Primeiro mataram meu pai

 

Dirigido por Angelina Jolie e baseado em uma história real, Primeiro Mataram Meu Pai é um retrato ao mesmo tempo íntimo e honesto da experiência de uma sobrevivente do genocídio cambojano da década de 70.

Loung Ung (Sareum Srey Moch) vive com os pais e os seis irmãos em Phnom Penh, capital do Camboja, quando a cidade é invadida e evacuada pelos soldados do Khmer Rouge, o partido comunista do Camboja, em 1974. Sua família junta seus pertences mais essenciais e se amontoa em uma caminhonete, tomando o mesmo rumo de outros milhares de pessoas: o interior rural do país. Na jornada, a família precisa esconder a real profissão do pai, um capitão do exército do general Lon Nol, deposto pelo Khmer Rouge, e seus bens são quase todos confiscados pelos soldados revolucionários. Isso, contudo, é só o começo das dificuldades que aguardam os Ung.

Estética

A câmera nunca se afasta de Loung por muito tempo, e quando o faz a intenção é quase sempre mostrar a dimensão dos eventos ao redor da menina, como o mar de pessoas evacuando Phnom Penh, os trabalhadores no acampamento e a batalha final contra o exército vietnamita. Com essa proximidade à pequena Loung, toda a informação é passada ao espectador sob o filtro de seu olhar infantil, recebida em pequenos fragmentos, como as crianças percebem o mundo adulto à sua volta. No início do filme, uma montagem com imagens da guerra do Vietnã, fragmentos de noticiários e discursos da época dão ao espectador o contexto dos acontecimentos, assim como o diálogo entre o pai de Loung e um colega sobre o avanço das tropas do Khmer Rouge. Após a evacuação de Phnom Penh, o filme continua com diálogos esparsos, sendo esse espaço preenchido por slogans do Khmer Rouger, que ecoam de autofalantes com uma agressividade metálica, ou são incansavelmente gritados pelos soldados.

A narrativa se concentra nas experiências da protagonista. Não se fala em Pol Pot, em Estados Unidos ou em política. O que se vê são as dificuldades e os perigos enfrentados por uma criança colocada em uma situação na qual nenhuma pessoa merece ser colocada. O silêncio de Loung e seu olhar atento às tragédias à sua volta gera um suspense incômodo no espectador, que passa o filme inteiro se perguntando se a menina vai mesmo passar a acreditar nos slogans de ódio que é ensinada a repetir, e se a violência que a cerca e as injustiças que sofre a tornarão violenta e vingativa.

A fotografia suave e o uso de lens flare remetem à inocência infantil da protagonista, que é capaz de encontrar beleza na natureza e na vida mesmo em situações extremas. A medida em que o filme progride, porém, o contraste entre a natureza idílica e as condições precárias em que Loung e sua família são obrigados a viver se transforma em uma reafirmação do estado de injustiça e precariedade da vida.

 

primeiro-mataram-meu-pai

 

            O que foi o Khmer Rouge – o extermínio de quase 25% da população Cambojana

Por não entrar em detalhes políticos e históricos que vão além da experiência direta da protagonista, Primeiro Mataram Meu Pai oferece um convite a pesquisar a história do Khmer Rouge, e não é possível realizar essa pesquisa sem se deparar com a palavra extermínio. Historiadores relatam que entre 1 e 2 milhões de pessoas (ou até 3 milhões, segundo algumas fontes) morreram entre 1975 e 1979, período em que o partido esteve no poder. Na época, a nação do Camboja girava em torno de 8 milhões de pessoas, o que significa que cerca de um quarto da população pereceu devido, principalmente, a execuções em massa e a desnutrição, no que ficou conhecido como o genocídio cambojano.

O Khmer Rouge, liderado por Pol Pot, tinha como objetivo transformar o Camboja em uma utopia agrária. Para isso, as cidades foram esvaziadas e a população levada ao campo, onde fazendas coletivas foram criadas. Pessoas com qualquer nível de educação superior, como médicos, advogados, engenheiros, e qualquer um que pudesse ser considerado intelectual ou membro da elite capitalista, foram executados. No expurgo realizado pelos revolucionários, famílias inteiras foram executadas para evitar que as crianças, quando crescessem, viessem a vingar as mortes dos pais.

