A invasão de Amanhecer, ou o filme que nos estão enfiando goela abaixo.


Amanhecer – parte 1, final da “saga” Crepúsculo, que para imitar Harry Potter e ganhar mais dinheiro foi dividido em duas partes, fez sua estréia mundial sexta, dia 18. A qualidade duvidosa do roteiro, produção e realização de todos os filmes da série já foi amplamente discutida entre a crítica cinematográfica nos anos anteriores. E sim, eu infelizmente assisti a dois deles, até para saber do que falo: é ruim mesmo. Este ponto já foi estabelecido e já está mais do que passado. A questão que ganhou destaque esse ano, e que está fomentando protestos indignados, é a ocupação maciça das salas de cinema brasileiras com cópias do filme. São ao todo 1100 salas em um universo total de 2225 salas. Simplesmente METADE das salas do país estão exibindo Amanhecer. (Não é metade matemática, mas é metade, vai.)

Já vi uma crítica a isso exposta em um site especializado (http://www.clicaemcinema.com.br/) e já recebi um e-mail tipo corrente tão indignado quanto. E isso que nem procurei por mais, porque com certeza há por aí. Bem, não é de hoje que os blockbusters americanos invadem os cinemas brasileiros mensalmente como uma enxurrada, e também não é de hoje que muita gente reclama disso. Um único filme ocupando a metade das salas de um país de 8 514 876,599 km², com uma população de 194.946.470 de pessoas, porém, impulsiona ainda mais toda essa discussão.

Até Bella e Edward ficaram horrorizados com a baixa qualidade de Crepúsculo.

A grande reclamação dos realizadores e cinéfilos é que um filme só ocupando tantas salas tira o já reduzido espaço das produções menores. Isso é verdade. A lei de mercado favorece o que dá lucro, e isso têm sido durante décadas os blockbusters (salvo algumas exceções – alô, Padilha! Alô, Globo Filmes!). A escassez de filmes brasileiros em cartaz, a aparente falta de interesse do público pela produção nacional e as dificuldades que os nossos realizadores enfrentam, contudo, são questões impossíveis de serem explicadas ou resolvidas por uma só resposta.

Cinema é negócio.

Para começar, cinema nos Estados Unidos é sinônimo de negócios, e os americanos já se provaram excelentes comerciantes (discussões de capitalismo selvagem de lado. Os grandes estúdios de lá são bilionários, ponto). Só ganha a chance de sair do papel com um mega orçamento e ser exportando para diversos países o roteiro que tem potencial de venda. São esses roteiros que chegam até nós. Lá, as produções independentes e baratas são quase tão raras quanto aqui.

E o Brasil vai pelo mesmo caminho. A única grande produtora, a única capaz de colocar seus filmes em um número expressivo de salas é a Globo Filmes. Ela produz filmes bons, com certeza, mas também produz filmes medianos e ruins. Só que é um negócio, visa o lucro. São os blockbusters brasileiros. José Padilha conseguiu driblar esse monopólio um pouco, jogando a Globo Filmes para a co-produção e fazendo Tropa de Elite 2 com a sua própria produtora, a Zazen. Fora isso, contudo, só se faz e se exibe filme nesse país com o apoio do governo…

Cineasta brasileiro é dependente.

“Aqui no Brasil só se faz filme com o apoio do governo”. Posso dizer seguramente que essa foi a primeira lição que aprendi no meu curso de Audiovisual na Universidade de Brasília. Essa frase já virou mantra, repetido por professores, colegas, palestrantes, até entranhar. A equação é simples: cinema é negócio + filme custa caro + cinema brasileiro não dá dinheiro = ninguém quer investir. Sobra para o governo, essa grande Mãe de todos nós, estender seus braços misericordiosos e dispensar uma mesadinha pro filho cineasta, aquele que não escolheu tão bem a carreira como o filho dotor ou o filho adevogado, mas que afinal, é filho também.

O governo abre editais para o financiamento de produções, para a finalização, faz leis que obrigam os exibidores a apresentarem um número x de filmes brasileiros, entre outras medidas. Ainda assim, captar recursos para um filme não é fácil. É preciso um bom projeto e muita paciência para visitar mais de 70 empresas pedindo apoio. É este o testemunho dos cineastas com quem tenho convivido.

Filme brasileiro é gênero.

