Novela não é Escola

Eu não assisto à novela alguma. O máximo que já acompanhei foi um pouco de Chocolate com Pimenta, Tititi e Roque Santeiro, que passava no “Vale a pena Ver de novo” quando eu tinha onze anos.  A única novela “das nove” que vi um pouco mais do que meio capítulo foi O Clone. Mas as novelas, principalmente as do horário nobre da Rede Globo, sempre encontram um meio de entrar nas nossas vidas.
Nunca assisti a um capítulo sequer de Avenida Brasil, a novela que está no ar, mas sei que a música de abertura é a versão do Latino para “Dança Kuduro”, sei quem é Carminha, Nina, Suelen e companhia. Praticamente toda a minha timeline do twitter acompanha a novela e acaba repassando o que vê. Vejo comentários no facebook e escuto as pessoas à minha volta. Essa inserção da novela no cotidiano é uma realidade que nós brasileiros vivemos há décadas. A força da novela é tanta que, em plena era da TV a cabo e da internet, Avenida Brasilestá atingindo picos de audiência de 45 pontos na grande São Paulo. 
Discutir as causas de tamanho sucesso, contudo, não é o objetivo deste texto. Meu comentário aqui se relaciona a um tema que vem me perturbando há algum tempo: como a novela virou uma espécie de escola para o povo brasileiro.
Muitas das novelas da Rede Globo, especialmente as de horário nobre, adotam alguma abordagem social, uma bandeira que defendem, como a leucemia de Camila (Carolina Dieckman) em Laços de Família, que foi utilizada para uma campanha de doação de medula óssea, a viciada Mel (Débora Falabela), que foi o exemplo da campanha antidrogas de O Clone, e o caso de Tarso (Bruno Gagliasso) em Caminho das Índias, personagem que ilustrava uma campanha de conscientização sobre a esquizofrenia. Isso só para citar alguns dos casos que ficaram mais marcados. Essas campanhas são um exemplo de serviço de utilidade pública que a novela pode exercer para o bem da sociedade. Esses “personagens-exemplo” muitas vezes ajudam a alertar às pessoas para problemas para os quais muitos viram às costas. Utilizar-se de alguns exemplos para o bem comum, contudo, é diferente de confundir o papel da novela. Novela não serve para educar, serve para entreter.
De novo: nunca assisti Avenida Brasil, mas vi comentários indignados sobre uma cena em que Suelen (Ísis Valverde) seduz o marido Roni (Daniel Rocha), um rapaz que esconde sua homossexualidade. A cena gerou repercussão, principalmente, por implicar que a homossexualidade pode ser curada, ou que a causa da homossexualidade seria a falta de uma boa mulher. É claro que isso é um absurdo. Um homem é homossexual porque é homossexual, ponto. E Suelen fez o que fez porque é uma personagem. Sim, é horrível saber que existem pessoas como Suelen. Ou o que é pior, que existam homens como Suelen, que acreditam que as mulheres homossexuais são assim por falta de um bom homem. Poucas idéias são mais repudiáveis do que esta. Não estou defendendo aqui a atitude, mas a liberdade de mostrá-la na televisão.
Em Avenida Brasil, Suelen faz de tudo para seduzir o homossexual Roni
A novela é uma obra de ficção, que contém um enredo e personagens, e personagens tem defeitos, muito mais do que tem qualidades. É dever do espectador diferenciar as coisas, não se deixar influenciar pelo que vê. Muitos brasileiros são influenciados pelas novelas ao ponto de se deixarem “educar” por elas, mas seria isso culpa da novela, ou da estrutura educacional do país?
O Brasil ainda tem muito que avançar em relação ao respeito aos homossexuais, e a novela poderia ajudar com isso, como já ajudou em outros assuntos. Não é, contudo, dever da novela fazer isso. Se nosso sistema educacional fosse um pouco melhor, as pessoas entenderiam que a novela é uma obra de ficção, como um livro ou filme (e muitas vezes vemos atitudes muito piores do que as de Suelen em livros e filmes), assistiriam ao enredo e saberiam filtrar o que é bom e o que não é.

Observando pela ótica da responsabilidade social que a novela adquiriu por sua influência na vida dos brasileiros, seria de se esperar que seus roteiristas fizessem escolhas mais positivas para seus enredos, mas aí também teríamos que parar com as maldades de Carminha e com a vingança de Nina, e assim a novela talvez se tornasse uma festa de unicórnios em um arco-íris cor-de-rosa. E nenhuma obra de ficção – bem como o mundo – é assim. 

Outro exemplo é a cena que foi ao ar recentemente em Gabriela, em que Jesuíno (José Wilker) mata a esposa e o amante ao flagrá-los juntos. Houve protestos indignados contra a Globo por mostrar uma cena tão contrária aos direitos das mulheres. O que deveria indignar as pessoas é o ato do personagem, não o fato de ele estar na tela da TV.
Em Gabriela, Jesuíno assassina a mulher por encontrá-la com o amante.
No meu Brasil perfeito, todas as pessoas que assistissem a essas cenas se indignariam com a atitude desses personagens e os repudiariam, sabendo que o que vêem é uma obra de ficção, não um exemplo a ser seguido. Isso é um futuro que eu sei que chegará, mas que já deveríamos estar construindo, ao invés de perder tempo acusando autores de ficção disso ou daquilo.
Enquanto continuarmos a assistir – e a aplaudir – a seriados e filmes violentíssimos e politicamente incorretos na TV a cabo, sem, contudo, tolerar a mesma liberdade criativa na TV aberta, seremos eternos hipócritas. Bem como ao continuar a confiar o papel da educação e da formação de opinião – aspectos que devem ser formados por escolas, famílias e livros – quase que exclusivamente às novelas.  Novela não é escola, novela é ficção. E é uma pena que nem todo mundo saiba distinguir isso. 
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