O Khmer Rouge rejeitava tanto aquilo que viam como estilo de vida ocidental que até mesmo remédios vindos do ocidente e óculos de grau foram banidos. As fazendas coletivas logo se transformaram em campos de trabalho forçado aonde fome, doenças e mortes por exaustão eram problemas recorrentes.

O cenário da Guerra Fria não ajudou a população cambojana. Em guerra com o Vietnã, os Estados Unidos cruzaram a fronteira do país com o Camboja, uma nação neutra no conflito, por vezes bombardeando áreas cambojanas e matando civis. Isso contribuiu para o sentimento anti-ocidental de grande parte da população, que acabou vendo no Khmer Rouge e sua promessa de um novo Camboja uma terceira alternativa mais atrativa do que a dicotomia de Vietnamitas e Americanos.

O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, mas o partido continuou ativo até 1999. Devido ao extermínio de uma parcela tão grande da população, à muitos dos sobreviventes terem adquirido estresse pós-traumático, e à falta de profissionais qualificados – executados pelos revolucionários -, o Camboja sofre até hoje as consequências sociais e econômicas dessa época tão sombria de sua história.

Paralelo com 1984

Primeiro mataram meu pai é uma narrativa real, mas o paralelo com 1984 é evidente, e mais uma vez a precisão com a qual a obra fictícia de George Orwell se encaixa com a realidade é assustadora.

Publicado em 1949, 1984 descreve uma sociedade em que a individualidade é abolida. Todos se vestem igual e chamam-se uns aos outros de “camaradas”. O Partido comanda a sociedade por meio do controle do pensamento, tanto que pensar por conta próprio é uma ofensa denominada crimeideia. Uma das estratégias do Partido para o domínio de mentes e emoções são os Dois Minutos de Ódio, que consistem em reunir a população em sessões mandatórias de xingamentos e demonstrações de ódio ao inimigo oficial do Partido, Goldstein. O Partido é também vigilante, utilizando-se não apenas de câmeras e microfones, mas também do monitoramento de um cidadão sobre o outro. Denuncias a crimes contra o Partido são encorajadas e premiadas, e pessoas são presas com base no simples testemunho de um vizinho, sem investigações ou apresentação de provas.

No Camboja de Pol Pot todos eram obrigados a tingirem suas roupas de preto e a usarem o mesmo lenço vermelho. A individualidade é abolida e todos se tornam “camaradas”, sendo incentivados a “desenvolverem um pensamento revolucionário”. Como o filme retrata, tanto nos campos de trabalho forçado quanto – se não principalmente – nos campos de treinamento de soldados, a população é reunida e incentivada a gritar slogans de ódio aos vietnamitas. Denúncias a crimes contra Angkar (o Governo) são incentivadas, e a máxima: “é melhor errar e matar um inocente do que deixar um inimigo vivo” ecoa dos autofalantes nos campos de trabalho.

O regime de Pol Pot não foi o primeiro nem o último autodeclarado comunista a tentar reestruturar o pensamento da população à força. Em Primeiro mataram meu pai vemos os soldados do Khmer Rouge – muitos deles jovens mal saídos da infância – proclamando seu fervor revolucionário, intolerantes a qualquer desvio à doutrina do Partido e muitas vezes imunes ao sofrimento do próximo.

Em um ano em que se comemora os cem anos da Revolução Comunista na Rússia, é irresponsável deixar passar a oportunidade de se reavaliar a doutrina que serviu de base para um regime como o de Pol Pot no Camboja.

Advertisements

Histórias de Amor

 

Escrito, dirigido e estrelado por Josh Radnor, Histórias de Amor (Liberal Arts), 2012, traz o ator de How I Met Your Mother em um papel não muito diferente de Ted Mosby, mas com menos risadas e mais reflexão filosófica.

