Primeiro mataram meu pai

 

Dirigido por Angelina Jolie e baseado em uma história real, Primeiro Mataram Meu Pai é um retrato ao mesmo tempo íntimo e honesto da experiência de uma sobrevivente do genocídio cambojano da década de 70.

Loung Ung (Sareum Srey Moch) vive com os pais e os seis irmãos em Phnom Penh, capital do Camboja, quando a cidade é invadida e evacuada pelos soldados do Khmer Rouge, o partido comunista do Camboja, em 1974. Sua família junta seus pertences mais essenciais e se amontoa em uma caminhonete, tomando o mesmo rumo de outros milhares de pessoas: o interior rural do país. Na jornada, a família precisa esconder a real profissão do pai, um capitão do exército do general Lon Nol, deposto pelo Khmer Rouge, e seus bens são quase todos confiscados pelos soldados revolucionários. Isso, contudo, é só o começo das dificuldades que aguardam os Ung.

Estética

A câmera nunca se afasta de Loung por muito tempo, e quando o faz a intenção é quase sempre mostrar a dimensão dos eventos ao redor da menina, como o mar de pessoas evacuando Phnom Penh, os trabalhadores no acampamento e a batalha final contra o exército vietnamita. Com essa proximidade à pequena Loung, toda a informação é passada ao espectador sob o filtro de seu olhar infantil, recebida em pequenos fragmentos, como as crianças percebem o mundo adulto à sua volta. No início do filme, uma montagem com imagens da guerra do Vietnã, fragmentos de noticiários e discursos da época dão ao espectador o contexto dos acontecimentos, assim como o diálogo entre o pai de Loung e um colega sobre o avanço das tropas do Khmer Rouge. Após a evacuação de Phnom Penh, o filme continua com diálogos esparsos, sendo esse espaço preenchido por slogans do Khmer Rouger, que ecoam de autofalantes com uma agressividade metálica, ou são incansavelmente gritados pelos soldados.

A narrativa se concentra nas experiências da protagonista. Não se fala em Pol Pot, em Estados Unidos ou em política. O que se vê são as dificuldades e os perigos enfrentados por uma criança colocada em uma situação na qual nenhuma pessoa merece ser colocada. O silêncio de Loung e seu olhar atento às tragédias à sua volta gera um suspense incômodo no espectador, que passa o filme inteiro se perguntando se a menina vai mesmo passar a acreditar nos slogans de ódio que é ensinada a repetir, e se a violência que a cerca e as injustiças que sofre a tornarão violenta e vingativa.

A fotografia suave e o uso de lens flare remetem à inocência infantil da protagonista, que é capaz de encontrar beleza na natureza e na vida mesmo em situações extremas. A medida em que o filme progride, porém, o contraste entre a natureza idílica e as condições precárias em que Loung e sua família são obrigados a viver se transforma em uma reafirmação do estado de injustiça e precariedade da vida.

 

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            O que foi o Khmer Rouge – o extermínio de quase 25% da população Cambojana

Por não entrar em detalhes políticos e históricos que vão além da experiência direta da protagonista, Primeiro Mataram Meu Pai oferece um convite a pesquisar a história do Khmer Rouge, e não é possível realizar essa pesquisa sem se deparar com a palavra extermínio. Historiadores relatam que entre 1 e 2 milhões de pessoas (ou até 3 milhões, segundo algumas fontes) morreram entre 1975 e 1979, período em que o partido esteve no poder. Na época, a nação do Camboja girava em torno de 8 milhões de pessoas, o que significa que cerca de um quarto da população pereceu devido, principalmente, a execuções em massa e a desnutrição, no que ficou conhecido como o genocídio cambojano.

