O que eu vi – e vivi – no 65° Festival de Cinema de Cannes.

Antes de começar a falar sobre os filmes, um pouquinho de experiência pessoal…


Chegando lá.


Eu não esperava ir a Cannes. Queria, e muito, mas não esperava que acontecesse tão cedo. Quando a minha amiga Malu Sá disse que era possível se inscrever, resolvi que valia mais do que a pena tentar. Como estou morando em Sevilla, Espanha, desde fevereiro, ir visitar a Riviera Francesa em maio não parecia um sonho assim muito impossível de se realizar. Olhei o regulamento no site, juntei os documentos e enviei, ainda assim sem muita esperança de que fosse dar certo. Quem não arrisca não petisca, esse é a grande verdade brasileira da vida.
A confirmação de que eu receberia uma credencial chegou, e com isso o que era apenas uma vaga esperança se transformou em muita empolgação e preparativos: passagens, hotel, roupas… A data escolhida foi de 24 a 27 de maio, os últimos quatro dias, já que por motivos de compromisso com a universidade seria impraticável participar das duas semanas inteiras de festival.
Sem saber exatamente o que conseguiria ver, mas disposta a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, parti. Com a companhia da Malu, sem a qual nada disso teria sido possível, cheguei a uma cidade pequena, mas que fica gigante aos olhos do mundo quando os holofotes do festival se acendem. A cidade fica cheia de cineastas, atores, jornalistas, fotógrafos, cinéfilos e turistas, famosos e anônimos.
De fila em fila.

Primeira etapa: credenciamento. Depois de perguntar a algumas pessoas, procurar aqui e ali, encontrei o local certo e peguei minha credencial. No horário que eu fui não tinha fila, ainda bem. O problema foi demorar a entender o funcionamento do festival, saber em quais projeções a prioridade era de quem tinha convite, e em quais a prioridade era de quem, como eu, tinha crachá. Isso foi algo que descobri ao longo dos dias.
Com ou sem prioridade, a primeira certeza do festival é: você vai enfrentar filas. Filas que, dependendo do teatro e do filme, são de mais de uma hora, no sol. A não ser que você seja alguém muito importante, é claro. E é preciso ter cuidado, porque as filas são largas e tem gente que vai se encostando e fura mesmo. Os teatros são grandes, e a visão da tela é boa praticamente de qualquer lugar, mas ainda assim não é legal ver alguém querendo dar uma de malandro e passando na sua frente.
O Festival tem muitas mostras, exibidas em diferentes salas. Há a competição oficial, a seleção fora de competição, a mostra um certo olhar, a competição de curtas-metragem… o que nos leva à segunda certeza do festival: não se pode ver tudo. Ter um bom conhecimento da programação e habilidade seletiva é essencial.
Uma pessoa que me ajudou a entender um pouco do complexo funcionamento de um festival tão grande foi o Paulo, o segurança português que conheci graças ao meu sobrenome brasileiríssimo escrito em letras garrafais no crachá. Encontrar pessoas de diversos lugares e conversar, estabelecer contatos, esse era um dos meus objetivos em Cannes. Paulo foi apenas o primeiro de alguns felizes encontros casuais. Não posso dizer que conheci alguém muito importante, algum figurão de Hollywood, mas conheci pessoas como eu: que amam cinema e que de alguma forma vivem dele. Pessoas normais, simpáticas, sonhadoras, de bom papo.
Na hora de conversar vale tudo: inglês, espanhol, um francês bem básico pronunciado com a maior incerteza do planeta, mímica… e volta e meia português. “Sou brasileira” é uma frase que tem um efeito quase mágico nas pessoas, quase um Abracadabra que abre caminho para um sorrisão e muita simpatia. E é nessa hora que muita gente quer mostrar que sabe um pouco de português, seja com um “obrigado” ou um “bom dia”, seja cantarolando “ai se eu te pego”, que (ainda) é sensação por aqui.

 😀
A magia do Festival.

Cannes atrai muita gente. Há quem vá apenas para fazer turismo, “pegar” uma praia e tentar ver os artistas famosos desfilarem pelo tapete vermelho. Há que vá vender seus filmes, fazer negócios. A maioria, contudo, vai ao cinema. É interessante pensar o que leva alguém a se deslocar a uma cidade, muitas vezes vindo de outro país, simplesmente para assistir a filmes. Sim, são estréias de filmes, muitos deles premiados pelo próprio festival ou futuramente premiados em festivais subseqüentes, mas são filmes que serão lançados nos cinemas, ou pelo menos a maioria será. Então, de onde surge essa necessidade de ver primeiro? Ou melhor, de ver primeiro em Cannes?
Cannes tem um glamour e um charme aos quais pouquíssimas outras celebrações do cinema se igualam. Cannes tem o charme da praia, do mar mediterrâneo, das celebridades de diversos países, do idioma francês. Mais que isso, o festival tem um dos mais rigorosos processos de seleção do mundo. Então, se um filme está em Cannes, merece ser visto.
Sem contar a variedade de nacionalidades representadas na telona do festival, principalmente na mostra competitiva de curtas-metragem. Em Cannes se fala francês, inglês, alemão, árabe, português… e fala-se de França, de Estados Unidos, de Palestina, de imigrantes, de exploração, de inocência, de loucura, de amor. O mundo se vê representado e se representa na telona.
Depois de praticamente quatro meses sem ir ao cinema, sair de uma sessão e já entrar na seguinte foi como resgatar minha própria alma de volta. Exagero poético com um toque de clichê? Não mesmo. O que me moveu à Cannes é o mesmo que move muita gente: a vontade de conhecer as novidades, o que os principais artistas têm produzido, o que se têm vivido e sobre o que se têm falado no mundo, mas, acima de tudo, o que me moveu à Cannes é o amor pela sétima arte. E ela soube me recompensar apropriadamente. 
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