O que revela a casa de tolerância

ATENÇÃO: esse texto pode conter spoilers. Leia por sua própria conta e risco.
L’Apollonide – os amores da casa de tolerância (L´Apollonide – Souvenirs de la maison close) (2011), do diretor francês Bertrand Bonello, retrata o cotidiano de um bordel parisiense em 1900. A atmosfera claustrofóbica, a rotina repetitiva e a falta de perspectiva das prostitutas, envolvem e causam angústia no espectador. 
A prostituição como negócio legalizado e respeitado
Apollonide é uma casa de tolerância famosa e respeitada, que atraí a clientes ricos e influentes.  A Madame (Noemie Lvovsky) é a dona da casa, responsável por manter a ordem, controlar as finanças, gerenciar as garotas e garantir que seus clientes sejam sempre bem atendidos. Ela, contudo, também garante que as moças estejam sempre em dívida com ela, tornando impossível a saída delas da casa e a perspectiva de uma mudança de vida.
É com a chegada da novata Pauline (Iliana Zabeth), uma jovem de apenas dezesseis anos, que conhecemos as regras do negócio. As moças devem estar sempre limpas e perfumadas, a Madame fornece o sabão, mas não os perfumes. As moças também só podem sair da casa acompanhadas por um homem ou pela Madame, caso contrário, serão acusadas de solicitação, o que, ao contrário da casa de tolerância, não é legalizado.
É interessante notar que Pauline primeiro escreve à Madame pedindo seu ingresso na casa, destacando suas qualidades e elogiando a respeitabilidade do negócio. Quando chega, a garota afirma que traz consigo uma carta de seus pais, que a autorizam a trabalhar no local.
As mulheres como mercadoria
O negócio gerenciado pela Madame pode ser visto como respeitável, mas as garotas que nele trabalham não são elevadas ao mesmo nível de respeito. Ainda que um ou outro cliente se mostre mais romântico, traga presentes e até mesmo fale em casamento, na prática elas são um corpo à venda, um meio de realizar as fantasias e os fetiches mais estranhos, sujeitas ao risco de doenças e a gravidezes indesejadas.
Quando a jovem Pauline justifica sua vontade de ser admitida à Apollonide como um desejo de liberdade, a Madame ri, dizendo-lhe que a casa de tolerância é o oposto da liberdade. De fato, com as regras impostas as garotas, às dividas e as exigências dos clientes, a liberdade realmente lhes falta. A angustiante cena do exame médico, realizado sobre a mesa do refeitório, com todas as garotas presentes na sala, esperando lado a lado em camisolas brancas e meias pretas iguais, assistindo umas às outras, lembra uma inspeção de controle de qualidade de uma fábrica, em que a saúde e o bem-estar das moças não é tão importante quanto a garantia de que estão em boas condições para serem oferecidas aos clientes.
Quando um cliente menciona um estudo, realizado por uma mulher, que afirma que a circunferência da cabeça das prostitutas, assim como a dos criminosos, é menor do que as das demais pessoas, a objetificação das moças beira à sua criminalização e a sua redução a seres, como o estudo afirma, “com cérebros menores e intelectualidade comprometida”. “A prostituta é a versão feminina do criminoso”.
Essa objetificação contrasta com a humanidade e a sensibilidade dignificante que o diretor busca nessas mulheres, mostrando as brincadeiras entre elas durante as refeições, o tédio languido da espera por clientes, a confiança nas juras de amor de alguns, a felicidade jovial e quase infantil no contato com a natureza durante um piquenique ao ar livre em um raro momento de folga.
A mulher que ri
O rosto de Madeleine (Alice Barnole) é o primeiro que vemos em cena. Ela conta a um cliente regular um sonho que teve com ele. Em seguida, o cliente pergunta se pode amarrá-la e ela consente, já que uma das regras da casa é que as mulheres se adaptem para satisfazer às vontades dos homens. O rapaz, então, a ataca com uma faca, cortando suas bochechas ao lado dos lábios e criando nela uma cicatriz que desfigura seu rosto, dando-lhe um permanente sorriso vermelho e tenebroso.
Apesar de traumatizada com o episódio, Madeleine continua a trabalhar na casa, ajudando em tarefas como a lavagem de roupas e a preparação de comida. À noite, porém, seu corpo continua à venda, mas não como o das outras garotas. Com o novo apelido de “a mulher que ri”, Madeleine agora é vendida como uma curiosidade, como uma atração de um circo de aberrações. Ao encontrar problemas financeiros, a Madame oferece Madeleine a um grupo de ricos excêntricos que realiza festas servidas por mulheres nuas. Exibida como a curiosidade que é, a mulher que ri é acariciada, apalpada, inspecionada, enquanto permanece sentada com a expressão impassível em uma cadeira. A transformação de uma vítima de um ataque violento e cruel em uma fonte de renda alternativa é o símbolo máximo da vulnerabilidade de todas as mulheres da casa. As moças, e em até certo grau a Madame, todas tem compaixão por Madeleine, pois, além de gostarem dela como amiga, todas sabem que poderiam ter sido elas as vítimas.
É no final do filme que Madeleine reencontra um pouco de sua dignidade. Aproveitando um baile de máscaras, ela pode novamente estar no mesmo ambiente que os clientes, e volta a ser escolhida por um deles, dessa vez simplesmente por ser uma mulher, e não mais por ser considerada uma aberração curiosa.

A edição e a trilha sonora
Contrastando com a ambientação e a retratação fiel e verossímil de uma época específica: a virada do século IX para o século XX, temos a edição nem sempre linear, muitas vezes apresentando telas divididas e repetindo cenas, e a trilha sonora com músicas modernas. A mistura de lembranças e sonhos com o presente gera uma narrativa que oscila entre a introspecção das personagens, em especial Madeleine, e a rotina sufocante do bordel.
Torna-se impossível não compartilhar da sensação de claustrofobia e impotência daquelas mulheres. L’Apollonide é um filme que retrata com inteligência uma fatia de interação social, sem julgá-la explicitamente, limitando-se a expor uma história ao juízo do espectador, sem deixar de lembrar, ao final, que a profissão mais antiga do mundo – e suas conseqüências, para o bem ou para o bem ou para o mal – ainda é a realidade de muitas mulheres.
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