25/05, dia de cinema brasileiro – parte 1

O Brasil foi o convidado de honra em Cannes este ano, sendo homenageado, entre outros eventos, por exibições de A Música Segundo Tom Jobim (2011), Xica da Silva (1976) e Cabra Marcado para Morrer (1984). Possuindo uma ligação especial com o festival desde a época do Cinema Novo (como o próprio site oficial explica), o Brasil também se viu representado pela participação de On the Road ,dirigido por Walter Salles, na mostra competitiva, e pela presença de Carlos “Cacá” Diegues como presidente do júri do prêmio Camera d’Or.
O problema das legendas.

Na mostra Cannes Cinéphiles, teatro La Licorne, seriam reprisados filmes da competição principal, bem como os filmes brasileiros homenageados. Dia 25 a programação seria: Xica da Silva, de Cacá Diegues, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e finalmente a reprise de On the Road, De Walter Salles.
A primeira sessão encheu o espaço do teatro com um público formado principalmente por jovens e idosos. Depois de uma hora de fila, o início da sessão foi decepcionante: uma funcionária do festival fez um anúncio ao microfone que gerou vários murmúrios de reclamação. Como meu francês não é muito bom, só o que pude entender foi que havia algum problema com as legendas do filme. Iniciada a sessão, revelou-se o problema: as legendas, em francês, estavam atrasadas, o que atrapalhava a compreensão das falas para pelo menos 95% do público presente.  
O problema persistiu durante toda a projeção de Xica da Silva e se repetiu em Cabra Marcado para Morrer, sessão que contou com uma menor presença de público, mas um público que reclamou ainda mais alto quando o atraso nas legendas foi anunciado.
O que simplesmente não dá para entender é como um festival com proporções tão grandes, com uma organização tão bem planejada como o Festival de Cannes não conseguiu sincronizar uma legenda. Isso é simplesmente inconcebível. Falta de respeito não somente com o público, mas também com os realizadores dos filmes, que tiveram o entendimento de suas obras prejudicado, e com o Brasil, que como país convidado deveria ter suas obras tratadas com mais cuidado.
Xica da Silva: personagem histórica que virou mito.
Dirigido por Cacá Diegues e inspirado na história real de Francisca de Oliveira da Silva, o filme conta a história quase mítica da escrava que virou senhora durante o auge da mineração de diamantes no Brasil, no século XVIII.
Apesar do fundo histórico, Diegues não segue a história com fidelidade, nem prima pelo realismo. A Xica interpretada por Zezé Mota traz consigo um exagero e uma extravagância fora do comum. O contexto da execução do filme também influencia em seu enredo e sua estética. Em 1976 o Brasil passava pelo regime militar, e mesmo que não apresente uma carga política muito forte, Xica da Silva também fala sobre a exploração das autoridades sobre os mais fracos e sobre os sonhos de liberdade destes.
O filme começa com a chegada do novo contratador de diamantes enviado por Portugal, João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), ao Arraial do Tijuco, que futuramente seria conhecido como Diamantina. No caminho ele conhece Teodoro (Marcus Vinícius), homem que encontra os mais ricos veios de diamantes, os explora sem a autorização da coroa e depois vende as pedras aos holandeses. Por isso, ele é procurado como bandido pelas autoridades. João Fernandes, contudo, decide aproveitar-se do talento de Teodoro ao invés de prendê-lo.
Zezé Mota como Xica da Silva.
Xica da Silva (Zezé Mota) é escrava do Sargento-Mor (Rodolfo Arena) e amante dele e de seu filho, José (Stepan Narcessian). Quando fica sabendo da chegada do contratador, Xica decide que quer conhecê-lo e faz de tudo para que isto aconteça. Encantado por ela, João Fernandes a compra e a torna sua amante. Xica faz coisas que “só ela sabe”, e com isso coloca João Fernandes a seus pés.
Quando o contratador passa a tratar a escrava como senhora, convidando-a a sentar-se à mesa consigo, dando-lhe roupas caras de presente e fazendo todas as suas vontades, a sociedade à sua volta se escandaliza. No início, são as outras escravas da casa, obrigadas a servir a uma igual como superior, que se sentem ofendidas. Em seguida, após conseguir sua carta de alforria, Xica passa a conviver com a alta sociedade local, não perdendo uma oportunidade de provocá-los com sua recém-adquirida posição.
Relação entre poder e dinheiro.

