26/05 – Uma multiplicidade de pontos de vista: Cosmópolis

Além de On the Road, outro exemplo de um filme de que se esperava muito, mas de que se obteve muito pouco, foi Cosmópolis, de David Cronemberg. Também adaptado de um livro, o filme mostra Robert Pattinson (sim, muito melhor do que em Crepúsculo, mas longe de ter evoluído tanto fora da saga quanto sua namorada Kristen) como um jovem bilionário superdotado com muito talento para Wall Street e mais ainda para a conversa furada.
Eric Packer (Robert Pattinson) sabe muitas coisas. Ele sabe que a bolsa de valores está um caos por causa do comportamento inesperado do Yuan (a moeda chinesa), que sua vida está ameaçada e que a visita do presidente à cidade congestionou absolutamente todas as vias de Manhattan. Ainda assim, ele decide que precisa de um corte de cabelo… do outro lado da cidade. Viajando a menos de dois quilômetros por hora em uma limousine futurista, repleta de computadores e telas brilhantes, e cercado por seguranças, ele faz tudo em seu carro. De reuniões à check-ups médicos completos, tudo pode ser feito dentro do veículo. O ambiente fechado, onde a maior parte das cenas se passa, imprime uma sensação claustrofóbica ao filme, a qual a opressão do diálogo incessante entre Packer e seus serviçais só piora.
Packer, apesar de afirmar estar confuso com os novos padrões que observa na economia, mantém uma atitude, acima de tudo, de tédio. Com todo o dinheiro que tem, nem uma ameaça à sua vida, nem uma revolta anarquista que sacode sua limousine são capazes de causar mais do que um encolher de ombros.

Pattinson como Packer: jovem bilionário em busca de alguma emoção.


A relação com a noiva.

A noiva de Packer, Elise (Sarah Gadon), é uma bela jovem que vive afastada do universo das finanças controlado por seu par. Nos poucos momentos em que Packer sai de seu carro, a maioria é para encontrar-se com ela. Em todos estes encontros ele reforça o mesmo pedido, sempre negado: faça sexo comigo.
Não que ele precise de sexo, mas quer quebrar a resistência dela para conseguir que tudo em seu universo continue sob seu controle. Ao mesmo tempo, porém, essa resistência é a única coisa que os mantém conectados.
O enquadramento dos dois enquanto conversam, um plongée com uma lente grande-angular, gera uma estranha imagem com a cabeça de cada um ligeiramente maior do que o resto do corpo. Essa escolha de enquadramento deixa mais visual e palpável a frieza da relação e o afastamento entre os dois. Elise nunca entra na limousine de Packer, nunca entra realmente em seu mundo, assim como ele também não pertence ao dela.
Um segundo ato para quebrar a monotonia.

Depois de um longo primeiro ato que se passa praticamente todo dentro do carro, com alguns intervalos ocasionais em que sai para encontrar-se com Elise (em uma biblioteca, em um restaurante, na porta do teatro, etc.), Packer chega ao bairro do barbeiro e sai de vez de seu mundinho.
O ambiente fora da limousine deixa de ser futurista e dá um salto para o passado. Trata-se da vida real dos não-privilegiados, da gente comum. Procurando sentir alguma emoção, Packer se expõe ao perigo e ameaça a vida de outros.  
Alguns tiros e um pouco de violência não poderiam ficar de fora…
Uma crítica mais do que pretensiosa ao capitalismo.

Apesar de alguns poucos bons momentos, Cosmópolis é um filme extremamente pretensioso. As conversas de Packer sobre seu “controle”, sobre o dinheiro, a bolsa de valores e como todos estão mais próximos da morte à cada segundo parecem um show supervalorizado e super-produzido, como se o filme buscasse polir a si mesmo incessantemente.
A tentativa de Cronenberg de fazer uma crítica ao capitalismo, contudo, não é de todo mal sucedida. Os protestos, que iniciam com jovens portando fantasias de ratos – ou mesmo ratos vivos – por todas as partes, transformam-se em uma grande revolta anarquista que ataca, picha e sacode a limousine de Packer. A exceção da sujeira, nenhum dano é causado ao veículo, e aqueles que o ocupam não se incomodam nem em dar uma segunda olhada ao caos do lado de fora. Enquanto os seguranças batalham contra os rebeldes, seus patrões sentam-se no conforto dos estofados de couro e continuam a conversar bebericando uísques e martinis.
 O sistema, aparentemente inabalável por fora, está corroído por dentro. Packer, incapaz de encontrar as respostas de que necessita em seus dados e em sua mente, inquieta-se e parte em uma busca exterior. Ao encontrar seu antagonista e descobrir sua história, ele finalmente entende o que lhe faltava. E também entende que seu tempo acabou. 
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