American Horror Story: o que passou e o que está por vir

American Horror Story: o que passou e o que está por vir

American Horror Story estreou com grande sucesso em 2011. A série possui uma temática geral (histórias de terror) e mesmo elenco central, mas tem cenários e enredos completamente diferentes a cada temporada.

A primeira temporada, Murder House, nos apresentou a um elenco genial vivendo personagens complexos e bem elaborados. Em Asylum, tivemos o prazer de rever alguns dos grandes atores de quem ficamos fãs em papéis fortes, tendo como cenário um asilo para doentes mentais em que os diretores são mais alterados do que os pacientes. A temporada mais recente, Coven, mostrou como as bruxas vivem em nossa sociedade. A próxima temporada estréia nesta Quarta-Feira, dia 8, nos EUA com o tema Freakshow

1ª Temporada: Murder House

Uma família em crise se muda para uma mansão em Los Angeles. A casa é uma barganha porque foi o cenário de um assassinato seguido de suicídio, porém a informação não assusta os Hamilton, que se instalam no que parece o cenário ideal para o recomeço de que eles tanto necessitam. Aos poucos, porém, eles descobrem que a casa abriga uma série de mistérios e possui mais habitantes do que eles imaginam.

O aspecto mais interessante dessa primeira temporada – que segue como importante elemento da série nas temporadas seguintes – é o aspecto humano dado ao sobrenatural. Fantasmas e demônios à parte, os problemas são em grande parte causados por transtornos, angústias e limitações humanas. Todos os personagens são densos e complexos, e apesar dos momentos de terror, são seus dramas pessoais que fisgam o espectador. Destaque para Jessica Lange, que se tornou o ícone de American Horror Story, e Frances Conroy.

2ª Temporada: Asylum

Em Asylum, Jessica Lange é irmã Jude, uma ex-cantora de bar que se torna freira após causar um trágico acidente. Irmã Jude tem como sonho transformar o sanatório Briarcliff em uma instituição de ponta no tratamento de doenças mentais. Seus reais motivos, contudo, são movidos por egoísmo e vaidade. Ela não entende nada de tratamento psiquiátrico, recorrendo mais a castigos físicos do que a qualquer tipo de terapia meramente eficiente em seus pacientes. Quando a jornalista Lana Winters (Sarah Paulson) testemunha as condições desumanas do sanatório e ameaça denunciar a instituição e seus diretores, irmã Jude a prende em Briarcliff.

A visão de um sanatório como um lugar sombrio onde a crueldade para com os pacientes é rotina acaba sendo um pouco clichê. Mas American Horror Story não para nos clichês do preconceito contra doentes mentais, os produtores acharam interessante adicionar demônios, nazistas e até mesmo aliens ao enredo para sacudir um pouco as coisas, o que por vezes passa a sensação de que há coisa demais aonde não cabe. O terror se torna mais físico nessa temporada, e como conseqüência de tudo isso os primeiros seis ou sete episódios são especialmente perturbadores.

American-Horror-Story

Mais uma vez, o elenco se supera. Destaque para Lily Rabe como irmã Mary Eunice, e para Zachary Quinto como Dr. Oliver Thredson.

3ª Temporada: Coven

Em Coven o cenário é uma irmandade de bruxas disfarçada de internato para garotas em New Orleans. As descendentes de Salem, como elas se identificam, estão à beira da extinção. A irmandade está enfraquecida e abandonada, atacada por todos os lados, por caçadores de bruxas, pelas Voodoos (grupo de bruxas rivais), e até mesmo por membros da própria irmandade.

Apesar da aclamação da crítica americana, muitos fãs reclamaram da temporada, considerando-a fraca em comparação a suas predecessoras, e não é difícil entender os motivos. Nenhum personagem parece ter seu potencial totalmente desenvolvido, os assuntos, em especial o racismo, personificado na relação entre Madame LaLaurie (Kathy Bates) e Queenie (Gaubourey Sidibe), não são levados a fundo. Um dos poderes das bruxas é o de reviver os mortos, o que acaba criando um jogo de vivo e morto por vezes cansativo. Os efeitos especiais também ficaram ruins e preguiçosos.