Enredo

Jesse (Josh Radnor) é um funcionário administrativo de uma universidade em Nova Iorque. Entre um emprego entediante e uma vida pessoal solitária e sem emoção, Jesse é mais um homem perdido na cidade grande. Quando um antigo professor da faculdade o convida para seu jantar de aposentadoria, Jesse decide visitar sua alma mater em Ohio, onde nostalgia não é a única coisa que encontra. Lá ele conhece Zibby (Elizabeth Olsen), uma aluna empolgada com a universidade, mas frustrada com a imaturidade dos garotos da sua idade. Os dois começam uma amizade impulsionada por música clássica e troca de cartas, permeada por uma atração mútua.

Enquanto Radnor parece se esforçar demais para inserir em seu roteiro uma camada filosófica e uma profundidade por vezes forçada, é refrescante ver o filme levantar questões morais que vem sido esquecidas na cultura ultimamente. A mais relevante é a diferença de idade entre os protagonistas. Radnor deixa bem claro em uma cena que literalmente se resume a “se não entendeu, eu desenho”, que Jesse é dezesseis anos mais velho que Zibby. Ele calcula, escrevendo em um caderno, quantos anos ela tinha quando ele tinha 19, e quantos anos ela terá quando ele chegar aos cinquenta. É quando Jesse chega à oposição entre os 71 anos dela com os 87 dele que a diferença finalmente parece, se não irrelevante, ao menos superável, e então a relativização moral entra em cena. De fato, 71 para 87 não parece muito no papel, mas essa projeção do que seria o futuro não muda o fato de que hoje ele tem 35 e ela 19, como Jesse logo se dá conta.

Se o relacionamento dos dois parecia perfeito enquanto se resumia à troca de correspondências, pessoalmente a química não é a mesma. Entre discussões sobre romances com vampiros e sobre os méritos de ler uma obra por prazer ou por sua qualidade, os dois descobrem que se conectam melhor a centenas de quilômetros de distância do que sentados frente à frente.

Paralelo ao relacionamento com Zibby, Jesse encontra sua ex-professora favorita, Judith (Allison Janney), e com ela os papéis se invertem. Agora é Judith que é pelo menos 15 anos mais velha do que Jesse, e ao contrário dele, ela é mais do que capaz de ignorar a diferença. Afinal, na matemática de Jesse, não era dos 35 para os 50 que a diferença começava a não parecer mais tão assustadora?

Fora do epicentro dos relacionamentos de Jesse com essas duas mulheres tão distintas, os outros elementos do roteiro – o ex-professor aprendendo a lidar com a aposentadoria e o estudante depressivo -, ficam soltos, e em certos momentos, sem sentido.

Direção e performances

Por trás das câmeras, Josh Radnor se mostra um diretor competente, apesar de não excepcional. Em muitas cenas fica claro aonde o filme quer chegar, mas o que se vê na tela não corresponde à intenção. Ainda assim, ele acerta no tom do filme, deixando-o leve sem cair na tentação de se levar à sério demais.

Entre o elenco, Elizabeth Olsen é uma das grandes promessas de sua geração. Histórias de Amor foi um dos primeiros filmes em que atuou, mas já é possível ver sua capacidade de trazer sutileza e delicadeza a um personagem. Allison Janney, que interpreta a cínica professora Judith, é sempre genial, e vê-la em qualquer papel, mesmo que pequeno, é um mais do que bem-vindo bônus. Quanto à Josh Radnor, é difícil desassociá-lo à figura de Ted Mosby, mas também não se pode negar que o ator tem o perfil certo para encarnar personagens sonhadores e românticos.

liberal arts

Elizabeth Olsen e Josh Radnor em Histórias de Amor

No fim das contas, Histórias de Amor é um filme que vale a pena para quem está buscando algo leve, mas fora do comum sem ser alternativo demais.

American Horror Story: o que passou e o que está por vir

American Horror Story: o que passou e o que está por vir

American Horror Story estreou com grande sucesso em 2011. A série possui uma temática geral (histórias de terror) e mesmo elenco central, mas tem cenários e enredos completamente diferentes a cada temporada.

