O Artista: A academia premia o cinema

 No último domingo, dia 26 de fevereiro, a entrega dos Oscars movimentou o universo do cinema como só ela é capaz. Sempre motivo de especulações e discussões pré e pós evento, as escolhas da Academia nunca são consenso.  O grande premiado da vez foi O Artista, que levou as estatuetas de melhor filme, diretor para Michel Hazanavicius, ator para Jean Dujardin, figurino e trilha sonora original. Além de todos esses Oscars, O Artista também conquistou o Bafta, o Globo de Ouro de melhor comédia e o Goya de melhor filme europeu. Desvendar o motivo de tamanho sucesso, contudo, passa pela história e pela alma do próprio cinema.
Durante a primeira meia hora de filme, principalmente na sequência de abertura, a sensação transmitida por O Artista é a de que se trata de um reboot mudo e muito pretensioso de Cantando na Chuva (1952). O artista sensação do momento, George Valentin (Dujardin), acaba de apresentar seu mais novo filme. Na saída, esbarra em uma fã, Peppy Miller (Bérénice Bejo), que acaba saindo nos jornais ao lado de seu grande ídolo.

Peppy Miller (Bérénice Bejo) conhece seu grande ídolo, George Valentin (Dujardin). 

Ao iniciar seu mais novo filme, Valentin é apresentado à mais nova tecnologia do cinema: o som direto. Cético, o ator se recusa a abraçar a novidade, convencido de que o público quer vê-lo, não ouvi-lo. Peppy, por sua vez, sobe passo a passo os degraus da fama, começando como figurante e chegando a nova queridinha de Hollywood justamente fazendo filmes com som direto, os famosos “talkies”. A situação se inverte: Peppy se transforma na estrela, enquanto Valentin perde tudo e é esquecido por produtores e público.

As semelhanças com Cantando na Chuva dão uma freada quando Valentin despenca rumo ao fundo do poço. Ele passa a beber constantemente e precisa penhorar seus ternos e leiloar suas antigas posses para sobreviver.  Seu chofer, Clifton (James Cromwell), contudo, segue fielmente a seu serviço ainda que o patrão não pague seu salário há mais de um ano, representando um dos muitos detalhes do filme que são fiéis a estética do cinema dos anos 20: o empregado leal e dedicado.
Valentin no fundo do poço: a teimosia e o orgulho no caminho da adaptação.

Apesar de seguir com bastante fidelidade a estética dos anos 20, Hazanavicius reserva algumas boas surpresas ao longo da projeção. Por exemplo, temos a excelente sequência em que o protagonista, preso entre sua dificuldade em aceitar a novidade do cinema falado e a sua constatação da realidade de que este suplantará o cinema mudo, escuta claramente todos os sons ao seu redor, mas é incapaz de articular uma palavra que seja.
A relação de oposição entre Valetin e o cinema falado se estabelece logo na cena de abertura, em que o ator interpreta um personagem que é torturado com descargas elétricas por homens que lhe pedem que “fale”, enquanto ele responde (por meio de cartelas) que “jamais falará”. Já perto do final, surgem na tela as mil bocas que tanto o atormentam, rindo e gritando para ele, mas em silêncio para o público.
A escolha de abordar uma temática de transição de tecnologias e de mudanças no fazer cinematográfico é simbólica. A tecnologia digital e o cinema em 3D são as transições que atualmente presenciamos, e as discussões em torno delas se intensificaram recentemente. Por enquanto, cineasta nenhum foi à falência por se recusar a aderir ao modelo digital, mas ninguém sabe ao certo quanto tempo a película ainda vai sobreviver. Muito defendida, em parte por defensores de sua suposta “melhor qualidade de imagem”, em parte por nostálgicos saudosistas, parece que ainda vai durar algum tempo. Ignorar completamente o novo por simples orgulho, como faz o personagem de Dujardin no filme, porém, não é saudável.
Além de uma temática perfeitamente alinhada com as discussões em pauta, O Artista cativa o público pela nostalgia que traz consigo e pela ousadia em apresentar um filme mudo mais de oitenta anos após o declínio desse gênero. Empolgada com esse contexto, principalmente com o quesito nostalgia, a Academia concedeu seus principais louvores a ele. Hazanavicius nos lembra que, por mais que o cinema mude, é sempre preciso olhar ao passado, à origem, porque o cinema pode mudar, mas nunca deixará de ser o que é. E foi esse gentil lembrete que o Oscar escolheu premiar. 
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