Coven é uma temporada divertida – por vezes mais cômica do que assustadora – e o elenco, como sempre, faz tudo valer a pena. Os problemas de roteiro e produção, contudo, deixam dúvidas quanto a qualidade  da próxima temporada. Considerando que o produtor Ryan Murphy diz já estar preparando a temporada de número cinco, fica óbvio que a confiança dele não se abala por qualquer reclamação dos fãs. Também, com mais de vinte nomeações ao Emmy para dar um apoio moral a confiança de qualquer um fica nas alturas.

4ª Temporada: Freak Show

A quarta temporada estréia em 8 de Outubro nos Estados Unidos, e terá Jessica Lange como uma alemã que coordena um dos últimos shows de horrores do mundo, e Sarah Paulson como gêmeas siamesas. Evan Peters, Kathy Bates, Emma Roberts e Angela Basset também retornarão à série.

Para Freak Show nos resta esperar que os problemas de Coven sejam corrigidos, e que a série continue a nos fornecer mais do que arrepios, mas também as histórias humanas que a fizeram tão cativantes desde a primeira temporada.

A despedida de Boardwalk Empire

Todo o império um dia chega ao fim, e o término do império de Nucky Thompson no calçadão de Atlantic City já está anunciado. Começou no último domingo, 7 de setembro, a quinta e última temporada de Boardwalk Empire. 
No primeiro episódio da temporada já podemos ver o clima sombrio e desesperado da grande depressão que havia sido anunciado pelos produtores. O ano é 1931, e Nucky deixou Atlantic City e os Estados Unidos para passar uma temporada em Havana, enquanto coloca seus planos em ordem e reorganiza seus negócios. Margaret ainda está em Nova Iorque, lidando com uma bolsa de valores quebrada e chefes em estado de total desespero. Chalky White cumpre pena com trabalho forçado, descobrindo que prisão e escravatura tem muito em comum. 
O episódio é construído sob o paralelo entre a infância pobre de Nucky e suas tentativas para conseguir alguns trocados no calçadão de Atlantic City, e Nucky adulto, em uma Havana à beira da revolução, tentando se reerguer por meio de sua influência política e riqueza. Nunca antes a série havia explorado tão a fundo o passado de um personagem. Já sabíamos que Nucky nascera pobre, e que seu pai fora um beberrão bruto; também já era conhecida a relação entre Thompson e o Comodoro. Testemunhar como essa relação se formou, contudo, traz uma nova perspectiva sobre os personagens. 
A animação e o otimismo da era do Jazz deu lugar à suspeita, à incerteza e à instabilidade. Até mesmo as festas cubanas embaladas por rum e salsa não parecem tão animadas quanto às noitadas no Babette’s. Mesmo inundada em luz solar amarelada e quente, Havana tem suas cores esmaecidas e apagadas, porém, apagadas mesmo são as memórias da infância de Nucky. Margaret e Chalky parecem viver em uma noite sem fim em suas respectivas realidades em Wall Street e na prisão. Lucky Luciano continua em sua jornada de ascendência ao poder dentro da Máfia Italiana, e a Cosa Nostra está mais sombria do que nunca. 
O episódio funciona bem para estabelecer o clima da temporada e localizar alguns dos principais personagens. O episódio concentrado em apenas quatro esferas de ação (Nucky, Margaret, Chalky e Luciano), deixa em aberto os destinos de Eli, Van Alden, Arnold Rothstein, Al Capone, entre outros. Fica a curiosidade para os próximos episódios. 