A primeira temporada, Murder House, nos apresentou a um elenco genial vivendo personagens complexos e bem elaborados. Em Asylum, tivemos o prazer de rever alguns dos grandes atores de quem ficamos fãs em papéis fortes, tendo como cenário um asilo para doentes mentais em que os diretores são mais alterados do que os pacientes. A temporada mais recente, Coven, mostrou como as bruxas vivem em nossa sociedade. A próxima temporada estréia nesta Quarta-Feira, dia 8, nos EUA com o tema Freakshow

1ª Temporada: Murder House

Uma família em crise se muda para uma mansão em Los Angeles. A casa é uma barganha porque foi o cenário de um assassinato seguido de suicídio, porém a informação não assusta os Hamilton, que se instalam no que parece o cenário ideal para o recomeço de que eles tanto necessitam. Aos poucos, porém, eles descobrem que a casa abriga uma série de mistérios e possui mais habitantes do que eles imaginam.

O aspecto mais interessante dessa primeira temporada – que segue como importante elemento da série nas temporadas seguintes – é o aspecto humano dado ao sobrenatural. Fantasmas e demônios à parte, os problemas são em grande parte causados por transtornos, angústias e limitações humanas. Todos os personagens são densos e complexos, e apesar dos momentos de terror, são seus dramas pessoais que fisgam o espectador. Destaque para Jessica Lange, que se tornou o ícone de American Horror Story, e Frances Conroy.

2ª Temporada: Asylum

Em Asylum, Jessica Lange é irmã Jude, uma ex-cantora de bar que se torna freira após causar um trágico acidente. Irmã Jude tem como sonho transformar o sanatório Briarcliff em uma instituição de ponta no tratamento de doenças mentais. Seus reais motivos, contudo, são movidos por egoísmo e vaidade. Ela não entende nada de tratamento psiquiátrico, recorrendo mais a castigos físicos do que a qualquer tipo de terapia meramente eficiente em seus pacientes. Quando a jornalista Lana Winters (Sarah Paulson) testemunha as condições desumanas do sanatório e ameaça denunciar a instituição e seus diretores, irmã Jude a prende em Briarcliff.

A visão de um sanatório como um lugar sombrio onde a crueldade para com os pacientes é rotina acaba sendo um pouco clichê. Mas American Horror Story não para nos clichês do preconceito contra doentes mentais, os produtores acharam interessante adicionar demônios, nazistas e até mesmo aliens ao enredo para sacudir um pouco as coisas, o que por vezes passa a sensação de que há coisa demais aonde não cabe. O terror se torna mais físico nessa temporada, e como conseqüência de tudo isso os primeiros seis ou sete episódios são especialmente perturbadores.

American-Horror-Story

Mais uma vez, o elenco se supera. Destaque para Lily Rabe como irmã Mary Eunice, e para Zachary Quinto como Dr. Oliver Thredson.

3ª Temporada: Coven

Em Coven o cenário é uma irmandade de bruxas disfarçada de internato para garotas em New Orleans. As descendentes de Salem, como elas se identificam, estão à beira da extinção. A irmandade está enfraquecida e abandonada, atacada por todos os lados, por caçadores de bruxas, pelas Voodoos (grupo de bruxas rivais), e até mesmo por membros da própria irmandade.

Apesar da aclamação da crítica americana, muitos fãs reclamaram da temporada, considerando-a fraca em comparação a suas predecessoras, e não é difícil entender os motivos. Nenhum personagem parece ter seu potencial totalmente desenvolvido, os assuntos, em especial o racismo, personificado na relação entre Madame LaLaurie (Kathy Bates) e Queenie (Gaubourey Sidibe), não são levados a fundo. Um dos poderes das bruxas é o de reviver os mortos, o que acaba criando um jogo de vivo e morto por vezes cansativo. Os efeitos especiais também ficaram ruins e preguiçosos.