Numa conversa social em um evento social qualquer, uma garota comentou isso comigo: “filme brasileiro virou gênero”. O sujeito vai ao cinema com o amigo. “O que está passando?”. O outro explica: “tem esse aqui que é de ação, aquele outro que é romance e mais um tal que é filme brasileiro”. O tipo de filme é “filme brasileiro”. Taxado e julgado na porta do cinema pela nacionalidade. Vítima de xenofobia em seu próprio território.

Sei que é demais querer que de uma hora para a outra a coisa mude para “esse é de ação, aquele de romance e o outro lá é filme americano”, mas quem sabe um dia?

Filme brasileiro é ruim

Mentira. Mentira. Mentira. Que o cinema brasileiro está se recuperando de um período de baixa fertilidade, isso é certo, mas o país nunca deixou de ter sua parcela de bons frutos – que estão cada vez mais abundantes. O cinema brasileiro tem produzido grandes obras e a tendência é crescer. Precisa, contudo, receber mais apoio por parte de sua população. E por apoio não me refiro a aplaudir qualquer porcaria que venha pela frente só por ser nacional, mas ter o senso crítico para saber separar o que é bom do que não é, reconhecendo e aplaudindo o que for bom. Para saber, contudo, é preciso assistir ao máximo de produções, vindas de todas as partes do país, tendo ou não atores e diretores famosos. Assistir para formar opinião.

O Brasil tem poucas salas.

Poucas, caras e concentradas nas grandes cidades. E essas poucas salas ainda reservam metade de seu espaço para Amanhecer… Pois é. O cinema brasileiro não dá dinheiro porque o público não vai assistir, o público não vai assistir porque as opções são poucas. É um ciclo vicioso que está sendo quebrado. A passo de tartaruga, mas está.

A presença da Globo Filmes, dos poucos filmes que conseguem se lançar de forma independente e daqueles que contam com a mãozinha do governo está aproximando a produção do público. O caminho até que a procura se torne suficiente para que os filmes brasileiros sejam economicamente lucrativos e conquistem a maioria na programação é longo, mas possível de ser trilhado.

Quer tirar salas de Amanhecer? Vem pro fight!

E de volta a Amanhecer.

Cinema é negócio, requer investimento, e os grandes estúdios americanos tem condições de investir. As produtoras brasileiras, salvo algumas exceções, não tem. As empresas que dão apoio só se interessam em investir o mínimo para obterem vantagens fiscais. Na hora da exibição, o público não procura os filmes nacionais, vai atrás dos importados com altíssimos valores de produção e com propaganda maciça. Os distribuidores e exibidores querem ganhar dinheiro, logo, veiculam o que o público procura. Este é, de forma simplificada, o ciclo que temos vivenciado.

O que a invasão de Amanhecer nos cinemas mostra é um exagero de proporções monstruosas da política de ganhar dinheiro exibindo uma superprodução. Ocupar metade das salas de um país com um único filme é mais do que a ganância dos estúdios, produtores e exibidores em conseguir uma grande bilheteria, é enfiar um filme goela abaixo de uma nação inteira. Sim, Crepúsculo tem muitos fãs, mas nem tantos assim que precisem de 30 opções de horários diferentes para conseguir uma oportunidade de assisti-lo – isso somente em um dos cinemas de Brasília, para dar um exemplo.

Por mais que cinema seja um negócio e que vise o lucro, falta aos distribuidores e exibidores um mínimo de bom senso. Para se ter uma idéia, o filme mais bem sucedido de Crepúsculo até agora (Lua Nova) arrecadou menos do que o filme mais mal sucedido de Harry Potter (O Prizioneiro de Azkaban). (Isso em escala global, pois me faltam dados para uma comparação nacional). Nem mesmo os fãs de Harry Potter precisaram de tantas salas para saciar sua sede pela série e para render um bom lucro, então será que Crepúsculo precisa mesmo de tanto espaço, ou se estão, como já disse, enfiando o filme goela abaixo do público?

A discussão dos problemas que o cinema brasileiro enfrenta não surgiu hoje nem vai acabar tão cedo. A situação que estamos presenciando agora, entretanto, faz mais do que inflamar o debate: joga gasolina em indignações há muito acumuladas. Indignações recheadas de bons motivos e razões, diga-se de passagem.

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