Mais Martin Scorsese na HBO

Ao dirigir o piloto de Boardwalk Empire o produtor Martin Scorsese definiu o estilo e o clima da série. Agora, sua próxima parceria com a HBO será uma série ambientada Ashecliffe, o hospital para doentes mentais do filme Shutter Island (A Ilha do Medo). O projeto ainda está em estágio inicial de desenvolvimento, e deve contar histórias que se passam antes da chegada do personagem de Leonardo DiCaprio à ilha, sendo que Scorsese deve dirigir novamente o episódio piloto. 

The Lego Movie

Finalmente consegui assistir a The Lego Movie, que chegou ao Brasil como Uma Aventura Lego. Após conquistar diversas criticas positivas e a marca de 96% de aprovação entre os críticos do Rotten Tomatoes, não há como negar que minha curiosidade e expectativas estavam grandes. Eu recentemente tenho descoberto, contudo, que meu tomatômetro nem sempre bate com o do site. Achei o filme divertido, ri, mas não sei se consigo considerá-lo bom, ou apenas um acumulado de bobagens surreais com algumas boas piadas. Um South Park aguado para todas as idades.
O herói do filme é Emmet, um operário de construção cujo sonho é se enturmar e ter muitos amigos, mas apesar de seguir à risca todos os guias de comportamento disponíveis, ele continua solitário. Quando Emmet fica para trás após um longo dia de trabalho, ele conhece Megaestilo, uma garota despojada que vive fora das regras e convenções da sociedade Lego.  Megaestilo busca a peça da resistência, que acaba sendo encontrada por Emmet. Assim, ele se torna O Especial, aquele destinado a salvar o mundo dos planos malignos do Presidente Negócios. 
Presidente Negócios quer que os múltiplos mundos aos quais controla sejam organizados e estáticos. Os legos do velho oeste não podem se misturar com os legos da cidade, ou com os legos do mar de piratas, e por aí em diante. Para ele, tudo o que é montado de acordo com a criatividade, e não de acordo com o manual, está errado. Emmet deve se unir aos Mestres Construtores para evitar que os mundos sejam congelados pelo maligno presidente.

Lego reflete nas telas o que o brinquedo é na realidade: uma explosão de cores primárias e vários bonequinhos de rosto amarelo e olhar simpático (a maioria). É inegável a diversão de ver todos aqueles queridos elementos de lego ganhando vida: as peças que representam fogo, a água, entre outros. 
A lição do filme, ou a “moral da história”, é muito bonitinha e excelente para o público infantil. Para os adultos, a diversão fica por conta do “bipolar” Guarda Mau (Good Cop/ Bad Cop), cuja cabeça gira e incorpora as duas faces da clássica dupla dos seriados e filmes policiais americanos. A vida de Emmet no início do filme também pode servir de tapa na cara de muita gente, já que a maior crítica que o filme faz é à conformidade e à padronização dos indivíduos.

Gostando ou não, rindo com o filme ou não, é inegável que após assisti-lo a vontade de voltar a brincar com os tijolinhos coloridos e com os bonequinhos de rosto amarelo fica quase irresistível. 

Quatro anos (ou quase) de Exercine

Não gosto de deixar o aniversário do blog passar em branco, apesar de ter deixado o ano passado inteiro passar em branco. Acho que escrever é um exercício para o qual eu nem sempre tenho inclinação ou aptidão. Foi bom ter voltado, apesar de ainda estar voltando aos poucos, pulando meses e deixando mais espaços em branco do que preenchidos. Seja como for, parabéns para o Exercine e parabéns para mim que, mesmo com todas as falhas, estou orgulhosa por finalmente poder dizer que mantenho um blog. Nenhuma das minhas outras tentativas durou tanto, e essa está longe do fim. 