Coven é uma temporada divertida – por vezes mais cômica do que assustadora – e o elenco, como sempre, faz tudo valer a pena. Os problemas de roteiro e produção, contudo, deixam dúvidas quanto a qualidade  da próxima temporada. Considerando que o produtor Ryan Murphy diz já estar preparando a temporada de número cinco, fica óbvio que a confiança dele não se abala por qualquer reclamação dos fãs. Também, com mais de vinte nomeações ao Emmy para dar um apoio moral a confiança de qualquer um fica nas alturas.

4ª Temporada: Freak Show

A quarta temporada estréia em 8 de Outubro nos Estados Unidos, e terá Jessica Lange como uma alemã que coordena um dos últimos shows de horrores do mundo, e Sarah Paulson como gêmeas siamesas. Evan Peters, Kathy Bates, Emma Roberts e Angela Basset também retornarão à série.

Para Freak Show nos resta esperar que os problemas de Coven sejam corrigidos, e que a série continue a nos fornecer mais do que arrepios, mas também as histórias humanas que a fizeram tão cativantes desde a primeira temporada.

A despedida de Boardwalk Empire

Todo o império um dia chega ao fim, e o término do império de Nucky Thompson no calçadão de Atlantic City já está anunciado. Começou no último domingo, 7 de setembro, a quinta e última temporada de Boardwalk Empire. 
No primeiro episódio da temporada já podemos ver o clima sombrio e desesperado da grande depressão que havia sido anunciado pelos produtores. O ano é 1931, e Nucky deixou Atlantic City e os Estados Unidos para passar uma temporada em Havana, enquanto coloca seus planos em ordem e reorganiza seus negócios. Margaret ainda está em Nova Iorque, lidando com uma bolsa de valores quebrada e chefes em estado de total desespero. Chalky White cumpre pena com trabalho forçado, descobrindo que prisão e escravatura tem muito em comum. 
O episódio é construído sob o paralelo entre a infância pobre de Nucky e suas tentativas para conseguir alguns trocados no calçadão de Atlantic City, e Nucky adulto, em uma Havana à beira da revolução, tentando se reerguer por meio de sua influência política e riqueza. Nunca antes a série havia explorado tão a fundo o passado de um personagem. Já sabíamos que Nucky nascera pobre, e que seu pai fora um beberrão bruto; também já era conhecida a relação entre Thompson e o Comodoro. Testemunhar como essa relação se formou, contudo, traz uma nova perspectiva sobre os personagens. 
A animação e o otimismo da era do Jazz deu lugar à suspeita, à incerteza e à instabilidade. Até mesmo as festas cubanas embaladas por rum e salsa não parecem tão animadas quanto às noitadas no Babette’s. Mesmo inundada em luz solar amarelada e quente, Havana tem suas cores esmaecidas e apagadas, porém, apagadas mesmo são as memórias da infância de Nucky. Margaret e Chalky parecem viver em uma noite sem fim em suas respectivas realidades em Wall Street e na prisão. Lucky Luciano continua em sua jornada de ascendência ao poder dentro da Máfia Italiana, e a Cosa Nostra está mais sombria do que nunca. 
O episódio funciona bem para estabelecer o clima da temporada e localizar alguns dos principais personagens. O episódio concentrado em apenas quatro esferas de ação (Nucky, Margaret, Chalky e Luciano), deixa em aberto os destinos de Eli, Van Alden, Arnold Rothstein, Al Capone, entre outros. Fica a curiosidade para os próximos episódios. 

Mais Martin Scorsese na HBO

Ao dirigir o piloto de Boardwalk Empire o produtor Martin Scorsese definiu o estilo e o clima da série. Agora, sua próxima parceria com a HBO será uma série ambientada Ashecliffe, o hospital para doentes mentais do filme Shutter Island (A Ilha do Medo). O projeto ainda está em estágio inicial de desenvolvimento, e deve contar histórias que se passam antes da chegada do personagem de Leonardo DiCaprio à ilha, sendo que Scorsese deve dirigir novamente o episódio piloto. 

