24/05, Noite de Première.

O que define o certo e o errado? Qual é a linha que separa uma pessoa normal, com seus defeitos e qualidades, de um babaca completo sem a menor consideração? Esses são alguns dos questionamentos que propõe o filme da diretora Catherine Corsini, Trois Monde (Três Mundos, em tradução livre), cuja estréia assisti na mostra Um Certo Olhar.

Um grupo de jovens adultos, bem vestidos, mas visivelmente embriagados, faz brincadeiras perigosas com seus carros em um estacionamento vazio. A inconseqüência de seus atos imediatamente instiga a aversão do público. Em seu apartamento, Juliette (Clotilde Hesme) conversa com o namorado, Frédéric (Laurent Capelluto). Ao aproximar-se da janela, ela testemunha um atropelamento: o carro dos três jovens, dirigido por Al (Raphaël Personnaz), se choca com um homem. Os responsáveis fogem e Juliette presta socorro.
Al trabalha em uma concessionária de carros e está noivo da filha de seu chefe, Marion (Adèle Haenel). Bem apessoado e dedicado, é um rapaz que trabalhou toda a sua vida para se tornar rico e importante. As negociações que faz com seus clientes não são muito esclarecidas, mas a forma como ele entrega os carros e recebe o pagamento dá a entender que são negócios escusos. Depois do atropelamento, sua autoconfiança é abalada. Ele se divide entre a culpa e a pressão por manter o estilo de vida que conquistou.
Os personagens Juliette (Clotilde Hesme) e Al (Raphaël Personnaz) em cena de Tois Monde.
A preocupação de Juliette com a vítima e com sua família, bem como sua indignação pela atitude do motorista que fugiu, faz com que ela se envolva em uma situação muito mais complexa e emocionalmente estressante do que ela poderia imaginar a princípio. A esposa da vítima, Vera (Arta Dobroshi), se apega à sua compaixão, e passa a demandar cada vez mais a sua presença. É quando Juliette reconhece Al, porém, que ela se torna definitivamente o ponto de intersecção entre vítima e culpado.
Inicia-se uma interconexão entre duas realidades completamente distintas, tendo Juliette como ponto em comum. De um lado, Al: francês, com dinheiro, buscando deixar sua mãe – uma faxineira aposentada – orgulhosa, mas trabalhando em negócios escusos. Do outro, Vera: imigrante ilegal, sem dinheiro, com sonhos de uma vida melhor e sofrendo pelo marido.
O filme apresenta o relacionamento desses três personagens chave, os três mundos do título, como um relacionamento real entre pessoas normais, cujas vidas se tornaram ligadas por uma tragédia. Os questionamentos morais são vários. Até que ponto Al é uma boa pessoa que cometeu um erro, e até que ponto é um babaca influenciável? Sua tentativa de “indenizar” a viúva de sua vítima, bem como a solidariedade de Juliette, são realmente atos de auto-expiação, ou se tratam de narcisismo? Trata-se de obter o perdão do próximo, ou o próprio perdão?
O roteiro é muito bem conduzido pela diretora, mas a carga dramática não deixa em aberto muitas opções para a conclusão. Trois Monde é um filme demasiado próximo da realidade das paixões e dos defeitos humanos, e é isso que o torna tão interessante. 
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