Clássicos do Cinema – A Marca da Maldade

Orson Welles teve uma passagem conturbada por Hollywood. O controle dos estúdios sobre as produções podava sua criatividade, e muitas de suas inovações eram vistas como estranhas ou desnecessárias pelos executivos. Cidadão Kane (1941) foi o único filme em que o diretor gozou de liberdade criativa plena. 
Após completar A Marca da Maldade (Touch of Evil), em 1958, Welles viu sua obra mutilada pelo estúdio, que gravou cenas extras e reeditou o filme, gerando algo completamente diferente do que o diretor pretendia. Em resposta, Welles escreveu um manifesto de mais de cinquenta páginas, descrevendo todas as mudanças que deveriam ser feitas para que o filme voltasse a se encaixar em sua visão. No entanto, a versão do estúdio, que buscava ser a mais comercial possível, prevaleceu. Orson Welles foi atendido apenas quarenta anos depois, quando uma versão restaurada do filme foi feita com base em seu manifesto.

Enredo e temática

A Marca da Maldade se passa na fronteira entre México e Estados Unidos, onde duas cidades fronteiriças se mostram mais semelhantes do que se poderia imaginar. Quando uma bomba plantada em um carro em solo mexicano cruza a fronteira e explode em território estadunidense, vitimando um influente homem de negócios e sua amante, a polícia dos dois países se vê envolvida em uma investigação complicada não apenas por questões de jurisdição, mas pelos métodos e egos dos principais detetives envolvidos, Quinlan (Orson Welles), do lado americano, e Vargas (Charlton Heston), do mexicano.

Os dois detetives são famosos e respeitados em seus respectivos países. Quinlan é reconhecido por ter colocado muitos criminosos no corredor da morte, e por ter “palpites” que frequentemente o colocam na direção dos culpados. Vargas é um policial mais jovem, mas já com um impressionante histórico na divisão de narcóticos da polícia mexicana. Enquanto Quinlan é carrancudo e de aparência quase grotesca (distorcido pela maquiagem pesada de Orson Welles e pelo ângulo contra-plongée em que o personagem foi filmado), Vargas é carismático e atraente. Quinlan age acima da lei, plantando evidências e enquadrando aqueles que considera culpados antes mesmo de ter provas concretas, já Vargas age como um verdadeiro o paladino da justiça e não poderia ser mais diligente em sua busca pela verdade.

Charlton Heston como Vargas, e Orson Welles como Quinlan em A Marca da Maldade 

As atitudes e aparências dos dois não poderiam ser mais distintas, mas no fundo, ambos são mais parecidos do que gostariam de admitir. Quinlan pode agir de forma ilícita e imoral, mas o faz por perseguir uma boa causa: prender criminosos que, pelo menos em sua percepção, são culpados. Marcado profundamente pela perda de sua mulher – o único homicídio que não conseguiu resolver – e por sua luta contra o alcoolismo, Quinlan é um personagem que sufoca suas fraquezas com brutalidade e autoritarismo. Vargas, por outro lado, se deixa envolver com sua investigação ao ponto de negligenciar sua própria esposa, expondo-a ao tormento de bandidos.

Quando Vargas descobre que Quinlan planta evidências para sustentar seus famosos “palpites” e incriminar quem considera culpado, ele inicia uma busca obsessiva para provar que está certo. A partir do momento em que Vargas estabelece a dúvida sobre a integridade de Quinlan, todos os casos resolvidos pelo detetive americano ficam sob suspeita.

A tênue linha entre o certo e o errado, a dúvida justificada e o ego do justiceiro; estes são temas do filme simbolizados, inclusive, pelo ato tantas vezes repetido de cruzar a fronteira.

Cinematografia do suspense – o famoso plano seqüência de abertura

A Marca da Maldade inicia com um elaborado plano seqüência com mais de dois minutos de duração, em que vemos uma bomba sendo armada e posicionada em um carro, e o trajeto do veículo até o momento da explosão. O carro avança e é detido em diversos momentos, por um guarda de transito, por pedestres que atravessam a rua e até mesmo pela passagem de um rebanho de cabras. O casal de protagonistas, Vargas (Charlton Heston) e Susan (Janet Leigh), caminha na mesma rua, ocasionalmente se aproximando ou se afastando do carro com a bomba, alheios ao perigo. A coreografia da cena, aliada ao fato de ser um plano ininterrupto, ao som ambiente e aos diálogos, cria um clima de suspense único.

