Um convite à contemplação.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, A Árvore da Vida (The Tree of Life), do cineasta Terrence Malick, era um dos filmes mais aguardados de 2011. Após passar por três anos de pós-produção, o resultado final divide opiniões. Na sala em que assisti a obra, foi fácil perceber que a maioria dos presentes não gostou, enquanto conhecidos meus relataram terem visto várias pessoas saírem da sala no meio da projeção em que compareceram. Até mesmo Sean Penn criticou o filme e o diretor, comentando sobre sua própria participação: “Eu ainda estou tentando entender o que eu estou fazendo lá.” (Em tradução livre, original em inglês aqui). A maioria dos críticos, contudo, o aplaudiu de pé.

Grande parte do descontentamento do público com A Árvore da Vida se deve ao fato de que, de um modo geral, não estamos acostumados a filmes tão contemplativos, com narrativas tão abertas e com tão poucas explicações. A idéia de ir ao cinema para pensar, sentir e refletir sobre a grandiosidade da vida não é algo comum ao dia-a-dia dos brasileiros. E a grande verdade é que encontrar filmes desse tipo nos cinemas (pelo menos aqui em Brasília) é muito difícil. É preciso que se ganhe a Palma de Ouro para entrar no circuito brasiliense, caso você não seja uma superprodução hollywoodiana, não tenha sido produzido pela Globo Filmes ou não esteja entre a cota de filmes brasileiros que o governo obriga os cinemas a exibirem. No fim, o brasileiro não enxerga o cinema como um instrumento de reflexão não por uma questão de falta de cultura, mas por uma questão de falta de opções.

Questões de distribuição e mercado à parte, o fato é que sentar em uma sala de cinema e assistir a um filme em que pelo menos 70% das cenas mostram apenas a natureza (ondas enormes e vulcões em erupção, entre outros) ao som de música instrumental acompanhada por um coral é um exercício de paciência. É um exercício de parar e admirar. De não se preocupar com enredo ou com falas, com o que faz sentido ou não. De não prestar atenção em uma “história”, mas deixar seus pensamentos fluírem ao som da música e ao ritmo das imagens.

Jack (Hunter McCracken) na infância com a mãe (Jessica Chastain)…

Malick propõem uma experiência predominantemente sensorial, com imagens de uma beleza esmagadora acompanhadas por uma música poderosa que praticamente não para de tocar. No começo, uma mulher (Jessica Chastain) recebe uma notícia por telegrama. A dor que o comunicado lhe traz a faz gritar. Um homem (Brad Pitt), recebe em seu local de trabalho um telefonema cujas palavras não podem ser ouvidas pelo espectador devido ao barulho ensurdecedor de um avião próximo, mas é possível distinguir a boca do homem formando um “What?” (“O quê?”) completamente incrédulo. Em seguida descobrimos que o homem e a mulher são um casal, e que esse casal acabou de perder um dos três filhos. Após uma breve cena com pessoas vestidas de preto, algumas consolando a mulher, ouvimos sua voz em off questionar a Deus, pedir por Ele. Imagens do cosmos se seguem.

É nesse momento que uma revisão da criação do universo, e mais especificamente da Terra, tem início. Das estrelas, vamos a um vulcão em erupção, à força dos mares e ao surgimento da vida nos oceanos. A mensagem de que a vida de um ser humano é pequena diante de tamanha grandeza torna-se perturbadoramente clara. A dor da família mutilada pela morte do filho, contudo, não deixa de ser intensa.

… e quando adulto (Sean Penn), vagando pelo mundo, ou pelas lembranças de sua vida.

Aos poucos, conhecemos um pouco melhor a história dessa família. Assistimos, um a um, aos filhos nascerem e serem imensamente amados pela mãe. Em algo que parece ser um verão eterno, os meninos crescem, entre aventuras e brincadeiras. O pai logo se revela um disciplinador rigoroso, até mesmo agressivo, mas que sofre internamente por não conseguir ser o homem importante que sempre sonhou. O sonho americano do self-made man não se realizou para ele, apesar de seus esforços. Ele procura ensinar os filhos a serem fortes, mas é um homem cheio de contradições. “Ele diz: não ponha os cotovelos na mesa. Mas ele põe.” “Ele diz: não minta. Mas ele mente.” – são apenas alguns dos exemplos percebidos pelo filho mais velho, Jack, interpretado por Hunter McCracken na infância e Sean Penn na idade adulta.

A raiva e o ressentimento que Jack sente pelo pai, que cobra muito mais do primogênito do que dos mais novos, ficam explícitos. Esses sentimentos são reforçados pelo ciúme que o garoto sente ao ver a mãe tratar com carinho e afeto – mesmo tratamento que o próprio Jack recebe, diga-se de passagem – aos irmãos. Jack fica dividido entre o amor e a doçura da mãe e a rigorosidade e brutalidade do pai. Nada disso, contudo, é exposto em grandes diálogos, ou mesmo tratado de forma linear. É tarefa do espectador juntar dois mais dois para formar quatro, situação que, ao contrário da crença popular, nem sempre gera nesse espectador a gratidão esperada. Até porque, em se tratando de A Árvore da Vida, dois mais dois podem muito bem serem cinco.

Brad Pitt dá vida aos contrastes do Sr. O’Brian: pai amoroso e brutalmente rígido ao mesmo tempo.

Cenas de Jack quando criança e quando adulto se alternam, e a participação de Sean Penn mostra um homem perdido nas reminiscencias de seu passado – se apenas por um dia ou se por vários anos, não se pode dizer. Profundamente marcado por sua infância, pelo contraste entre as personalidades de seus pais (inclusive pelas próprias contradições que o pai apresenta em si mesmo) e pela morte do irmão, ele procura alguém, que pode ser o pai, o irmão ou mesmo Deus.

A procura por Deus em meio à vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas, seus conflitos e conciliações, traz questionamentos sobre qual seria o lugar desse Deus na vida das pessoas, e qual seria o lugar das pessoas na vida (se é que se pode chamar assim) de Deus. E apesar de a religião demonstrada no filme ser a católica, não há nenhum direcionamento para essa doutrina. Cabe a cada um questionar-se dentro de suas próprias crenças.

Terrence Malick não criou um filme difícil de entender, mas um filme com múltiplas interpretações, que faz pensar e questionar. A beleza e a força das imagens convidam o espectador à contemplação – e é isso que nem sempre agrada, mas que encanta aqueles que se dispõem a tentar.

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