27/05, Dia de encerramento – Holy Motors

Com um filme vibrante e surreal, o diretor Leos Carax inquietou e encantou a Cannes. Mostrando na tela um mundo único, ele levanta discussões sobre a artificialidade da vida. Holy Motors abre com uma imagem de uma platéia de cinema, que de certa forma espelha a platéia real que assiste ao filme e coloca o público na tela.
Após a introdução, vemos o senhor Oscar (Denis Lavant) sair de sua casa ao amanhecer. Vestindo paletó e gravata e munido de uma pasta de couro, ele se despede da esposa e dos filhos. Acompanhado por diversos seguranças, embarca em uma limousine dirigida por sua motorista e secretária Céline (Édith Scob), que lhe informa que os compromissos para aquele dia são poucos. A limousine pára debaixo de um viaduto e dela sai Oscar disfarçado de uma velha mendiga. Após pedir algumas esmolas no centro de Paris, ele volta a seu veículo, retira o disfarce e a maquiagem e se prepara para cumprir o próximo item de sua agenda.
Mendigar na pele de uma velha senhora vestida em trapos é apenas a primeira das muitas esquisitices que Oscar realiza ao longo de seu dia.
O senhor Oscar (Denis Levant) em sua limousine, onde viaja de um  “compromisso” a outro.
Os compromissos de Oscar.

Em seu segundo compromisso, Oscar participa de uma gravação em motion capture. Vestindo uma roupa preta com pontos brancos luminosos, realiza incríveis acrobacias e simula uma relação sexual com uma mulher que também veste uma roupa semelhante. A imagem dos dois é imediatamente processada e utilizada para criar uma segunda imagem de dois monstros draconianos digitais. A idéia do ser humano como matéria prima de algo monstruoso e bizarro é assustadora.
Os compromissos que se seguem não são menos bizarros. Portando unhas falsas amarelas de quase dez centímetros nos pés e nas mãos, usando uma dentadura que lhe confere assustadores dentes estragados e falando somente por grunhidos, ele invade uma sessão de fotos para uma revista de moda e seqüestra a modelo. O fotógrafo quando o vê troca a sua sofisticada câmera digital por uma antiga máquina analógica e redireciona seu foco, da modelo – pela qual delira com suspiros e exclamações de “Beleza! Beleza!” -, para o estranho homem que invade seu set, sempre disparando fotos, mas agora exclamando “Bizarro! Bizarro!”.
 
Definir a função do senhor Oscar não é algo que se pode fazer com menos de uma hora de projeção, se é que pode chegar a ser feito. Seria ele um ator? Se sim, seu nome não podia ser mais apropriado. Oscar, bem como o nome da principal premiação do mundo do cinema, é o nome do meio do diretor do filme. Nascido Alexandre Oscar Dupont, ele adotou Leos Carax como seu nome artístico. Seria o senhor Oscar um alter-ego de Leos Carax, realizando nas ruas a arte que o diretor que ver nas telas do cinema?
O senhor Oscar, contudo, é mais do que um ator. Ele intervém tão fortemente na vida das pessoas ao seu redor que cria uma nova realidade. Em determinado momentos, ele é um agente do caos, em outros, uma pessoa normal seguindo com sua vida. É quando ele encontra outras pessoas com o mesmo tipo de compromissos e funções que o público percebe o quadro geral do filme.
Totalmente disfarçado, o protagonista assume múltiplas identidades.
Um mundo artificial.

Em Holy Motors, tudo é montado, não somente pelo senhor Oscar, mas por outros atores, ou agentes do caos e da vida. Mas tudo é montado para qual platéia? Há espaço para o público nesse mundo povoado por performáticos? Ou o público é apenas o que está do outro lado da tela?
A artificialidade do mundo do filme nos faz pensar sobre a artificialidade do mundo real. Quantas vezes colocamos máscaras e fantasias para nos relacionarmos com pessoas que, por sua vez, também vestem suas próprias máscaras e fantasias?
O interessante de Holy Motors é justamente o fato de que ele traz esses questionamentos sem cair em discursos piegas, politicamente corretos ou moralizantes. Trata-se de um filme, na falta de melhores palavras, muito louco, que prende o espectador à tela, ansioso por ver a próxima insanidade que virá a seguir, mas ao mesmo tempo refletindo sobre sua própria vida e o mundo que nos cerca. É claro que se trata do tipo de filme de que um pode tirar praticamente a conclusão que quiser. Trata-se de crítica, de rompimento com a realidade, de simples insanidade.
Leos Carax entregou à Cannes exatamente o que se esperava ver no festival: inovação, grandiosidade aliada à leveza, e uma dose de loucura. Isso fez de seu filme um dos favoritos – apesar de não vencedor – à Palma de Ouro. 
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