Abaixo, a cena de acordo com as especificações do diretor.

A versão original do estúdio inclui os créditos de abertura, pouco som ambiente antes do diálogo entre Vargas e os policiais na fronteira, e uma música não-diegética que distrai o espectador da ação, tudo isso contribuindo para praticamente eliminar o clima de suspense da cena. Não foi à toa que Orson Welles ficou tão irritado com a interferência do estúdio em sua criação.

Abaixo, a versão editada pelo estúdio.

A Marca da Maldade possui diversos outros elementos interessantes, como a fotografia, a escolha dos ângulos de câmera e a composição da mise-en-scène. O enredo deixa a dúvida final: estava Quinlan correto em suas acusações? Cada espectador tem suas próprias conclusões. 

Do Cinema para a TV

A relação entre cinema e televisão vem se modificando e se adaptando desde que os meios passaram a coexistir, a partir da segunda metade da década de 1930. A princípio, os estúdios cinematográficos renegaram a televisão, rotulando-a como uma novidade passageira, mas no fundo tinham receio de perder seu espaço no mercado do entretenimento. Quem gostaria de sair para ir ao cinema quando poderia ficar em casa assistindo a programação gratuita na TV? Para combater esse concorrente, os estúdios se recusaram a vender seus filmes para compor as programações dos canais. Com o tempo, a mentalidade mudou, e muitos perceberam que não apenas vender seus filmes, mas também possuir seus próprios canais, poderia ser sua salvação.
O cinema definitivamente não morreu com o advento da televisão, mas sua lucratividade certamente diminuiu. Atualmente, são raros os filmes que saem do vermelho apenas com a projeção cinematográfica; é a vida de um filme após o circuito de cinemas que o salva da bancarrota: DVDs, video on demand (VOD) e exibições na televisão. A programação dos canais televisivos, contudo, tem se tornado mais sofisticada e atraído mais público. O equilíbrio conquistado com a cooperação está mudando gradativamente, com a balança pendendo para a televisão e com o cinema sofrendo sua maior ameaça desde a invenção desta.
Mudança de padrões e de comportamento
Diversos fatores podem ser apontados para explicar a preferência do público pela televisão em detrimento do cinema. Aparelhos cada vez maiores e com melhor qualidade de imagem a um menor preço contribuem, o fato de uma entrada de cinema custar em torno de dez dólares (ou mais, dificilmente menos), também. No Brasil ainda podemos contar com a meia entrada estudantil, entre outros benefícios; nos Estados Unidos, a meia entrada fica a critério do cinema, que pode ofertá-la em apenas um dia da semana, ou definitivamente não tê-la.
Além do custo, o “ritual” de se assistir a algo em casa é diferente de no cinema. Em casa é possível tirar os sapatos, aumentar ou abaixar o volume, conversar ou atender o telefone durante programação. No entanto, o advento que revolucionou a televisão nos últimos anos foi a possibilidade de pausar a programação e recomeçá-la quando conveniente, como permitem alguns provedores de TV a cabo e sistemas como Netflix, Hulu e Amazon. Estes últimos saltaram mais um passo a frente: permitiram ao usuário escolher sua programação a seu bel-prazer, com milhares de filmes e seriados disponíveis sem a necessidade de se deslocar até a locadora ou depender da programação dos canais.
A mudança do formato, porém, não é a única responsável pela mudança do comportamento. O conteúdo dos programas de televisão, em especial os seriados, vem se tornando cada vez melhores e atraindo cada vez mais fãs que, com a possibilidade de assistirem a temporadas seguidas no Netflix, se tornam verdadeiros “viciados”.
