O Brasil, mais uma vez, estereotipado.

Ok, Rio. Um dos filmes mais esperados do ano. Uma superprodução sobre o Brasil escrita (em parte) e dirigida por um brasileiro. As expectativas não poderiam estar mais altas. E como sempre acontece com expectativas altas, a revelação do resultado final nunca agrada a todos.

Esperava-se que Carlos Saldanha mostrasse ao mundo um Rio diferente do estereótipo que estamos acostumados a ver gravado a bumbuns enormes e caipirinhas na mente dos estrangeiros. Apesar do inegável progresso, não foi o que aconteceu. O Brasil de Rio segue retratado como um lugar exótico onde todo mundo enlouquece por conta do carnaval e onde turistas são assaltados por macaquinhos. Ah, e é claro, as favelas são cobertas de mato nos planos aéreos, surgindo não sei de onde quando os personagens se aproximam delas por terra.

Como filme infantil, Rio é uma gracinha. Carrega o estandarte da luta contra o tráfico de animais silvestres, especialmente pássaros, mas sem deixar que isso consuma o filme em uma propaganda pró-natureza piegas. A exuberância das cores e vistas do Rio de Janeiro deixaram a cidade ainda mais bonita na animação do que na realidade. E o uso do 3D como complemento da profundidade de campo, ao invés da banalidade das coisas que “saltam” da tela, demonstra a maturidade dos realizadores.

Blu, arara azul que não sabe voar, e Jade, seu par feminino.

Blu é uma arara azul macho capturada no Rio quando ainda era um filhote. Levado para os Estados Unidos, pára por acidente em uma cidadezinha do estado de Minnesota. Também por acidente – o que exime a personagem de qualquer ligação com o tráfico de animais, atestando sua bondade inerente – é encontrado por Linda, jovem que cuida dele. Quinze anos depois, Túlio, ornitólogo brasileiro, aparece na livraria de Linda afirmando que Blu é o último macho da espécie e precisa ir ao Rio de Janeiro para procriar. Como ele descobriu a existência de Blu é um mistério completo. Mas isso não importa, afinal, é um filme infantil. Linda parte com Blu para os trópicos e – oh! chega justamente na semana do carnaval, porque filme sobre o Rio sem carnaval não vale o custo, aparentemente.

Enfim, Blu é apresentado a sua única companheira de espécie: Jade. Crescida na natureza, Jade não é acostumada com o cativeiro, não confia nos humanos e pretende fugir a qualquer custo. Blu, por sua vez, deposita uma confiança exagerada na raça humana e é tão domesticado que não sabe nem voar. Seqüestrados por traficantes de animais, os dois precisam aprender trabalharem juntos para poder fugir. Enquanto isso, Linda e Túlio também se aproximam em sua busca por reencontrar as araras.

Embalado por uma trilha sonora produzida por Sérgio Mendes, Rio tem um ritmo gostoso de samba. Em alguns momentos, uma mistura estranha de hip hop com uma espécie de funk carioca comportado toma conta, o que não é necessariamente um prejuízo. A direção de arte ultra-colorida deixa até mesmo a favela bonitinha, ambiente mascarado por planos fechados e confusos de uma corrida de motocicleta morro acima. O único esboço de que o filme quer mostrar um pouco dessa realidade obscura é a cena em que Fernando, garoto órfão, caminha até sua “casa” improvisada no telhado de outro barraco. Nesse momento, cria-se a expectativa de que Fernando será um personagem melhor trabalhado, o que não acontece. O filme é mesmo centrado em animaizinhos coloridos e falantes, e não em personagens humanos próximos à realidade.

Túlio mostra a Linda o eternamente estereotipado Brasil. Não se preocupe, Linda, nós não mordemos

Rio tem os seus problemas, como estereotipar o povo brasileiro, reduzido a fanáticos por carnaval e futebol (há um jogo Brasil x Argentina passando, completamente fora de época). Além dos já citados macaquinhos-trombadinhas. É claro que se trata de uma animação voltada ao público infantil, logo, se aprofundar na realidade brasileira seria inviável. Além disso, que bem faria estragar a imagem de que o Brasil é a terra da praia, do samba e do futebol? Mal com certeza não faria, a não ser, talvez, à indústria do turismo. À fração do público brasileiro que não se encaixa no estereótipo – e que não ganha nada com isso – resta prestar atenção aos bichinhos engraçadinhos e gente-boa e relevar o resto. Na medida do possível.

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