Orgulho e preconceito e as mulheres

Já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme “Orgulho e preconceito” (Pride and prejudice, 2005), de Joe Wright . Trata-se de uma das muitas adaptações audiovisuais do livro homônimo de Jane Austen, publicado originalmente em 1813. Até Colin Firth já foi o sisudo Mr. Darcy (e o papel é a cara dele, convenhamos), em uma produção da BBC. Foi a versão com Keira Knightley como a decidida Elizabeth Bennet, e com Matthew Macfadyene como o fechado Mr. Darcy, contudo, que trouxe a história novamente à tona e aos corações das mulheres mais românticas.


OMG Colin Firth como OMG Mr. Darcy!

Curiosa, após assistir pela décima vez (ou mais) Mr. Darcy confessar a uma perplexa Elizabeth: “I love you… most ardently!”,decidi ler o livro. Por ser um livro antigo, já muito publicado, é fácil encontrar aquelas cópias de bolso por 10 reais. Recomendo. Enfim, comecei o livro e me surpreendi ao perceber que estava “presa” à história como há muito não acontecia. Mesmo reconhecendo que o enredo que eu já conhecia do filme é extremamente semelhante ao que se passa no livro, eu não conseguia parar de ler. Sempre queria mais um capítulo, mais uma página. E é estranho pensar nisso, porque o livro inteiro gira em torno de garotas que observam pessoas se casarem, esperam que as amigas se casem, e esperam achar com quem se casar. E é isso. Então por que uma história sobre mulheres que nada mais tem a fazer a não ser enamorarem-se e casarem-se encanta tanto as mulheres atuais, que se orgulham de serem tão feministas, “modernas” e independentes? Investigaremos…

Em primeiro lugar, a escrita de Jane Austen é muito envolvente. Sua descrição das características psicológicas – muito mais do que as físicas – das personagens nos levam a conhecê-las como se convivêssemos com elas. E os diálogos são ricos em ironias e detalhes que envolvem o leitor. Já assistiu a um filme “de época” em que todos pareciam estar se ofendendo em todos os diálogos o tempo todo, mas ainda assim não deixavam de sorrir uns para os outros? Orgulho e preconceito tem essa característica. E essas “alfinetadas” que as personagens trocam entre si são muito divertidas, em especial as proferidas pela protagonista, Elizabeth.


Keira Knightley e Matthew Macfadyene no filme de Joe Wright

Além dos diálogos, o talento de Austen para descrever cenas do cotidiano e torná-las envolventes é incrível. É difícil não ficar na expectativa para ver se o Sr. Bingley irá se casar com a Srta. Bennet, ou não ficar apreensivo esperando o desfecho da fuga de Lydia com o Sr. Wickham, ou ainda não adquirir desprezo pelos modos do Sr. Collins. Não há nada de extraordinário nos acontecimentos. Não há um anel a ser destruído, não há um bruxo do mal a ser derrotado, há apenas afetos e desafetos gerados pela convivência das personagens. Para Orgulho e preconceito, porém, isso basta. E para seus leitores, também.

Por fim temos a história de amor em si. Darcy e Elizabeth se apaixonam, e o modo como isto acontece é cativante. As duas personagens jamais são mostradas como dois seres belos cheios de qualidades, muito pelo contrário, seus defeitos muitas vezes ganham o maior destaque. E é nesse processo de descobrir as qualidades por trás dos defeitos que eles se envolvem. Além disso, Lizzy é uma mulher forte, decidida, que quer se casar com o homem que gosta, não quer um casamento por dinheiro – ou teria se casado com o Sr. Collins e bye-bye Sr. Darcy. Aí está o elemento moderno do romance: um homem e uma mulher que não são perfeitos, mas são perfeitos um para o outro. Duas pessoas normais, com defeitos e qualidades normais, em seus encontros e desencontros. E é assim que o romance transcende sua época e torna-se eterno.

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