Black Swan: o lado mais sombrio do Ballet


Eu juro que pensei em mil coisas durante o filme, mas agora não sei nem por onde começar. Acho que três palavras resumem Black Swan: intimista, instigante, perturbador. Depois de seu sucesso nos festivais de Toronto e Veneza, e é claro, no Globo de Ouro, Black Swan chegou ao Brasil extremamente aguardado. E a recente indicação ao Oscar em cinco categorias somente aumentou as expectativas.

As minhas, é claro, mal cabiam na sala do cinema. Eu sabia pouco sobre o filme. Isolei-me propositalmente de tudo o que lhe dizia respeito para preservar a surpresa que a telona traria. Só sabia que se tratava de um drama sobre uma bailarina profissional, e que Natalie Portman estava divina no papel. Só. Fui recompensada por uma grande surpresa, daquelas que há um bom tempo eu não tinha em relação a um filme.

Natalie Portman como Nina: uma alma pressionada até fracionar-se.

Nina, no começo uma garota frágil e singela, passa por uma transformação impressionante. A interpretação de Natalie Portman, aliada à sua vozinha quase infantil, criam a imagem de uma Nina angelical, mas sem vontade própria e oprimida pelas pessoas de personalidade mais forte ao seu redor. A pouca vida que tem fora do ballet é controlada segundo a segundo pela mãe, ex-bailarina. Decidida a ser “apenas a melhor”, Nina tenta se mostrar com mais atitude para conseguir o papel principal na nova montagem de sua companhia: uma versão inovadora de “O lago dos Cisnes”. A partir daí ela se transforma em uma nova pessoa. É o delicado cisne branco transformando-se no vil cisne negro.

A câmera na mão, tensa, nervosa, que segue Nina, e que quase não se afasta dela, já traz consigo uma angústia logo na abertura. O Ballet, que segundo as minhas expectativas traria um contraponto de beleza e leveza ao filme, quase não é mostrado. Pelo menos não a dança em si. As facetas mais cruéis do Ballet estão todas lá: os ensaios até tarde da noite, as repetições, as cobranças, a competição entre os bailarinos, a busca pela magreza e pela perfeição de movimentos. E a perspectiva que se tem após passar por tudo isso: a substituição e a decadência, encarnadas na personagem Beth (Winona Ryder), primeira-bailarina recém aposentada da companhia.



O cisne negro: apenas uma fantasia, ou a verdadeira personalidade?

O filme assusta. É um terror psicológico misturado a algumas gotas de sangue em lugares indesejados. Unhas, principalmente. Mas não é um terror banal, é muito mais complexo do que isso. É uma crítica à competitividade exagerada, à cobrança, à obsessão, à busca da perfeição a qualquer custo. Uma crítica que não se limita ao ambiente do Ballet.

Black Swan é perturbador. Durante todo o tempo o espectador é arrastado para o universo de Nina, vive com ela suas angústias, frustrações e inibições. É quase impossível não acreditar no que ela acredita, não duvidar do que ela duvida. E isso é mérito da combinação diretor- atriz-montagem, trio que dá o tom do filme.

Natalie Portman está fantástica, não duvido que esse seja o seu ano no Oscar. Não acho, porém, que Black Swan vá ganhar muitas outras estatuetas. Muita gente vai bater o pé dizendo que ele é muito melhor do que, por exemplo, A rede social, e que merece vencer nas categorias de melhor filme e melhor diretor. Eu acho injusto dizer que um filme é melhor do que o outro, são filmes diferentes, e os dois são bons por diversos motivos. Mas Black Swan simplesmente não tem “perfil” para conquistar a academia, no meu ponto de vista. Se tratando de Oscar, porém, só esperando pra ver.

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