A ilha da origem.

Em que aspectos “A Ilha do medo” e “A origem”, ambos com Leonardo DiCaprio, são tão parecidos – apesar de tão diferentes – e por quê estão entre os melhores filmes do ano.

AVISO – se você não assistiu a nenhum dos dois filmes, melhor não continuar.

Em fevereiro de 2010, Martin Scorsese lançou o suspense “A ilha do medo” (Shutter Island), trazendo Leonardo DiCaprio como protagonista. Ao investigar o desaparecimento de uma paciente de um hospital psiquiátrico/prisão, o detetive Edward Daniels (DiCaprio) acaba descobrindo que a ilha guarda segredos muito mais sombrios do que ele imaginara.

“A origem” (Inception) é de lançamento mais recente, foi agora em Agosto, e acredito que ainda está em exibição em algumas salas. Assinado por Christopher Nolan, tanto no roteiro quanto na direção, o filme trata de um grupo que realiza um tipo diferente de espionagem empresarial, entrando no sonho das pessoas para descobrir seus segredos mais bem guardados. DiCaprio interpreta Dom Cobb, o especialista no processo de sonhos compartilhados, que permite que duas ou mais pessoas tenham o mesmo sonho, e líder da equipe.

A princípio, nada parecidos. “A ilha do medo” se passa em 1954, enquanto “A origem” não apresenta data definida, mas é visível que não se passa antes 2010. Então, o que conecta esses dois filmes, além de serem protagonizados pelo mesmo ator?

Não é preciso nem ao menos ser um espectador atento para responder de primeira: o trauma da personagem principal.

Tanto Daniels quanto Cobb são homens perturbados, assombrados pelo fantasma de seu passado. E, em ambos os casos, esse fantasma tem rosto e nome: Dolores (Michelle Williams), em “A ilha do medo”, e Mal (Marion Cotillard), em “A Origem”. Mulheres belas, também perturbadas, que aparecem em sonhos e delírios para os protagonistas. As duas eram seu grande amor, mas também seu amor tragicamente perdido. E as semelhanças continuam: as aparições das duas começam pontuais e crescem ao longo do filme, crescendo também a intensidade dramática de suas cenas e a confusão do espectador em relação ao quê aconteceu com elas – e qual a participação de seus amados em seus trágicos desfechos. No fim, o destino de Dolores fica muito mais claro em “A ilha do medo” do que o de Mal em “A origem”.


Marion Cotillard, em “A origem”.

Apesar da semelhança do trauma pessoal de ter perdido a mulher amada e os filhos – de forma definitiva no filme de Scorsese, e de forma reversível no de Nolan – as personagens de DiCaprio nos dois filmes são mais diferentes do que parecidas. Enquanto Ted Daniels sucumbe progressivamente à loucura, Dom Cobb segue seguro de si, mesmo quando tudo indica que perderá o controle. Enquanto Ted Daniels vai de um homem de luto pela sua perda, mas seguro de si, à um homem que não sabe mais distinguir a realidade da loucura, Dom Cobb jamais questiona o que sabe ser real. É muito interessante verificar como DiCaprio resistiu à tentação de interpretar os dois papéis da mesma forma – e a direção de atores dos dois filmes entra com força nesse aspecto.


DiCaprio com Michelle Williams, em “A ilha do medo”.

Voltando ao ambiente das semelhanças, tanto o filme se Scorsese quanto o de Nolan, trazem ao público aquela sensação angustiante de questionamento da realidade. Além de prenderem a atenção dos espectadores ao longo do filme – eu não sei quanto a vocês, mas eu passei longos minutos sem respirar em ambos -, os dois fazem com que o mundo exterior à sala de cinema pareça etéreo, inconsistente e irreal. São essas sensações, juntamente com toda a discussão que eles levantam, que faz deles ótimos filmes. Sem contar os aspectos técnicos de direção, fotografia, cenografia, direção de atores, efeitos especiais, entre outros. Mas ambos os filmes apresentam um grande defeito: as sensações de vê-los pela primeira vez nunca mais se repetem.

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