O poder de Xica provém de João Fernandes, e o poder de João Fernandes provém de seu cargo político e, sobretudo, do dinheiro que possui. Apesar de escandalizados com a relação do contratador com a ex-escrava, nenhum dos membros da sociedade se atreve a dizer algo. Quando Xica pede que o amante lhe dê de presente o mar, ele encomenda que um barco seja construído para navegar na barragem do arraial. Reunindo todas as autoridades para a “inauguração” do barco, João Fernandes aplaude e acena para Xica. Todos, apesar de indignados, imitam seu gesto.
Encantado por Xica, João Fernandes a transforma em uma senhora. 
Quando a autoridade máxima e homem mais rico da região aplaude, todos aplaudem. Essa cena compreende uma diversidade de críticas que o diretor quer transmitir ao público, tanto em relação ao governo ditatorial da época da exibição do filme, quanto (e principalmente) à mentalidade do país, à supervalorização do dinheiro e ao conformismo.
A própria indignação das senhoras da elite e do pároco local com o comportamento de Xica é ocultada para não ofender o contratador. O racismo contra ela ainda é grande, e o incômodo que os brancos sentem em ver “essa negra safada” com status quase de rainha só é suplantado pela adulação à autoridade e a quem tem mais dinheiro.
A inconfidência mineira e o sonho de liberdade.

Em 1976 o regime militar já mostrava sinais de afrouxamento. Apesar disso, Diegues não omitiu críticas ao sistema de governo em Xica da Silva. Na história, o personagem mais politizado é José, o filho do Sargento-Mor. Além de ser o único que genuinamente torce pelo sucesso de Xica, é o único que questiona os propósitos do contratador.
José se refere aos portugueses como ladrões da riqueza nacional, e a João Fernandes como um enviado que “vem de Portugal para tomar o que não lhe pertence”. Decidido a lutar pela liberdade do país, o rapaz parte rumo à Vila Rica, onde pretende tomar parte em movimentos contestadores da dominação da coroa portuguesa, implicitamente, a inconfidência mineira.
Outro personagem que pode representar uma crítica aos militares é o próprio Sargento-Mor, ridicularizado desde a primeira cena em que aparece. Ele procura as calças, enquanto o senhor Intendete (Altair Lima) e sua esposa Hortência (Elke Maravilha) presenciam a cena, constrangidos. Desajeitado e visivelmente sem muita cultura, o Sargento-Mor é o exato contrário de seu filho.
Por fim, o sonho de liberdade de Xica. Mesmo após receber sua carta de alforria, ela ainda é presa ao dinheiro de João Fernandes, pois sem ele e sua riqueza ela não é nada. Mesmo rica e livre, ela não pode nem ao menos entrar na igreja por ser negra. Sua condição reflete a condição do país, que mesmo livre ainda é preso aos donos do dinheiro e aos detentores do poder.
A corrupção no Brasil Colônia.

O contratador é enviado por Portugal para investigar supostas irregularidades e roubos na exploração dos minérios de diamante. Ao invés de cumprir rigidamente sua tarefa, João Fernandes estabelece com o bandido Teodoro uma espécie de equilíbrio de poder. O contratador não persegue nem prende o bandido, mas o deixa livre para descobrir os veios mais ricos e explorá-los o quanto puder. Quando Teodoro, por sua limitação de recursos, extrai tudo o que pode e parte. João Fernandes então envia seus homens, melhor equipados, para continuar a extração até que a fonte se esgote. Assim, deixando de cumprir a lei, ele enriquece.
Quando Portugal envia um fiscal da corte, o Duque de Valadares (José Wilker), para fiscalizar o trabalho de João Fernandes, o Tijuco ganha uma nova autoridade a quem adular. Para escapar do degredo na África, o contratador paga o que pode ao Duque, que, por sua vez, também deixa de cumprir suas obrigações em nome do interesse próprio. A mensagem é clara: autoridade, no Brasil, só auxilia a si própria.
A estética de Debret em cena.

A mis-em-scène construída, em muitos momentos, gera a sensação de se estar assistindo a um quadro de Debret que se move e fala. Os vestidos das mulheres, as crianças nuas ou semi-nuas brincando pelo chão enquanto os senhores comem à mesa, os escravos sendo castigados com pesados grilhões de ferro. Tudo remete à obra do pintor francês.
A mis-en-scène do filme leva ao cinema a estética dos quadros de Debret. 
Em outros momentos, porém, o carnaval brasileiro parece se tornar a inspiração principal. As roupas e maquiagens de Xica e seus servos possuem muito dourado, muito brilho. Personagem símbolo do exagero, da extravagância e da luxúria, Xica também é uma personagem real que se tornou mito popular. Assim, retratá-la com um toque de fantasia carnavalesca é perfeitamente adequado, e a interpretação de Zezé Mota se alinha com essa estética.
Xica com seus “súditos”, vestidos com muita cor e brilho.
Com Xica da Silva, Diegues utiliza o passado histórico do país para criticar sua contemporaneidade, na década de 1970. Reprisá-lo em 2012 ajuda a lembrar-nos de que nem todas as mudanças de que precisamos já foram realizadas. 
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