O ritmo rápido das séries de TV, que apesar de se arrastarem por anos, temporada após temporada, ainda precisam apresentar em cada episódio um enredo com inicio, meio e fim, e com momentos de virada dramática e clímax, cativa o espectador. Enquanto um filme consiste em aproximadamente duas horas de uma única historia que ao terminar não permite ao espectador continuar seguindo aqueles personagens, a série de TV apresenta em cada episódio uma historia acabada, mas que pertence a um universo maior do que o que cabe em um filme, e que é construído de pedaços coletados aos poucos. A série de TV precisa cativar novamente o espectador e deixa-lo querendo mais a cada episódio, e isso requer um esforço extra que, quando bem-feito, é certamente apreciado.
Aaron Paul e Bryan Cranston em Breaking Bad, série que atingiu 10.3 milhões de espectadores em seu último episódio.
Intercâmbio entre Cinema e TV
Não são apenas os usuários que estão preferindo a televisão, muitos profissionais já renomados no cinema vem diversificando seu trabalho para abranger também a telinha. Entre eles temos Martin Scorsese, que é produtor de Boardwalk Empire, além de ter dirigido um episódio da série; Robert Rodriguez, que adaptou para a TV seu filme From Dusk Till Dawnem formato de série, e já fala também em uma versão seriada de Sin City; e os atores John Malkovich, atuando em Crossbones, Eva Green, em Penny Dreadful, e Halle Berry, em Extant, entre outros. Se antigamente ser um ator de televisão era considerado um trabalho de segunda categoria, esse pensamento com certeza está mudando.
No entanto, em se tratando de diversificar sua área de atuação ninguém bate Steven Spielberg. Adiantado, ele já vem empregando seu nome a produções televisivas há mais de vinte anos, tendo recentemente produzido The Pacific, United States of Tara, Smash, Falling Skies e Under the Dome, entre outros. O mais novo lançamento televisivo com a marca Steven Spielberg de produção é Red Band Society, um drama sobre a vida de adolescentes que vivem em um hospital, com estreia prevista para setembro nos EUA.
 Game of Thrones: o sucesso que trouxe milhares de assinantes à HBO.
Um pouco de matemática financeira ajuda a explicar o crescimento da televisão. Cada episódio de Game of Thrones, por exemplo, custa entre $6 e $10 milhões, o que deixa o custo por temporada na casa dos $100 milhões de dólares, o que é considerado altíssimo em termos de televisão. O orçamento de O Grande Gatsby (2013), de Baz Luhrmann, foi de $105 milhões de dólares, o que para Hollywood é considerado normal. Em se tratando de cinema, porém, ainda é preciso acrescentar os custos com marketing e distribuição, que para um filme desse escopo não ficam por menos de $50 milhões. Sendo assim, para ser lucrativo, O Grande Gatsbyprecisaria arrecadar mais de $150 milhões. O acordo dos estúdios com as cadeias de cinema gira em torno dos 50%, ou seja, metade do arrecadado em bilheteria fica para os cinemas, metade retorna para o estúdio. Para pagar seus custos de produção, portanto, o filme precisaria de uma bilheteria na casa dos $300 milhões. Acabou atingindo $350, o que a grosso modo significa um retorno de $25 milhões para o estúdio, que ainda precisa distribuir esse montante entre seus investidores.
A HBO, por outro lado, precisa conquistar e manter assinantes. Ao investir em uma programação de qualidade, da qual Game of Thrones é o seriado mais assistido, o canal conseguiu atingir a marca de 40 milhões de clientes, que pagam cerca de $10 dólares por mês pelo serviço, gerando um ganho mensal de $400 milhões de dólares. Custos operacionais e de marketing à parte, o fluxo de capital é imenso.
Por fazer parte dos canais chamados “prime cable”, a HBO é mais exceção do que regra, mas acaba servindo para ilustrar a tendência da produção televisiva americana: mais dinheiro investido e mais qualidade de programação. Os canais abertos dos EUA, como a CBS, que produz NCIS e Under the Dome, e a NBC, com Crossbones e Hannibal, estão buscando “qualidade HBO” para poderem competir com a TV a cabo. Amazon e Netflix também tem investido na criação de conteúdo original, priorizando o formato TV perante o formato filme.

