de Xica provém de João Fernandes, e o poder de João Fernandes provém de seu cargo político e, sobretudo, do dinheiro que possui. Apesar de escandalizados com a relação do contratador com a ex-escrava, nenhum dos membros da sociedade se atreve a dizer algo. Quando Xica pede que o amante lhe dê de presente o mar, ele encomenda que um barco seja construído para navegar na barragem do arraial. Reunindo todas as autoridades para a “inauguração” do barco, João Fernandes aplaude e acena para Xica. Todos, apesar de indignados, imitam seu gesto.
Encantado por Xica, João Fernandes a transforma em uma senhora. 
Quando a autoridade máxima e homem mais rico da região aplaude, todos aplaudem. Essa cena compreende uma diversidade de críticas que o diretor quer transmitir ao público, tanto em relação ao governo ditatorial da época da exibição do filme, quanto (e principalmente) à mentalidade do país, à supervalorização do dinheiro e ao conformismo.
A própria indignação das senhoras da elite e do pároco local com o comportamento de Xica é ocultada para não ofender o contratador. O racismo contra ela ainda é grande, e o incômodo que os brancos sentem em ver “essa negra safada” com status quase de rainha só é suplantado pela adulação à autoridade e a quem tem mais dinheiro.
A inconfidência mineira e o sonho de liberdade.

Em 1976 o regime militar já mostrava sinais de afrouxamento. Apesar disso, Diegues não omitiu críticas ao sistema de governo em Xica da Silva. Na história, o personagem mais politizado é José, o filho do Sargento-Mor. Além de ser o único que genuinamente torce pelo sucesso de Xica, é o único que questiona os propósitos do contratador.
José se refere aos portugueses como ladrões da riqueza nacional, e a João Fernandes como um enviado que “vem de Portugal para tomar o que não lhe pertence”. Decidido a lutar pela liberdade do país, o rapaz parte rumo à Vila Rica, onde pretende tomar parte em movimentos contestadores da dominação da coroa portuguesa, implicitamente, a inconfidência mineira.
Outro personagem que pode representar uma crítica aos militares é o próprio Sargento-Mor, ridicularizado desde a primeira cena em que aparece. Ele procura as calças, enquanto o senhor Intendete (Altair Lima) e sua esposa Hortência (Elke Maravilha) presenciam a cena, constrangidos. Desajeitado e visivelmente sem muita cultura, o Sargento-Mor é o exato contrário de seu filho.
Por fim, o sonho de liberdade de Xica. Mesmo após receber sua carta de alforria, ela ainda é presa ao dinheiro de João Fernandes, pois sem ele e sua riqueza ela não é nada. Mesmo rica e livre, ela não pode nem ao menos entrar na igreja por ser negra. Sua condição reflete a condição do país, que mesmo livre ainda é preso aos donos do dinheiro e aos detentores do poder.
A corrupção no Brasil Colônia.

O contratador é enviado por Portugal para investigar supostas irregularidades e roubos na exploração dos minérios de diamante. Ao invés de cumprir rigidamente sua tarefa, João Fernandes estabelece com o bandido Teodoro uma espécie de equilíbrio de poder. O contratador não persegue nem prende o bandido, mas o deixa livre para descobrir os veios mais ricos e explorá-los o quanto puder. Quando Teodoro, por sua limitação de recursos, extrai tudo o que pode e parte. João Fernandes então envia seus homens, melhor equipados, para continuar a extração até que a fonte se esgote. Assim, deixando de cumprir a lei, ele enriquece.
Quando Portugal envia um fiscal da corte, o Duque de Valadares (José Wilker), para fiscalizar o trabalho de João Fernandes, o Tijuco ganha uma nova autoridade a quem adular. Para escapar do degredo na África, o contratador paga o que pode ao Duque, que, por sua vez, também deixa de cumprir suas obrigações em nome do interesse próprio. A mensagem é clara: autoridade, no Brasil, só auxilia a si própria.
A estética de Debret em cena.

A mis-em-scène construída, em muitos momentos, gera a sensação de se estar assistindo a um quadro de Debret que se move e fala. Os vestidos das mulheres, as crianças nuas ou semi-nuas brincando pelo chão enquanto os senhores comem à mesa, os escravos sendo castigados com pesados grilhões de ferro. Tudo remete à obra do pintor francês.
A mis-en-scène do filme leva ao cinema a estética dos quadros de Debret. 
Em outros momentos, porém, o carnaval brasileiro parece se tornar a inspiração principal. As roupas e maquiagens de Xica e seus servos possuem muito dourado, muito brilho. Personagem símbolo do exagero, da extravagância e da luxúria, Xica também é uma personagem real que se tornou mito popular. Assim, retratá-la com um toque de fantasia carnavalesca é perfeitamente adequado, e a interpretação de Zezé Mota se alinha com essa estética.
Xica com seus “súditos”, vestidos com muita cor e brilho.
Com Xica da Silva, Diegues utiliza o passado histórico do país para criticar sua contemporaneidade, na década de 1970. Reprisá-lo em 2012 ajuda a lembrar-nos de que nem todas as mudanças de que precisamos já foram realizadas.