O Khmer Rouge, liderado por Pol Pot, tinha como objetivo transformar o Camboja em uma utopia agrária. Para isso, as cidades foram esvaziadas e a população levada ao campo, onde fazendas coletivas foram criadas. Pessoas com qualquer nível de educação superior, como médicos, advogados, engenheiros, e qualquer um que pudesse ser considerado intelectual ou membro da elite capitalista, foram executados. No expurgo realizado pelos revolucionários, famílias inteiras foram executadas para evitar que as crianças, quando crescessem, viessem a vingar as mortes dos pais.

O Khmer Rouge rejeitava tanto aquilo que viam como estilo de vida ocidental que até mesmo remédios vindos do ocidente e óculos de grau foram banidos. As fazendas coletivas logo se transformaram em campos de trabalho forçado aonde fome, doenças e mortes por exaustão eram problemas recorrentes.

O cenário da Guerra Fria não ajudou a população cambojana. Em guerra com o Vietnã, os Estados Unidos cruzaram a fronteira do país com o Camboja, uma nação neutra no conflito, por vezes bombardeando áreas cambojanas e matando civis. Isso contribuiu para o sentimento anti-ocidental de grande parte da população, que acabou vendo no Khmer Rouge e sua promessa de um novo Camboja uma terceira alternativa mais atrativa do que a dicotomia de Vietnamitas e Americanos.

O Khmer Rouge saiu do poder em 1979, mas o partido continuou ativo até 1999. Devido ao extermínio de uma parcela tão grande da população, à muitos dos sobreviventes terem adquirido estresse pós-traumático, e à falta de profissionais qualificados – executados pelos revolucionários -, o Camboja sofre até hoje as consequências sociais e econômicas dessa época tão sombria de sua história.

Paralelo com 1984

Primeiro mataram meu pai é uma narrativa real, mas o paralelo com 1984 é evidente, e mais uma vez a precisão com a qual a obra fictícia de George Orwell se encaixa com a realidade é assustadora.

Publicado em 1949, 1984 descreve uma sociedade em que a individualidade é abolida. Todos se vestem igual e chamam-se uns aos outros de “camaradas”. O Partido comanda a sociedade por meio do controle do pensamento, tanto que pensar por conta próprio é uma ofensa denominada crimeideia. Uma das estratégias do Partido para o domínio de mentes e emoções são os Dois Minutos de Ódio, que consistem em reunir a população em sessões mandatórias de xingamentos e demonstrações de ódio ao inimigo oficial do Partido, Goldstein. O Partido é também vigilante, utilizando-se não apenas de câmeras e microfones, mas também do monitoramento de um cidadão sobre o outro. Denuncias a crimes contra o Partido são encorajadas e premiadas, e pessoas são presas com base no simples testemunho de um vizinho, sem investigações ou apresentação de provas.

No Camboja de Pol Pot todos eram obrigados a tingirem suas roupas de preto e a usarem o mesmo lenço vermelho. A individualidade é abolida e todos se tornam “camaradas”, sendo incentivados a “desenvolverem um pensamento revolucionário”. Como o filme retrata, tanto nos campos de trabalho forçado quanto – se não principalmente – nos campos de treinamento de soldados, a população é reunida e incentivada a gritar slogans de ódio aos vietnamitas. Denúncias a crimes contra Angkar (o Governo) são incentivadas, e a máxima: “é melhor errar e matar um inocente do que deixar um inimigo vivo” ecoa dos autofalantes nos campos de trabalho.

O regime de Pol Pot não foi o primeiro nem o último autodeclarado comunista a tentar reestruturar o pensamento da população à força. Em Primeiro mataram meu pai vemos os soldados do Khmer Rouge – muitos deles jovens mal saídos da infância – proclamando seu fervor revolucionário, intolerantes a qualquer desvio à doutrina do Partido e muitas vezes imunes ao sofrimento do próximo.

Em um ano em que se comemora os cem anos da Revolução Comunista na Rússia, é irresponsável deixar passar a oportunidade de se reavaliar a doutrina que serviu de base para um regime como o de Pol Pot no Camboja.

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