Com uma dificuldade cada vez maior dos estúdios em recuperarem o dinheiro investido em filmes, e com as produtoras de televisão mirando em uma qualidade mais cinematográfica (em cenários, figurinos, atuação, iluminação, direção, etc), e recebendo um alto lucro como conseqüência, a industria do cinema se vê mais ameaçada pela televisão do que nunca. 

Comédias – temporadas 2013-2014

Fazer comédia é reconhecidamente difícil. O que é engraçado para uns não necessariamente o é para outros, e quando agradar a um vasto publico é essencial para o sucesso, o desafio aumenta. Justamente por isso que quando uma série nos faz dar aquela gargalhada aberta e genuína, sabemos imediatamente que ela é preciosa. Aqui vai a meu resumo do que foi mais precioso e vale a pena ser acompanhado (e o que vai deixar saudades) entre novatas e veteranas nessa mais recente leva de comédias.
As que surpreenderam
Mom – 1ª temporada
Christy (Anna Faris) é uma mãe solteira que trabalha como garçonete em um restaurante de luxo e luta contra o alcoolismo, frequentando reuniões de grupos de apoio para se manter sóbria. Após ter uma péssima infância graças à sua mãe também ter sido alcoólatra e viciada em drogas, Christy decide mudar sua vida para ser um melhor exemplo a seus filhos, Violet (Sadie Calvano) e Roscoe (Blake Garrett Rosenthal). Essa transformação é dificultada pelo retorno de sua mãe, Bonnie (Allison Janney), que também busca redimir seu passado.
Essa descrição parece se encaixar mais a um drama do que a uma comedia, mas acredite, Mom foi uma das séries que mais gerou risadas nessa temporada 2013/2014. A dinâmica de Anna Faris e Allison Janney é afiada, e o roteiro fornece às duas um material digno de seus talentos. As piadas caem frequentemente no humor negro. Compreensível, afinal, quando se quer rir de assuntos como alcoolismo, câncer e cadeia, piadas leves dificilmente acertam o alvo. Que venha a segunda temporada.
Allison Janney e Anna Faris interpretam mãe e filha em Mom
Brooklyn Nine-Nine – 1ª temporada
Mais uma nova queridinha na minha lista, que estreou já com um Globo de Ouro de melhor comédia e de melhor ator para Andy Samberg, que estrela como o detetive irreverente Jake Peralta. Não sei se a escolha do nome foi intencional, mas Jake é tudo o que a expressão em português “peralta” define. Apesar de gostar de fazer piadas e pegadinhas, Jake é um detetive competente, um dos melhor do distrito de polícia 99, no Brooklyn. Jake tem uma aposta com a colega Amy Santiago (Melissa Fumero) para ver qual deles consegue prender mais bandidos ate o final do ano. Se Amy perder, tera que sair com Jake no que ele promete que será “o pior encontro da vida dela”.
Outros destaques da série são Terry Crews, como o Sargento Terry Jeffords, e Stephanie Beatriz como a assustadora detetive Rosa Diaz.
Andy Samberg e Melissa Fumero como os detetives Peralta e Santiago.
As que mantiveram o pique
The Big Bang Theory – 7ª temporada
Apesar de não ter sido unanimidade entre os críticos em sua primeira temporada, The Big Bang Theory conquistou o coração dos fãs desde o início, se estabelecendo nas temporadas subsequentes não somente como um sucesso de público, mas como uma das melhores séries de comédia dos últimos tempos. Não é surpresa que a sétima temporada tenha mantido o padrão.
The Big Bang Theory tem agradado tanto que a CBS, em um gesto raro dentro do universo televisivo, se adiantou e já garantiu a renovação da série até a décima temporada.
Modern Family – 5ª temporada
Poucas séries são capazes de manter sua alta qualidade com tamanha maestria quanto Modern Family. Em sua quinta temporada, a sitcom teve como destaque o casamento de Cameron (Eric Stonestreet) e Mitchell (Jesse Tyler Ferguson), que pudemos acompanhar desde o estresse dos preparativos até o dramático dia da cerimônia.
The Middle – 5ª temporada
A família Heck passa por grandes mudanças nesse ano em que Axl (Charlie McDermott) se muda para a faculdade. Frankie (Patricia Heaton) precisa se adaptar a ausência do primogênito e ao novo emprego, enquanto Mike (Neil Flynn) continua… bem, Mike.
Essa quinta temporada foi especialmente bem construída. Ate mesmo Sue (Eden Sher), personagem que sempre considerei destratada por produtores e roteiristas, teve mais momentos de crescimento e dignidade do que na maioria das temporadas anteriores. O destaque, contudo, vai para Axl tentando reconquistar na faculdade o lugar de macho alpha que tinha no ensino médio, e para o épico episódio em que a família viaja para a Disney.
As que deixarão saudades
Raising Hope – 4ª temporada
A Fox decidiu cancelar Raising Hope após curtas quatro temporadas. Após a saída do criador Greg Garcia, a serie foi transferida para o horário de sexta-feira à noite, o que na televisão americana é considerado praticamente um suicídio. Enquanto no horário original de terça-feira Raising Hope conseguia manter uma audiência mais do que satisfatória, na sexta-feira à noite os índices despencaram. Isso ajuda a entender o porquê de a série ser cancelada em seu auge. Explica, mas não deixa os fãs menos tristes.
Nessa temporada pudemos acompanhar as loucuras da família Chance em sua forma mais criativa, em especial as situações envolvendo Virginia (Martha Plimpton) e Burt (Garret Dillahunt). Tivemos Burt criando sua própria moeda e descobrindo que ser prefeito de Natesville não é nada fácil, Virginia foi obrigada a se dar bem com sua prima Delilah e conseguiu uma promoção no emprego, e Jimmy e Sabrina re-encenaram o nascimento de Hope. A quarta temporada foi, sob vários aspectos, a melhor da série. Vai deixar saudades.
A família Chance se despede da TV na quarta temporada.