The Lego Movie

Finalmente consegui assistir a The Lego Movie, que chegou ao Brasil como Uma Aventura Lego. Após conquistar diversas criticas positivas e a marca de 96% de aprovação entre os críticos do Rotten Tomatoes, não há como negar que minha curiosidade e expectativas estavam grandes. Eu recentemente tenho descoberto, contudo, que meu tomatômetro nem sempre bate com o do site. Achei o filme divertido, ri, mas não sei se consigo considerá-lo bom, ou apenas um acumulado de bobagens surreais com algumas boas piadas. Um South Park aguado para todas as idades.
O herói do filme é Emmet, um operário de construção cujo sonho é se enturmar e ter muitos amigos, mas apesar de seguir à risca todos os guias de comportamento disponíveis, ele continua solitário. Quando Emmet fica para trás após um longo dia de trabalho, ele conhece Megaestilo, uma garota despojada que vive fora das regras e convenções da sociedade Lego.  Megaestilo busca a peça da resistência, que acaba sendo encontrada por Emmet. Assim, ele se torna O Especial, aquele destinado a salvar o mundo dos planos malignos do Presidente Negócios. 
Presidente Negócios quer que os múltiplos mundos aos quais controla sejam organizados e estáticos. Os legos do velho oeste não podem se misturar com os legos da cidade, ou com os legos do mar de piratas, e por aí em diante. Para ele, tudo o que é montado de acordo com a criatividade, e não de acordo com o manual, está errado. Emmet deve se unir aos Mestres Construtores para evitar que os mundos sejam congelados pelo maligno presidente.

Lego reflete nas telas o que o brinquedo é na realidade: uma explosão de cores primárias e vários bonequinhos de rosto amarelo e olhar simpático (a maioria). É inegável a diversão de ver todos aqueles queridos elementos de lego ganhando vida: as peças que representam fogo, a água, entre outros. 
A lição do filme, ou a “moral da história”, é muito bonitinha e excelente para o público infantil. Para os adultos, a diversão fica por conta do “bipolar” Guarda Mau (Good Cop/ Bad Cop), cuja cabeça gira e incorpora as duas faces da clássica dupla dos seriados e filmes policiais americanos. A vida de Emmet no início do filme também pode servir de tapa na cara de muita gente, já que a maior crítica que o filme faz é à conformidade e à padronização dos indivíduos.

Gostando ou não, rindo com o filme ou não, é inegável que após assisti-lo a vontade de voltar a brincar com os tijolinhos coloridos e com os bonequinhos de rosto amarelo fica quase irresistível. 

Quatro anos (ou quase) de Exercine

Não gosto de deixar o aniversário do blog passar em branco, apesar de ter deixado o ano passado inteiro passar em branco. Acho que escrever é um exercício para o qual eu nem sempre tenho inclinação ou aptidão. Foi bom ter voltado, apesar de ainda estar voltando aos poucos, pulando meses e deixando mais espaços em branco do que preenchidos. Seja como for, parabéns para o Exercine e parabéns para mim que, mesmo com todas as falhas, estou orgulhosa por finalmente poder dizer que mantenho um blog. Nenhuma das minhas outras tentativas durou tanto, e essa está longe do fim. 

Clássicos do Cinema – A Marca da Maldade

Orson Welles teve uma passagem conturbada por Hollywood. O controle dos estúdios sobre as produções podava sua criatividade, e muitas de suas inovações eram vistas como estranhas ou desnecessárias pelos executivos. Cidadão Kane (1941) foi o único filme em que o diretor gozou de liberdade criativa plena. 
Após completar A Marca da Maldade (Touch of Evil), em 1958, Welles viu sua obra mutilada pelo estúdio, que gravou cenas extras e reeditou o filme, gerando algo completamente diferente do que o diretor pretendia. Em resposta, Welles escreveu um manifesto de mais de cinquenta páginas, descrevendo todas as mudanças que deveriam ser feitas para que o filme voltasse a se encaixar em sua visão. No entanto, a versão do estúdio, que buscava ser a mais comercial possível, prevaleceu. Orson Welles foi atendido apenas quarenta anos depois, quando uma versão restaurada do filme foi feita com base em seu manifesto.