Parks and Recreation – 6ª temporada
Enquanto o final de Raising Hope foi súbito, a NBC decidiu dar a Parks and Recreationmais uma temporada para se despedir dos fãs, ou melhor, para que os fãs possam se despedir da série. Após um período de dúvidas, foi anunciado que a próxima será a sétima e última temporada da sitcomestrelada por Amy Pohler.
A sexta temporada conquistou um raro indice de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, e mostrou, entre outras situações, a gravidez de Ann (Rashida Jones) e a luta de Leslie (Pohler) contra um recall eleitoral com o intuito de tirá-la do cargo de conselheira da cidade. As piadas quanto a absurdidade dos costumes de Pawnee e suas leis atrasadas, a rivalidade com Eagleton, as aventuras empreendedoras de Tom (Aziz Ansari) e a sabedoria máscula de Ron Swanson (Nick Offerman) continuam geniais. E no meio da temporada, com a saída de Rashida Jones e Rob Lowe, Retta e Jim O’Heir ganham mais espaço como Donna e Jerry. Merecido.
O último episódio revela o quão incerta era a renovação de Parks, que só foi decidida após o final da temporada. Com um especial de uma hora digno de series finale, os produtores se precaveram caso a série não fosse ao ar novamente. A pergunta que fica agora é: tendo a sexta temporada terminado com um salto de três anos no tempo e com um tom de encerramento, a partir de que ponto a sétima retomará? Os fãs de Leslie Knope e companhia estão ansiosos para a resposta, mas essa só vira em janeiro, já que a série agora foi escalada para a midseason, com número de episódios ainda não confirmado.  
Parks and Recreation se prepara para a sua sétima e última temporada.