Enredo e temática

A Marca da Maldade se passa na fronteira entre México e Estados Unidos, onde duas cidades fronteiriças se mostram mais semelhantes do que se poderia imaginar. Quando uma bomba plantada em um carro em solo mexicano cruza a fronteira e explode em território estadunidense, vitimando um influente homem de negócios e sua amante, a polícia dos dois países se vê envolvida em uma investigação complicada não apenas por questões de jurisdição, mas pelos métodos e egos dos principais detetives envolvidos, Quinlan (Orson Welles), do lado americano, e Vargas (Charlton Heston), do mexicano.

Os dois detetives são famosos e respeitados em seus respectivos países. Quinlan é reconhecido por ter colocado muitos criminosos no corredor da morte, e por ter “palpites” que frequentemente o colocam na direção dos culpados. Vargas é um policial mais jovem, mas já com um impressionante histórico na divisão de narcóticos da polícia mexicana. Enquanto Quinlan é carrancudo e de aparência quase grotesca (distorcido pela maquiagem pesada de Orson Welles e pelo ângulo contra-plongée em que o personagem foi filmado), Vargas é carismático e atraente. Quinlan age acima da lei, plantando evidências e enquadrando aqueles que considera culpados antes mesmo de ter provas concretas, já Vargas age como um verdadeiro o paladino da justiça e não poderia ser mais diligente em sua busca pela verdade.

Charlton Heston como Vargas, e Orson Welles como Quinlan em A Marca da Maldade 

As atitudes e aparências dos dois não poderiam ser mais distintas, mas no fundo, ambos são mais parecidos do que gostariam de admitir. Quinlan pode agir de forma ilícita e imoral, mas o faz por perseguir uma boa causa: prender criminosos que, pelo menos em sua percepção, são culpados. Marcado profundamente pela perda de sua mulher – o único homicídio que não conseguiu resolver – e por sua luta contra o alcoolismo, Quinlan é um personagem que sufoca suas fraquezas com brutalidade e autoritarismo. Vargas, por outro lado, se deixa envolver com sua investigação ao ponto de negligenciar sua própria esposa, expondo-a ao tormento de bandidos.

Quando Vargas descobre que Quinlan planta evidências para sustentar seus famosos “palpites” e incriminar quem considera culpado, ele inicia uma busca obsessiva para provar que está certo. A partir do momento em que Vargas estabelece a dúvida sobre a integridade de Quinlan, todos os casos resolvidos pelo detetive americano ficam sob suspeita.

A tênue linha entre o certo e o errado, a dúvida justificada e o ego do justiceiro; estes são temas do filme simbolizados, inclusive, pelo ato tantas vezes repetido de cruzar a fronteira.

Cinematografia do suspense – o famoso plano seqüência de abertura

A Marca da Maldade inicia com um elaborado plano seqüência com mais de dois minutos de duração, em que vemos uma bomba sendo armada e posicionada em um carro, e o trajeto do veículo até o momento da explosão. O carro avança e é detido em diversos momentos, por um guarda de transito, por pedestres que atravessam a rua e até mesmo pela passagem de um rebanho de cabras. O casal de protagonistas, Vargas (Charlton Heston) e Susan (Janet Leigh), caminha na mesma rua, ocasionalmente se aproximando ou se afastando do carro com a bomba, alheios ao perigo. A coreografia da cena, aliada ao fato de ser um plano ininterrupto, ao som ambiente e aos diálogos, cria um clima de suspense único.

Abaixo, a cena de acordo com as especificações do diretor.

A versão original do estúdio inclui os créditos de abertura, pouco som ambiente antes do diálogo entre Vargas e os policiais na fronteira, e uma música não-diegética que distrai o espectador da ação, tudo isso contribuindo para praticamente eliminar o clima de suspense da cena. Não foi à toa que Orson Welles ficou tão irritado com a interferência do estúdio em sua criação.

Abaixo, a versão editada pelo estúdio.

A Marca da Maldade possui diversos outros elementos interessantes, como a fotografia, a escolha dos ângulos de câmera e a composição da mise-en-scène. O enredo deixa a dúvida final: estava Quinlan correto em suas acusações? Cada espectador tem suas próprias conclusões.